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Há 13 anos e 50 provas que Katie Ledecky não perdia nos 800 metros. A culpa é de Summer McIntosh, outro fenómeno das piscinas

Há 13 anos e 50 provas que Katie Ledecky não perdia nos 800 metros. A culpa é de Summer McIntosh, outro fenómeno das piscinas
Alex Slitz/Getty
Ainda era uma recém-teenager quando, em 2010, vira alguém a ganhar-lhe no 800 metros livres. Katie Ledecky tem os 29 melhores tempos da história nessa distância e, desde então, ganhou sete medalhas de ouro olímpicas e 21 mundiais, mas, aos 26 anos, finalmente pode estar prestar a conhecer uma adversária à altura. É a adolescente canadiana Summer McIntosh, que a dias dos Mundiais de natação derrotou a americana, 50 provas depois do último dissabor
Há 13 anos e 50 provas que Katie Ledecky não perdia nos 800 metros. A culpa é de Summer McIntosh, outro fenómeno das piscinas

Diogo Pombo

Editor de Desporto

Em Toronto, no frio do Canadá, as paredes do quarto de Summer McIntosh estavam forradas de citações de uma só nadadora enquanto a viram crescer, o cantinho das crianças que cedo nutrem um jeito especial para uma modalidade tende a ser decorado com idolatria. No seu caso, vasculhava a internet por frases inspiradoras de Katie Ledecky, imprimia as palavras em grande e colava posters onde podia. “Aprendi tanto, ela é a maior nadador em estilo livre de todos os tempos”, admitiu, há quase um ano, a adolescente em relação à adulta. Era o fenómeno seguinte na linha de sucessão das piscinas a elogiar um mito da natação.

Quando essas palavras lhe saíram, em março de 2023, a filha de mãe que em tempos deu braçadas nos Jogos Olímpicos já não era propriamente uma surpresa, nem para quem se seduzisse pela desatenção: com 16 anos, McIntosh tinha 13 medalhas internacionais, era dona do recorde mundial dos 400 metros estilos - mariposa, bruços, costas e crawl -, a sua especialidade, e competira em Tóquio, onde ficou à beira de pescar medalhas, com dois 4.ºs lugares. Adolescente de tereré no cabelo, continuou na arte de fugir ao atrito nas águas consensuais que a davam como uma mera questão de tempo.

Não até lograr o feito da madrugada de quinta-feira, mais simbólico do que valioso em termos de troféus, mas, nos píncaros da alta competição da natação onde a fixação está nos ganhos marginais e ínfimos, o que Summer McIntosh passou a significar para Katie Ledecky em Orlando, no estado da Flórida onde a canadiana vive, será combustível mental para muitos litros cúbicos. Ganhou-lhe na distância que tem em Ledecky a rainha suprema, os 800 metros livres, nos Southern Zone South Sectional Championships, prova menor do circuito norte-americano.

Katie Ledecky e Summer McIntosh nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021.
Tim Clayton - Corbis

O simbolismo inundou a piscina e é mesmo caso para tanto, porque tinha Ledecky 15 anos quando, nos Jogos de Londres, pendurou surpreendentemente o ouro ao pescoço no que seria o início de uma era de domínio absoluto, provando como a natação pode ser uma ditadura: até esta corrida na Flórida, tinha os 29 melhores tempos já cronometrados nessa média distância e a tem que se rebobinar a 2010 para se recordar alguém a tocar primeiro do que ela na parede final da piscina. Ainda nem perto de sentir o odor dos trinta à distância, Katie Ledecky é vista como a melhor nadadora da história e não perdia nos 800 metros livres há mais de 50 eventos. Tinha 13 anos.

Os oito minutos, 11 segundos e 39 centésimos registados por Summer McIntosh, hoje com 17, teriam sido suficientes para bater o tempo dourado da americana nos Jogos de Londres. Mas, para colocar as coisas comummente em perspetiva, é justo mencionar que Ledecky, em junho, nadou o seu melhor tempo em sete anos nos Nacionais dos EUA, conquistando o sexto título mundial seguido no mês seguinte. Enquadrando mais ainda, é já este domingo, em Doha, no Catar, que arranca nova edição dos Mundiais de natação com um pouco de incerteza a rodear estas duas atletas.

Porque, em Paris, a fenomenal Ledecky vai competir nos 800 metros livres para tentar ser a primeira nadadora a vencer a mesma prova em quatro Jogos consecutivos, fora nadar atrás de mais outra medalha de ouro, só mais uma, que fará dela a mulher com mais ouros da história - ultrapassando as nove de Larisa Latynina, antiga ginasta soviética. O ano passado como em 2023, o prodígio Summer McIntosh não mergulhou nessa distância. Com esta recente façanha, a dona de três gatos que chamou a um deles “Mikey”, diminutivo de Michael em honra da sua outra veneração, de apelido Phelps, poderá vir a mudar de ideias em breve.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt