Kimi Antonelli: o novo puto maravilha da Fórmula 1 chegou aos motores num dia de tragédia e tem em Senna a inspiração
Aos 19 anos, Kimi Antonelli lidera o Mundial de Fórmula 1
NurPhoto
Tornou-se no domingo, após vencer o GP Japão, no mais jovem líder do Mundial de pilotos, com 19 anos e 216 dias. Habituado a romper recordes desde cedo, visto como um predestinado desde os tempos dos karts, o italiano de Bolonha começa a confirmar agora a aposta feita pela Mercedes há um ano, quando substituiu Lewis Hamilton
Mirando o olhar garoto, o sorriso permanente e os caracois joviais que lhe adereçam a cabeça, será difícil acreditar que há um pouco de tragédia na história de como Andrea Kimi Antonelli se apaixonou pelos motores. Ajudou, claro, ter um pai piloto e empresário na área das competições de quatro rodas e uma mãe que deixou o emprego nos correios italianos para trabalhar nas equipas da família. Não terá atrapalhado que Kimi acompanhasse os pais por esses circuitos fora.
Mas há um dia que marca um antes e um depois.
A 23 de outubro de 2011, Itália tinha acordado com a terrível notícia da morte em pista do carismático Marco Simoncelli, no GP Malásia de MotoGP. Nesse mesmo dia, Marco Antonelli pegou no seu filho de cinco anos e levou-o a uma corrida de karts em Forlì, a uma hora de Bolonha, de onde são naturais. Marco, conhecedor das dificuldades e desilusões de uma carreira onde só um punhado de pilotos chegam ao pináculo, preferia que o filho se dedicasse ao futebol, mas ali percebeu o brilho nos olhos do filho. Meses depois, já o pequeno Kimi participava nas primeiras corridas de kart. E ganhava-as.
“O apelo dos motores sempre foi muito forte para meu filho. Chegou a ter 150 carrinhos de brincar. Punha-os no chão e organizava corridas, fazia também os comentários, com ultrapassagens e embates”, lembrou Marco Antonelli ao “Corriere della Sera” em 2024.
O que se seguiu foi uma caminhada de recordes e precocidade, que redundou em mais um feito deste miúdo de 19 anos, que ainda há alguns meses dividia as corridas de Fórmula 1 com os livros da escola secundária. Ao vencer o GP Japão, duas semanas depois de se estrear nos triunfos na categoria máxima em Xangai, Antonelli ultrapassou o colega George Russell no topo da tabela do Mundial de pilotos, tornando-se no mais jovem piloto da história a chegar lá.
Ajudou um safety car no timing mais conveniente, depois de uma partida desastrada. Em ano de mudança de regulamentos, a Mercedes parece também ser a equipa que melhor entendeu as novas linhas com que a Fórmula 1 se cose. Mas quando se pensava que este seria o ano de George Russell, é Kimi Antonelli quem, para já, prevalece.
Durante a temporada de 2024, na Fórmula 2
Chris Putnam
Durante a temporada de 2024, na Fórmula 2
Chris Putnam
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Quem acompanhou o percurso do miúdo que voltou a fazer soar o hino italiano na Fórmula 1 quase 20 anos depois da última vitória transalpina dirá que é um sucesso que apenas estava à espera de acontecer. Aos triunfos internos nos karts, juntaram-se rapidamente títulos europeus em 2020 e 2021. Pouco depois de completar 15 anos, ainda em 2021, estreou-se nos fórmulas e as vitórias não demoraram a aparecer, terminando 2022 como campeão da F4 italiana e da ADAC F4, tornando-se num dos pilotos mais bem-sucedidos da história desta categoria.
Já então Andrea Kimi Antonelli conduzia com a maturidade de um adulto, a inteligência dos predestinados. Por essa altura, já a Ferrari estaria arrependida de não ter acolhido na sua academia um rapaz nascido a apenas 40 quilómetros de Maranello. Aproveitou a Mercedes, que trouxe Antonelli para a sua família em 2018, quando o jovem tinha apenas 12 anos. A confiança era tal que o construtor alemão, de acordo com o jornal “La Repubblica”, enviou para Bolonha um dos seus preparadores físicos para trabalhar com o piloto.
Seguiu-se a Fórmula Regional Europeia em 2023, que também venceu de forma dominante. E como um bom aluno que se destaca na escola e salta um ano, Antonelli também saltou a Fórmula 3 para em 2024 competir na Fórmula 2, a principal porta de entrada para a Fórmula 1.
Mesmo que a época na Fórmula 2 não tinha sido brilhante (duas vitórias e 6º lugar no Mundial), a Mercedes viu no italiano a oportunidade de dar uma pedrada no charco: com Lewis Hamilton de partida para a Ferrari, chamou Antonelli para um dos volantes mais exigentes da Fórmula 1, tornando-o no terceiro mais jovem de sempre a começar uma corrida na categoria-rainha. E depois de uma primeira temporada de altos e baixos, com um carro nem sempre competitivo, o novo regulamento trouxe Kimi de volta aos pódios que lhe foram tão familiares neste processo.
O engano de Raikkonen e o fascínio por Senna
Ao contrário do pensamento geral, o nome do meio de Antonelli não é um tributo a certo finlandês voador, uma das figuras de proa da Fórmula 1 da primeira década do século. Os pais queriam juntar o italianíssimo nome Andrea a algo mais internacional e um amigo sugeriu-lhes Kimi. Mais do que a admiração por Kimi Raikkonen, campeão mundial em 2007, soou-lhes bem aquele Andrea Kimi.
O herói de Antonelli é outro, alguém que nunca viu correr ao vivo. Ayrton Senna continua a fascinar até quem só nasceu 12 anos depois da sua morte. O italiano escolheu o número 12, que Senna usava na Lotus, em homenagem ao brasileiro. “Infelizmente não cheguei a vê-lo vivo, mas fiquei fascinado por Senna quando, ainda miúdo, assisti a uma reportagem sobre ele na televisão. A partir daí tem sido uma fonte de inspiração, vejo muitos vídeos dele, imagens onboard”, disse aos jornalistas em 2024, ainda na Fórmula 2.
Rudy Carezzevoli
Rudy Carezzevoli
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Ao “La Repubblica”, em 2023, assumiu estar a ler a biografia de Michael Phelps e ter ficado impactado com a série “The Last Dance”, sobre Michael Jordan, de onde retirou uma importante lição. “Fiquei impressionado como alguém tão talentoso trabalhou tanto”.
Quando não está nos paddocks espalhados pelo planeta, gosta de seguir as equipas da sua cidade, o Virtus Bologna no basquetebol e o Bologna no futebol. Bom aluno - os pais sempre o pressionaram para continuar a estudar -, Antonelli é também conhecido no grid por um superpoder bem particular: lembra-se de quase todos os tempos que fez nas mais variadas sessões ao longo da carreira, com uma precisão ao centésimo.
Um computador mental que estará, neste momento, a fazer muitas contas. Embora Antonelli saiba que ainda é cedo para pensar no campeonato, o caminho, diz, está a ser bem feito. “Senti-me muito bem com o carro e estou muito satisfeito com isso”, rematou após a vitória em Suzuka, que o fez entrar na história. E não lhe falta tempo para bater o recorde de mais jovem campeão da história da Fórmula 1, registo que ainda pertence a Sebastian Vettel, que tinha 23 anos e 134 dias quando conquistou o título em 2010.