Lando Norris: o primeiro campeão mundial de Fórmula 1 da geração TikTok e que prefere ser um bom tipo
Aos 26 anos, Lando Norris acabou com o domínio de Max Verstappen na Fórmula 1
Mario Renzi - Formula 1
Aos 26 anos e na sua sétima época na Fórmula 1, Lando Norris (McLaren) conquistou pela primeira vez o Mundial de Fórmula 1, após quatro anos de domínio de Max Verstappen. Os dois não podiam ser mais distintos: o britânico, um dos mais populares entre a nova geração de adeptos, disse em tempos que acreditava que não era obrigatório ter instinto matador e ganhar o Mundial. A realidade deu-lhe razão
É possível que a Fórmula 1 tenha em Lando Norris o seu primeiro campeão-vidente. Em inícios de 2023, o britânico de 26 anos, que acaba de confirmar o seu primeiro título mundial, apontou numa entrevista à revista “GQ” que as hipóteses de ser campeão mundial apareceriam talvez em 2024, mas “com mais certezas” em 2025.
Norris deu à McLaren o seu primeiro título de pilotos desde 2008, então com Lewis Hamilton, e não podia ter acertado mais na sua previsão, como quem maneja com a mesma destreza um monolugar a 300 quilómetros por hora e uma bola de cristal. Em 2024, de facto, a McLaren conseguiu pela primeira vez travar o intenso domínio da Red Bull, porém o melhor da equipa de Woking só surgiu a partir de meio da temporada. Deu para conquistar o Mundial de construtores, mas já não para roubar a Max Verstappen o seu quarto título de pilotos.
Em 2025, ainda que com uma reta final feita de alguns erros da equipa (como a dupla desclassificação em Las Vegas e as falhas na estratégia no Catar) e o inesperado ressuscitar do Red Bull de Verstappen, cumpriu-se mesmo a profecia de Lando Norris. Em 2025, como tão bem previu, a Fórmula 1 volta a ter um campeão britânico, cinco anos depois do último título de Hamilton. E, não menos relevante para quem olha para relatórios e contas e planos para o futuro, em 2025 a Fórmula 1 tem o seu primeiro campeão Gen Z, da geração TikTok - Verstappen, sabemos, mesmo tendo só mais dois anos do que Norris, sempre foi uma old soul das corridas.
Para os cartolas da Liberty Media, os norte-americanos que detêm a Fórmula 1, está aqui uma espécie de prodigioso produto final de uma linha de montagem que começou lá atrás, ainda antes da pandemia. A série “Drive to Survive” espalhou a fresca palavra da antes idosa e bafienta Fórmula 1 para um público mais jovem, feminino, global. Em 2021, num estudo encomendado pela própria F1, Lando Norris foi votado como o piloto preferido desta geração de novos adeptos, caídos de quatro pelo sorriso fácil do inglês e pela sua honesta, simpática e divertida presença online, onde, durante o confinamento, se tornou uma espécie de guru das corridas virtuais.
Mark Sutton - Formula 1
Mark Sutton - Formula 1
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Os anos talvez tenham enrijecido um pouco o charme natural de Lando, hoje mais arisco, menos descontraído, mais cuidadoso com a sua persona pública do que antes, mas é o que acontece quando a responsabilidade do sucesso se aproxima perigosamente. Intrinsecamente rápido, mas não sem os seus defeitos, que nunca tentou esconder ou dissimular - este ano esteve longe de ser um vencedor dominador -, Lando é um campeão dos novos tempos. Mesmo que a primeira paixão nem tenham sido as quatro rodas.
As origens de um prodígio
Nascido numa família afluente, em Bristol, Lando Norris começou por praticar hipismo. Rapidamente trocou o relinchar dos cavalos pelos roncos dos motores e o seu primeiro herói foi Valentino Rossi. “Eu via as provas do Valentino bem antes de começar a ver Fórmula 1, teria uns quatro anos”, confessou em 2022. Os apontamentos fluorescentes que usa no seu capacete são uma homenagem ao italiano. Os pais, Adam, um britânico que fez fortuna a gerir fundos de reforma, e Cisca, cidadã belga, compraram-lhe uma moto 4 quando fez 5 anos, moto que seria rapidamente vendida por questões de segurança: a velocidade com que cruzava o jardim da casa era tal que os pais temeram um acidente grave.
O que não cortaria o entusiasmo do miúdo pelos bafos vindos dos canos de escape. Aos 7 anos, Adam levou Lando a uma prova do campeonato britânico de karting e aí chegou a certeza que era nos circuitos onde queria estar. A conta recheada de Adam, que hoje é investidor em startups, permitiu que tanto Lando como Oliver, o seu irmão mais velho, pudessem viajar pela Europa para competir. Mas Norris não era só um puto endinheirado, tinha talento. Aos 14, Lando tornou-se o mais jovem campeão mundial de karting e dois anos depois, já a correr em monolugares, deixou a escola para se dedicar às corridas. Em 2017 sagrou-se campeão da Fórmula 3 europeia, passo decisivo para agarrar o lugar de piloto de testes da McLaren, trabalho que cumpriu com destreza ao mesmo tempo que se sagrava vice-campeão de Fórmula 2.
