Futebol feminino

Um tempero de passado para o regresso ao futuro: Portugal entrou a ganhar no apuramento rumo ao Mundial feminino

As jogadoras da seleção nacional feminina a abraçarem Lúcia Alves durante o festejo do grande golo marcado pela defesa do Benfica
As jogadoras da seleção nacional feminina a abraçarem Lúcia Alves durante o festejo do grande golo marcado pela defesa do Benfica
Diogo Cardoso

A seleção nacional venceu, por 2-0, a Finlândia na partida inaugural da qualificação rumo ao que pretende que seja a sua segunda presença num Campeonato do Mundo. Esse é o futuro. Para o alcançar, Francisco Neto montou Portugal no velho 4-4-2 losando que só na segunda parte encostou as adversárias às cordas. Os golos (um deles um golaço, de Lúcia Alves) surgiram no fim, mas Kika Nazareth apareceu sempre

Quem estava de visita ameaçou com contra-ataques rápidos que chegavam à baliza de Inês Pereira. Na outra área, Kika preparou uma tentativa de bicicleta e foi abalroada no ar. As finlandesas pressionaram alto. A largura no jogo português entregue às laterais e a diagonais ocasionais de uma das avançadas. Os narradores do encontro na televisão enalteceram a centena e tal de internacionalizações de algumas jogadoras da seleção. A guarda-redes do país mais feliz do mundo a ter uma atrapalhação infeliz com a bola, Jessica roubou-a e a passou-a a Diana, que quase marcou.

Este seria um resumo desgarrado, à maior aleatório, de meio-jogo de Portugal contra a Finlândia.

Outro seria frisar, com acentuado afinco, como a seleção se apresentou pela primeira vez em 2026 da mesma forma como em tantos dos 12 anos com Francisco Neto: em 4-4-2, sem extremos, assente num losango de médias, um tempero do seu passado com o selecionador para um regresso ao futuro por este ser o jogo inaugural do apuramento rumo ao Mundial de 2027, com o embalo de Portugal ter estado no anterior. Mas há influências, uma vez postas, que permanecem imutáveis.

É a de Kika Nazareth e do seu o toque de caxemira com supercola no jogo português. A íman de bem jogar desbloqueou, com um túnel na receção orientada, a jogada da melhor ocasião de Portugal antes do intervalo, antes de servir um remate estiloso de Andréia Faria, vindo cheio de efeito do seu pé esquerdo.

Francisca Nazareth a controlar a bola na partida da seleção contra a Finlândia
Diogo Cardoso

A segunda fatia da partida teve uma versão mais afirmativa da seleção nacional, ousada no ímpeto atacante e usurpadora da bola. As portuguesas encostaram as finlandesas à sua área, os passes mais para a frente do que para os lados. As laterais cruzavam, Diana Silva desviava, Kika rematava, até uma bola posta na área por Jorna Marchão quase dava em auto-golo. As nórdicas entre quem raro era encontrar uma morena demoraram 20 minutos a aproximarem-se, sem ameaçar, da baliza nacional.

O jogo era português, esplanado sem solavancos em 70 metros do relvado de Vizela e diante das suas bancadas bem recheadas. Faltavam os restantes 30, o último passe, o remate atinado, a calma para o assomo dos nervos, do milésimo de pensamento intrusivo, de qualquer coisa que fosse não trair o derradeiro gesto. Até Kika, com a baliza escancarada, disparou sem lhe acertar quando dentro da área estava.

Sem mexer na estrutura, Francisco Neto já trocara de avançadas (Ana Capeta e Carolina Santiago) e de uma lateral, acertando na muche com essa mudança: quando a maestrina da seleção a viu em modo ilha, sozinha à esquerda, e lhe lançou um passe, Lúcia Alves não foi de modos, armou o pontapé e saiu-lhe um golaço a 30 metros da baliza. O jogo estava prestes a entrar nos descontos e Portugal acentuou a pressa quando, após recuperar a bola dentro da metade finlandesa, a maior novidade da seleção engordar a festa.

Carolina Santiago pediu uma tabeça à paciente Kika Nazareth, cuja calma a fixar a adversária antes de devolver o passe lançou a jovem do Sporting para se estrear a marcar, à quarta internacionalização. O jogo enlouqueceria um pouco mais com o relógio a dar horas, quando Tatiana Pinto cometeu um penálti e Eveliina Summanen assumiu a responsabilidade de elevar Inês Pereira a figura: a guarda-redes do Deportivo La Coruña parou o remate da média do Tottenham. As gentes de Vizela pintaram a noite com mais ruído de festa.

Num grupo que as obrigará a medirem-se também com letãs e eslovacas, as portuguesas que ainda são as do costume (as novatas, como Carolina Santiago, Andreia Bravo ou Beatriz Fonseca, estiveram no banco) arrancam com o hábito de uma velha estrutura, organizadas quase de memória. Este foi o início de uma campanha para o futuro onde o passado ainda serve de base, veremos se poderá vir a ser mutável.

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