Fórmula 1

Kimi Antonelli, o inesperado herdeiro de Lewis Hamilton a conduzir o renascer da Mercedes na Fórmula 1

O italiano ficou em segundo lugar no Grande Prémio da Austrália
O italiano ficou em segundo lugar no Grande Prémio da Austrália
Anni Graf - Formula 1

Lembra-se do tempo que demorou a dar a volta a cada circuito e, agora, a sua reforçada memória tem mais um registo para guardar. Com 19 anos, seis meses e 17 dias, Andrea Kimi Antonelli tornou-se no piloto mais novo de sempre a garantir uma pole position na Fórmula 1 e vai dando razão à Mercedes que o escolheu para substituir Lewis Hamilton quando podia ter optado por alguém mais experiente

Há acontecimentos que causam o mesmo efeito que um terramoto, um tornado ou um incêndio. Da mesma maneira que nessas catástrofes, as decisões são tomadas com vestígios de pressão e sem um completo vislumbrar das consequências que possam ter, a Mercedes também teve que reagir à saída de Lewis Hamilton para a Ferrari sem total conhecimento dos efeitos que a escolha do substituto podia provocar.

Existiam dois caminhos. Escolher um piloto de renome e exigir-lhe que abrisse de imediato a torneira do rendimento era um. Existiam candidatos como Carlos Sainz e até Max Verstappen pareceu um alvo atingível. Outro seria ir ao jardim colher uma flor.

Andrea Kimi Antonelli ainda não tinha a carta de condução quando Toto Wolff, enquanto diretor da Mercedes, lhe transmitiu que ficaria com o lugar do britânico. Em agosto de 2024, teve a primeira experiência num carro de Fórmula 1 no circuito de Monza. Diante dos compatriotas italianos, as barreiras de proteção puseram fim ao deslumbre de que usufruiu nos treinos livres.

Kimi Antonelli e Lewis Hamilton, o presente e o passado da Mercedes
Mario Renzi - Formula 1

Foi para precaver percalços como este que a Mercedes antecipou os testes de modo a que o catraio chegasse calejado à temporada 2025. Como rookie, obteve 150 pontos e terminou em sétimo lugar num campeonato estrafegado por Lando Norris. Tinha a sua vida ultrapassado em 294 dias os 18 anos quando conseguiu, no Grande Prémio do Canadá, o primeiro de três pódios e se tornou no terceiro mais novo a marcar presença numa cerimónia reservada a crescidinhos.

As mudanças regulamentares causaram indisposição a muita gente no paddock, mas a Mercedes parece saciada. O domínio mantido entre 2014 e 2021, com oito títulos de construtores e sete de pilotos, esvaiu-se. No entanto, o arranque de 2026 parece satisfazer os requisitos para a hegemonia regressar. O inaugurar da temporada, na Austrália, resultou em vitória para George Russell e num segundo lugar para Kimi Antonelli. O desempenho foi transportado para a China, onde o inglês ganhou a corrida sprint e o italiano segurou a pole position para a corrida principal que se realiza este domingo (7h).

É inédito para Kimi Antonelli, existente há 19 anos, seis meses e 17 dias, estar numa posição tão vantajosa. Aliás, nunca ninguém tão novo tinha recebido beneplácito para ocupar o lugar mais adiantado da grelha de partida. Para Toto Wolff, o recorde mostra que a decisão de antecipar a integração do jovem vai “dar frutos no futuro”.

A Mercedes vai sendo a equipa que mais beneficiou com as alterações dos regulamentos
Mark Thompson

A integração do piloto de Bolonha na Mercedes foi repentina. Afinal, dois anos antes, competia na Fórmula 4. Importa não confundir impulsividade com desconhecimento. Kimi Antonelli começou a ser regado pela estrutura da equipa desde os 12 anos quando demonstrava ter um neurónio a mais para as corridas.

Nas prateleiras do cérebro, Kimi Antonelli tem pastas com os tempos de todas as sessões que fez na vida. “Um lugar ao volante”, assim se chama o documentário da Netflix que retrata o aparecimento relâmpago do herdeiro de uma lenda e onde é revelada esta capacidade. Na longa-metragem, Oliver Bearman, colega na Prema Racing e atualmente na Haas, pergunta-lhe: “Lembras-te de quando corremos no Mónaco? Qual foi o teu tempo de qualificação?” Antonelli tinha na cabeça a marca (52.09) que os presentes naquela reunião só conseguiram comprovar com recurso a um computador.

O disco rígido mental ainda não precisou de espaço para arcar com registos de vitórias em corridas. Lá chegará, indicam os sinais. Só já não vai a tempo de ser o mais verdinho a fazê-lo. Esse é um logro que vai continuar a pertencer ao Max Verstappen de 18 anos e 228 dias, a idade com que o neerlandês venceu o Grande Prémio de Espanha, em 2016.

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