Futebol feminino

A espiã com quatro passaportes: Erica Meg joga no Valadares Gaia e foi convocada pela Inglaterra aos 17 anos

A média percorreu as seleções jovens das Lionesses
A média percorreu as seleções jovens das Lionesses
Franco Arland - The FA

No próximo estágio das bicampeãs da Europa, ao lado das melhores jogadoras da WSL e da Liga dos Campeões, vai estar uma jovem de 17 anos do Valadares Gaia. Nascida em Singapura, filha de pai inglês e mãe japonesa, Erica Meg vive em Portugal desde que celebrou uma década e foi a grande surpresa da convocatória da Sarina Wiegman

O poliglotismo é uma condição essencial para os espiões. A missão de Erica Meg era obter informações valiosas para a Inglaterra no meio das jogadoras, umas a defender, outras a atacar, que fazem de qualquer canto ou livre lateral uma parafernália. De soslaio, obteve o que precisava.

As frases proferidas pelas adversárias chegavam em formato de código às restantes jogadoras inglesas. Pelo contrário, Meg já as tinha ouvido antes e, graças ao domínio do idioma, fez a tradução das ideias trocadas pelas portuguesas para que as colegas de equipa também as percebessem, sorvendo o efeito surpresa à oposição.

A confissão feita pela própria parece, uma vez assim contada, um excerto do livro de memórias de uma infiltrada. Para alguém com apenas 17 anos, parece improvável. Ainda assim, nesse dia, no Euro sub-19, realizado em junho, um Portugal com a estratégia exposta ganhou por 4-1 à Inglaterra, resultado que impulsionou a presença nas meias-finais.

Erica Meg obteve os conhecimentos linguísticos ao longo do tempo em que viveu em Portugal. Além de português, fala também inglês, francês e japonês. Filha de pai britânico e mãe nipónica, mudou-se de Singapura, onde nasceu, para o norte do país na altura em que celebrou uma década de vida. O talento do irmão, Denis Parkinson, interessou ao FC Porto e a família veio a reboque do jogador agora de 20 anos, atualmente nos sub-23 do Famalicão.

Erica Meg vem de uma família multicultural. O pai é inglês e a mãe japonesa
Franco Arland - The FA

A fase de descolagem de Erica Meg também se cruzou com os dragões. Após representar o FC Foz, mudou-se para o Leixões. Com a equipa de Matosinhos, competiu no Campeonato Nacional sub-15 (2ª Divisão) e estreou-se frente aos azuis e brancos. Escusado será dizer que a prova era maioritariamente frequentada por rapazes. De qualquer modo, Meg intrometeu-se num patamar onde já não é habitual existirem misturas.

Na época seguinte, em 2023/24, já estava a emprestar habilidades às seniores do Valadares Gaia, na 1ª Divisão feminina, apenas com 16 anos. O impacto no campeonato valeu-lhe, na temporada passada, o prémio de melhor jovem atribuído pelo Sindicato dos Jogadores, sucedendo à canadiana do Arsenal, Olivia Smith.

Valadares não é o sítio mais à mão para a seleção bicampeã da Europa e vice-campeã do mundo reabastecer o depósito de talento. No entanto, Inglaterra não deixou Erica Meg perder-se. Aos 17 anos, foi convocada pela primeira vez por Sarina Wiegman. Embora não se encontre no mais óbvio dos campeonatos, o poço de criatividade de qualquer meio-campo tem-se desenvolvido nos escalões jovens das Lionesses, tendo jogado pelas sub-17, sub-19 e sub-23.

Erica Meg esteve desde sempre debaixo do radar da Inglaterra, que não vai dando hipótese aos outros países que a jovem está apta a representar - Portugal, Singapura e Japão - de lhe tocarem. A precoce chamada à seleção A parece dar mais pontos de fidelidade à relação.

A média ficou “sem palavras” quando Sarina Wiegman lhe ligou, desbocou-se a selecionadora que precisou de alguém para substituir as lesionadas Ella Toone e Grace Clinton. Para os que também ficaram chocados com o “grande passo”, a neerlandesa esclareceu: “Gosto de surpresas.”

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A lista é composta maioritariamente por jogadoras que atuam na Women's Super League (18), cinco das quais venceram a Liga dos Campeões na época passada pelo Arsenal. No balneário, vai ser preciso arrumar bem o estatuto, para a intrusa ter onde se sentar.

Meg “não vai diretamente para o onze inicial” uma vez que Wiegman se recusa a “forçar algo”. “É uma aprendizagem para ela, mas espero que se adapte rapidamente. É uma média ofensiva e muito dinâmica. É muito agressiva e quer jogar para a frente. É muito técnica.”

A Inglaterra vai enfrentar a Espanha e a Islândia na qualificação para o Mundial 2027. Erica Meg festeja o 18º aniversário na data do segundo jogo. Neste caso, o desejo concretizou-se antes de trincar uma vela.

Ainda a terminar os estudos numa escola internacional, talvez os altos voos possam esperar pelo sucesso escolar. O ninho do Valadares Gaia começa a ser pequeno.

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