Fórmula 1

Helmut Marko, o homem a quem os pilotos da Red Bull temiam atender o telemóvel, vai afastar-se da Fórmula 1

Helmut Marko consultor da Red Bull durante o GP Países Baixos 2025, em Zandvoort
Helmut Marko consultor da Red Bull durante o GP Países Baixos 2025, em Zandvoort
NurPhoto

Mais do que um simples consultor, o austríaco de 82 anos era uma espécie de líder espiritual da Red Bull e das suas decisões resultaram oito títulos mundiais de pilotos, quatro com Sebastian Vettel e outros quatro com Max Verstappen. Politicamente incorreto, duro e impaciente, Dr. Marko, como é conhecido, diz que o campeonato perdido por apenas dois pontos por Max este ano foi decisivo para se reformar. E a Fórmula 1 perde uma das suas personagens mais controversas

Helmut Marko não podia ir embora sem estrondo. Numa das últimas vezes em que as suas cordas vocais encontraram um microfone no paddock da Fórmula 1, o vetusto austríaco, líder espiritual da igreja da Red Bull, foi o que raras vezes não é: polémico. Na penúltima prova do ano, o GP Catar, numa altura em que Max Verstappen ainda nadava à tona da água do Mundial de pilotos, Marko acusou Kimi Antonelli, jovem piloto da Mercedes, de deixar Lando Norris ultrapassá-lo sem luta, permitindo assim ao britânico amealhar mais uns pózinhos na luta pelo título que viria a conquistar no semana seguinte, em Abu Dhabi, com apenas dois pontos de vantagem.

O que se seguiu foi um chorrilho de ataques e centenas de ameaças de morte a um miúdo de 19 anos, a fazer a sua primeira temporada na Fórmula 1. A Red Bull acabou por pedir desculpas. Como em tantas outras ocasiões em que Helmut Marko abriu a boca para falar, em termos pouco simpáticos, de escuderias rivais ou pilotos, por vezes até da sua própria equipa. 

Poucas horas depois da derradeira corrida da temporada, no circuito de Yas Marina, que acabou com quatro anos de domínio do seu produto de acabamento mais fino, Max Verstappen, terminou a era Helmut Marko na Fórmula 1. Oficialmente, na ficha de salários, um simples “consultor”, o austríaco de 82 anos era mais uma espécie de guru da equipa da marca de bebidas energéticas, passando por ele a estratégia e as escolhas de pilotos, até porque, desde cedo, geriu e orientou o programa de desenvolvimento jovem da Red Bull, um dos mais bem-sucedidos - mas também um dos mais impiedosos - do desporto automóvel. 

A última celebração, com Max Verstappen, depois do neerlandês vencer o GP Abu Dhabi
Mark Thompson

“Perder por tão pouco o título mundial esta temporada teve um efeito profundo em mim e tornou claro que este é o momento certo para terminar este capítulo longo, intenso e bem-sucedido”, explicou Dr. Marko, como era conhecido, por se ter licenciado em direito antes de dedicar a vida ao automobilismo. 

Na hora do adeus, o quase sempre politicamente incorreto Helmut Marko, cujos métodos podem ser considerados eficazes, mas questionáveis, deixa um império de êxito: em 20 anos, e sob a sua supervisão, a Red Bull ganhou oito títulos de pilotos, quatro com Sebastian Vettel e quatro com Max Verstappen, dois talentos saídos da fábrica do programa jovem da marca austríaca, que colocou 17 pilotos no Mundial de Fórmula 1. Arvid Lindblad, rookie no próximo ano, pessoalmente escolhido por Marko, será o 18.º. Os pilotos com a chancela da academia da Red Bull ganharam, até agora, 137 corridas na Fórmula 1.

Bem-sucedido mas implacável

Um dos arquitetos do sucesso da Red Bull, Marko foi uma das personalidades mais controversas, mas também coloridas, das últimas duas décadas da Fórmula 1. Antes de se tornar executivo, Marko teve a sua própria carreira como piloto na categoria-rainha, abruptamente terminada quando, no GP França de 1972, uma pedra pontiaguda projetada por outro carro estilhaçou-lhe a viseira. Como consequência, Marko, então com apenas 29 anos, ficou cego do olho esquerdo e um percurso que parecia talhado para o sucesso acabava de forma cruel. 

