Futebol feminino

Jogo sem fronteiras: equipa feminina norte-coreana de futebol entra no Sul quase oito anos depois

Jogo sem fronteiras: equipa feminina norte-coreana de futebol entra no Sul quase oito anos depois
Asian Football Confederation

A equipa feminina do Naegohyang FC aterrou na Coreia do Sul sob forte segurança e em silêncio absoluto para disputar uma meia-final da Liga dos Campeões Asiática. O jogo frente ao Suwon esgotou bilhetes e ultrapassa largamente o futebol. Um raro encontro entre duas Coreias num relvado sem bandeiras nem hinos

Há jogos de futebol que não mudam o mundo, mas carregam simbolismo suficiente para suspender por instantes a rigidez das fronteiras. Uma equipa feminina de futebol norte-coreana entrou na Coreia do Sul pela primeira vez em quase oito anos, uma raridade absoluta vinda de um dos regimes mais herméticos do mundo.

A chegada aconteceu este domingo, em Incheon, sob um dispositivo de segurança apertado e um enquadramento discreto por parte das autoridades sul-coreanas. Ao todo, a delegação do Naegohyang FC — 39 pessoas entre jogadoras e equipa técnica — atravessou a fronteira aérea a partir de Pequim antes de seguir diretamente para Suwon, onde na quarta-feira vai defrontar o Suwon FC Women na meia-final da Liga dos Campeões Feminina da Confederação Asiática de Futebol.

A entrada em território sul-coreano não teve cerimónia. De acordo com a CNN, as jogadoras surgiram no aeroporto vestidas de forma coordenada, com blazers e saias, e evitaram qualquer contacto com os grupos que as aguardavam com mensagens de boas-vindas. Caminharam em silêncio até ao autocarro e deixaram o local sob escolta policial.

A Reuters acrescenta que o regime de estadia foi autorizado ao abrigo da lei de intercâmbios inter-coreanos, permitindo a permanência até ao próximo fim de semana, embora a equipa possa regressar mais cedo caso seja eliminada. Esse enquadramento temporário reforça a natureza condicionada da presença: uma visita que depende tanto da logística como do resultado desportivo.

Segundo meios de comunicação locais, as duas equipas irão permanecer sob um regime de circulação e logística estritamente separado durante a competição, incluindo áreas de alimentação e trajetos distintos dentro do recinto desportivo. A organização procura assim minimizar qualquer contacto direto entre delegações, mantendo a interação entre as partes reduzida ao estritamente necessário no contexto competitivo.

O contexto político torna o episódio particularmente excecional. Nos últimos anos, as relações entre as duas Coreias têm-se deteriorado de forma consistente, com Pyongyang a reforçar a narrativa de separação definitiva da península. Alterações constitucionais recentes definem o Norte e o Sul como Estados distintos e eliminam a linguagem associada à reunificação, num sinal claro de endurecimento político.

Ainda assim, o futebol introduz uma brecha temporária nesse quadro. O jogo de Suwon decorre no âmbito de uma competição de clubes, o que reduz a carga diplomática formal do encontro. Não haverá hinos nacionais nem símbolos políticos, incluindo a bandeira da unificação coreana, em conformidade com as regras da Confederação Asiática de Futebol.

O interesse público, porém, foi imediato. Segundo a Reuters, os mais de sete mil bilhetes disponíveis esgotaram em cerca de um dia. Parte da procura terá vindo de grupos civis que organizaram uma claque conjunta, num gesto que procura acompanhar simbolicamente as duas equipas.

A última vez que atletas norte-coreanas estiveram no Sul foi em 2018, num contexto de aproximação diplomática que incluiu equipas conjuntas em modalidades como o hóquei no gelo nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang e uma participação conjunta no ténis de mesa em competições internacionais.

A Coreia do Norte tem registado conquistas relevantes nas competições de formação, com títulos recentes nos mundiais sub-20 e sub-17 femininos.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: clubeexpresso@expresso.impresa.pt