Hoch Zwei
Hoch Zwei
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Em 2019, com a saída de Fernando Alonso da equipa, Lando Norris transformou-se, aos 19 anos, no mais jovem piloto britânico a chegar à Fórmula 1. O magnetismo entre Norris e a categoria-rainha foi imediato, numa temporada em que se estrearam também outros dois talentos de origem britânica: George Russell e Alex Albon. A boa relação do trio e também de Norris com o colega de equipa, Carlos Sainz, que redundaram em horas de muito divertido conteúdo online, aproximaram-no do público recém-chegado, menos ligado ao legado, às equipas históricas e mais conectado com os pilotos mais jovens. Norris cedo ganhou a fama de ser um dos protagonistas mais bem-humorados do paddock.
Não de menor importância, a chegada de Norris à McLaren coincidiu com o renascimento da McLaren, depois de anos a limpar o chão à tabela do Mundial de construtores. A dupla com Sainz, além da química fora da pista, trouxe de novo resultados de relevo para a escuderia britânica. Se em corrida a experiência do espanhol ficava à vista, em qualificação Norris mostrou logo ser rápido. O primeiro pódio do britânico surgiria no ano seguinte, já em plena pandemia, num GP da Áustria sem público nas bancadas. A primeira vitória demorou um pouco mais: aconteceu apenas há 18 meses, no GP Miami de 2024. Só aí Norris arrumou com as dúvidas que persistiam sobre a sua qualidade, com as alcunhas de “Lando No Wins” (Lando Sem Vitórias, em português). A culpa, mais do que do piloto, seriam até mais dos altos e baixos e momentos de estagnação da McLaren, que terminaram a meio a última temporada.
Confiança moderada
Apesar dos desempenhos auspiciosos e da sensação sempre latente de que havia material de campeão nas entranhas do britânico, os primeiros anos de Lando Norris na Fórmula 1 foram também anos de luta interior para um piloto que não cabia - nem cabe - no estereótipo do competidor ultra-confiante, impiedoso e nunca relaxado que durante décadas foi cravado na pedra como o único caminho para o sucesso na categoria.
Em 2021, dois anos depois da estreia, Lando Norris assumiu, numa entrevista à ITV, que na sua primeira temporada se sentiu “deprimido muitas vezes” e que a pressão da Fórmula 1, onde só entram os 20 melhores pilotos do Mundo, o afetou.
“Quando chegas à Fórmula 1 aos 19 anos há muitos olhos em cima de ti e lidar com tudo isto teve o seu peso. Aquele sentimento de se isto correr mal, se eu não tiver o desempenho esperado, o que é que vai acontecer? Vou estar na Fórmula 1 no próximo ano? O que vou fazer, porque não sou lá muito bom em outras coisas da minha vida”, frisou. A popularidade nas redes sociais teve também o reverso da medalha quando as críticas começaram a surgir, mas foi nelas que o britânico cedo se apoiou para começar a advogar a necessidade dos cuidados com a saúde mental, nunca deixando de lado a noção de que, no grande esquema das coisas, é um privilegiado.
“Eu sei que sou um sortudo, viajo pelo mundo, sou bem pago. Posso fazer quase tudo o que quero na minha vida. E, por isso, por vezes sinto que não tenho o direito de me queixar ou pelo menos de me queixar tanto quanto outras pessoas”, sublinhou ao “The Guardian”.
Dan Istitene - Formula 1
Dan Istitene - Formula 1
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O estatuto de maior candidato ao título não significou um insuflar gigante da confiança do britânico, que namora com a atriz portuguesa Margarida Corceiro, com quem festejou o título no domingo em Abu Dhabi. “Nunca me vi como sendo tão bom quanto o Lewis Hamilton ou mesmo comparando-me com pilotos com quem cresci”, disse nessa mesma entrevista ao “The Guardian”, confessando que cresceu nunca pensando que seria um piloto “capaz de chegar à Fórmula 1”.
E mesmo que este ano já tenha arreganhado os dentes um pouco mais do que o normal durante a luta fratricida com o seu colega de equipa, Oscar Piastri, Lando Norris continua a afirmar que não vale tudo para ser campeão, num possível lançar de dardos ao rival Max Verstappen, com quem mantém amizade fora dos monolugares, mas com as devidas diferenças de atitude quando chega a hora de baixar a viseira e carregar no acelerador.
“Eu quero ganhar um Mundial. Mas prefiro ser um bom tipo e tentar fazê-lo bem. Eu vou fazer tudo o que puder para vencer, mas talvez não sacrifique a minha vida tanto quanto outros pilotos. Eu ainda acredito que é possível ser-se campeão mundial e fazê-lo sendo um tipo simpático”, disse ao “The Guardian”, realçando que o instinto matador que muitos dizem ser obrigatório para triunfar na Fórmula 1, e um certo bravado que não poucas vezes é glorificado no desporto, não são bem para ele: “Eu acho que é uma boa atitude para se ter em pista, mas não acho que seja a única atitude que tens de ter se quiseres ser campeão. Há certas coisas que outros campeões fizeram e que eu não faria. Eu não tenho o instinto matador de outros pilotos porque não foi assim que fui criado.”
Lando Norris tinha razão: há várias formas de se ser campeão mundial e ele escolheu a sua.