Tornou-se empresário de alguns pilotos do seu país, como Gerhard Berger ou Karl Wendlinger, que chegariam à Fórmula 1, fundando, nos anos 80, a RSM Marko, que correu na Fórmula 3 e Fórmula 3000, então as principais portas de entrada para a Fórmula 1. A equipa tornar-se-ia a Red Bull Junior Team em 2001. 

O programa jovem da Red Bull virou aí uma verdadeira universidade de pilotos. Sebastian Vettel e Max Verstappen são os casos de maior sucesso, os melhores graduados. Foi de Marko a decisão de colocar o neerlandês, então com apenas 18 anos, ao volante do Red Bull no GP Espanha de 2016, corrida que Verstappen venceria. Daniel Ricciardo, Carlos Sainz e Alex Albon são outros pilotos que se fixaram na Fórmula 1. 

Com um muito jovem Sebastian Vettel, em 2009
Paul Gilham

Mas nem sempre os finais foram felizes. Implacável e impaciente, Helmut Marko tanto deu a mão como acabou sem peso na consciência com a carreira de muitos dos pilotos que a Red Bull apoiou. Nas últimas três temporadas, por exemplo, houve sempre danças de pilotos em plena época numa das duas equipas do universo Red Bull na Fórmula 1. Em 2026, Max Verstappen terá o seu sétimo colega de equipa desde 2018.

Pragmático, com uma personalidade forjada também pelas várias tragédias a que assistiu na Fórmula 1, como a morte do amigo Jochen Rindt, o único campeão póstumo da história da disciplina, Helmut Marko ganhou fama de insensível. Os seus telefonemas, curtos e diretos, eram celebremente temidos pelos pilotos.

Que o diga António Félix da Costa, que em 2013 soube numa parca comunicação telefónica de Marko que não teria lugar na Fórmula 1 no ano seguinte. Ou o italiano Vitantonio Liuzzi, que assumiu ao podcast The Inside Line que quando via o nome do austríaco no ecrã do telemóvel começava “a tremer”. Daniel Ricciardo e Max Verstappen também confessaram, nas celebrações dos 20 anos da Red Bull na F1, terem mentido a Marko para justificarem não atenderem os telefonemas do austríaco, sempre às primeiras horas da manhã, quando ainda estavam a dormir.

Em março, Jaime Alguersuari, espanhol que correu na Toro Rosso entre 2009 e 2011, contou à rádio britânica TalkSPORT que em 2008, quando corria na Fórmula 3 britânica, recebeu uma chamada de Marko antes da prova decisiva do campeonato a ameaçá-lo de despedimento caso não vencesse. “Não foi uma chamada de apoio, foi mesmo uma chamada para me ameaçar. Ele disse mesmo que se eu não ganhasse o campeonato estava fora do programa. E isso seria o fim da minha carreira. Foi uma chamada de um minuto”, relembrou o catalão, que venceria mesmo a categoria, antes de saltar, com apenas 19 anos, para a Fórmula 1. Não teve particular êxito - é agora DJ.

A falar com António Félix da Costa, em 2013, quando o português era piloto reserva da Red Bull
Mark Thompson

Nos últimos anos, Marko não se coibiu de criticar pilotos até da sua própria família desportiva. Em 2023, numa fase de menor fulgor de Sergio Pérez na Red Bull, apontou a herança cultural do piloto como uma das razões para os seus problemas de desempenho. “Todos sabemos que ele tem questões na qualificação, tem flutuações na forma, é sul-americano e não é completamente focado como o Verstappen é ou o Sebastian Vettel era”, disse ao canal oficial da equipa. Foi criticado pelo comentário xenófobo, para mais chamando “sul-americano” a um mexicano.

Já este ano, depois de Isack Hadjar se despistar na volta de formação do primeiro grande prémio da temporada, na Austrália, não conseguindo sequer começar a corrida, Marko descreveu a situação como “embaraçosa”. Hadjar respondeu com uma excelente temporada de rookie na Racing Bulls, onde se tornou no quinto piloto mais jovem de sempre a subir ao pódio, no GP Países Baixos. 

Agora, e numa fase de profundas mudanças na Red Bull, meses depois da saída de Christian Horner, os pilotos não mais terão de temer as chamadas do Dr. Marko, que irá descansar.

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