Os pilotos não gostaram nem um bocadinho da nova pista de Madrid e organização já admite alterações ao traçado
A longa procissão de carros que foi o GP Espanha
James Sutton - Formula 1
O novo GP Espanha, em Madrid, foi um sucesso de público, com mais de 350 mil pessoas nas bancadas, mas os pilotos deixaram muitas críticas ao mais recente circuito citadino do Mundial de Fórmula 1, onde é quase impossível ultrapassar. Responsáveis do Madring vão analisar possíveis mudanças
Os circuitos citadinos são todo um tipo de espécie invasora no calendário do Mundial de Fórmula 1: um organismo exótico que se espalha sem controlo, enquanto prejudica a cultura antes ali instalada. O Madring, a pista que recebe agora o GP Espanha, que se mudou da Catalunha para Madrid com um contrato de 10 anos, é só mais uma variação desta tendência, que vai jorrando dinheiro para os promotores do Mundial, mesmo que tal prejudique o interesse e espectáculo das corridas, por conta das barreiras de proteção, que tornam o traçado muito mais apertado, e da falta de escapatórias e trajetórias alternativas, que em nada promovem a luta em pista e as ultrapassagens.
O novo traçado madrileno é um híbrido, que junta infraestruturas já existentes, em torno da IFEMA, o Centro de Exposições de Madrid, com setores não-permanentes, montados a cada prova. A estreia foi este fim de semana e a organização apostou forte no ambiente e hospitalidade ibérica da cidade e nas acessibilidades - o circuito fica a uma simples viagem de metro de distância desde o centro ou do aeroporto. Mas, no final, os habitantes dos bairros ao redor do Madring não foram os únicos com queixas.
Mesmo que o fim de semana de corridas tenha levado mais de 350 mil pessoas ao recinto, tanto pilotos como responsáveis das equipas ficaram pouco impressionados com o traçado, numa prova que teve apenas quatro ultrapassagens após a primeira volta e foi uma longa procissão de carros do início ao fim. Em comparação, o GP Mónaco, infamemente conhecido por oferecer corridas aborrecidas, ofereceu 10 momentos de ultrapassagem durante a prova deste ano.
“Eu não sei como é que alguém olhou para este design e disse: ‘incrível!’”, afirmou Lando Norris, que partiu da pole e parecia o piloto com desempenho mais sólido em pista até a entrada do Virtual Safety Car lhe estragar a corrida, atirando-o para o 3º lugar, atrás de Max Verstappen (Red Bull) e do vencedor, o líder do campeonato, Kimi Antonelli (Mercedes).
O próprio Antonelli frisou no final do Grande Prémio que, tal como o Mónaco, a pista de Madrid “é muito boa numa situação de volta única”, como na qualificação, mas que é necessário criar mais zonas de ultrapassagem para domingo. “Na corrida simplesmente ficas preso atrás”, sublinhou o italiano. “Algumas curvas têm de ser mudadas, para criar mais oportunidades de ultrapassagem”, apontou ainda. Antonelli diz que o traçado do Madring não incentiva os pilotos a arriscarem porque “em 80% das vezes vais ter um contacto com o outro carro”.
Adeptos invadiram as bancadas do Madring, no último fim de semana
Pauline Ballet - Formula 1
“A reta da meta até é longa, mas não há qualquer hipótese de dois carros entrarem depois na curva lado a lado. É basicamente impossível ultrapassar”, apontou Andrea Stella, team manager da McLaren. Já Gabriel Bortoletto, piloto da Audi, fala de uma experiência pouco interessante para quem viu a corrida e para quem conduziu na pista: “Até eu ia adormecendo”, brincou.
Pilotos não foram ouvidos
De acordo com Max Verstappen, que também não gostou nem um bocadinho do novo circuito de Madrid, os pilotos não foram consultados sobre o traçado. Ouvir os que baixam a viseira e são os protagonistas em pista algo que não é comum, reconhece, mas aconteceu, por exemplo, com o circuito de Jeddah, na Arábia Saudita, também citadino. “Aí conseguimos mudar algumas coisas, mas este tipo de consulta deve ser feita mesmo antes da pista começar a ser construída”, defendeu o neerlandês.
Tanto Toto Wolff, chefe da Mercedes, como Frédéric Vasseur, da Ferrari, foram muito elogiosos com a organização e a envolvência da corrida de estreia em Madrid, mostrando por isso alguma parcimónia na hora de maldizer. Ainda assim, ambos revelaram aos jornalistas que houve conversas com os responsáveis da pista e que há abertura para fazer alterações no traçado, que não padece das crónicas questões logísticas de falta de espaço do Mónaco.
Ao “Autosport”, Luis Garcia Abad, gestor do Madring, confirmou que a própria FIA já identificou de que forma a pista pode ser melhorada. “Estamos abertos a alterações, até porque vamos ter de reinstalar a estrutura no próximo ano. Creio que os pilotos gostaram muito da qualificação, mas vamos tentar fazer melhorias. Temos espaço, temos as instalações e a capacidade para o fazer”, realçou.
E se quiserem sugestões, Lando Norris tem um par delas. “Deviam ver-se livres das curvas 18 e 19, são inúteis. Façam mais uma reta e um cotovelo”, apontou o campeão em título. Que se tomem notas em Madrid.