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    “A formação feminina ficou um bocadinho mais esquecida e consideramos que está na hora de a agarrar“: FPF quer crescimento sustentado

    Equipa do Benfica é hexacampeã nacional.
    Equipa do Benfica é hexacampeã nacional.
    Carlos Rodrigues

    Há quase quatro vezes mais mulheres praticantes de futebol do que em 2019 e número de equipas triplicou no mesmo período. FPF quer aposta nas camadas jovens e dar mais visibilidade ao futebol no feminino, com atração de parceiros comerciais e da melhoria das condições oferecidas pelos clubes

    O número de praticantes femininas nas modalidades tuteladas pela Federação Portuguesa de Futebol ultrapassou as 21 mil em junho, enquanto o futebol manteve cerca de 13 mil atletas, confirmando a tendência de crescimento registada desde 2018/19.

    Os números revelados pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) confirmam a tendência de crescimento do futebol feminino nacional, que tem vindo a aumentar de forma consistente nos últimos anos, e em todos os escalões, após a quebra temporária provocada pela pandemia de covid-19 na época 2020/21.

    Segundo o Plano Estratégico do Futebol Feminino 2025-2029 da FPF, o número de praticantes femininas mais do que duplicou desde 2018/19, quando estavam inscritas 5584 atletas, passando na época 2024/25 para 13.888 atletas.

    Na época em curso, sofreu uma ligeira variação, situando-se agora nas 13.873 inscritas.

    Se contabilizado o número global de praticantes — que engloba também o futsal e o futebol de praia — , o total sobe de 20.867 na época 2024/25 para 21.358 em junho de 2026, representando um crescimento de 2,35%.

    A análise da distribuição das atletas por escalões evidencia um crescimento sustentado das categorias sub-13, sub-15 e sub-17.

    Em contrapartida, os escalões sub-7 e sub-9 apresentam uma evolução mais estável, enquanto a representatividade das seniores diminuiu após o pico de 32% registado em 2020/21 para 17% em 2023/2024, um valor que a FPF associa ao contexto excecional da pandemia.

    Equipa de futebol feminino do FC Porto foi criada há dois anos. Já disputou uma final da Taça de Portugal e vai jogar na primeira divisão na próxima temporada
    Eurasia Sport Images

    A evolução da prática tem sido acompanhada pelo aumento do número de equipas, clubes e competições femininas que caiu durante a pandemia (2019/20 e 2020/21), mas recuperou desde 2021/22, estabilizando em torno de 17/18 competições nas épocas mais recentes.

    De acordo com o documento estratégico da FPF, o número de equipas de futebol feminino quase triplicou entre as épocas 2018/19 e 2024/25, passando de 550 para 1498, enquanto o número de clubes subiu de 209 para 420 no mesmo período.

    Nos últimos anos, a evolução refletiu-se também nos resultados desportivos da seleção nacional 'AA' feminina, que ocupa atualmente o 22º lugar do ranking da FIFA, depois da derrota frente à Finlândia, no último encontro da primeira fase de qualificação para o Mundial de 2027, em 9 de junho.

    Reforço dos escalões de formação

    Sofia Teles, diretora para o futebol feminino da FPF, defendeu em entrevista à Lusa que, durante muitos anos, o futebol feminino em Portugal desenvolveu-se de forma inversa à evolução habitual, privilegiando as competições seniores antes da consolidação dos escalões de formação. Construímos a casa pelo telhado, sintetizou, explicando que a prioridade passa agora por criar um percurso competitivo mais consistente desde as idades mais jovens.

    Essa estratégia está refletida no Plano Estratégico para o Futebol Feminino 2025-2029, apresentado pela FPF, que identifica a formação como um dos eixos centrais de intervenção e prevê um conjunto de 97 medidas, assentes em seis eixos estratégicos, destinadas a reforçar a transição das atletas para o futebol sénior, entre as quais a criação da primeira Liga Nacional feminina de sub-17, que arranca na próxima época 2026/27, com 12 equipas.

    Segundo Sofia Teles, a nova prova deverá envolver cerca de 300 futebolistas, considerando plantéis entre 25 e 27 jogadoras por equipa, representando um passo importante na consolidação do percurso competitivo do futebol feminino. Queremos aumentar a nossa base de recrutamento e aumentar a qualidade das jogadoras (...) e para isso temos que as formar, de as educar, de fazer com que elas façam e queiram fazer parte desta nossa modalidade”.

    Até 2029, a FPF pretende ainda elevar para 27 mil o número de praticantes femininas, contar com seis equipas profissionais na liga principal, aumentar em 50% a assistência média, bem como alcançar o 20º lugar do ranking FIFA e uma média de seis mil espectadores nos jogos da seleção 'AA'.

    Seleção nacional conseguiu recentemente a subida à Liga A das Liga das Nações.
    Gualter Fatia

    Para Sofia Teles, o crescimento da modalidade deixou de depender exclusivamente da capacidade para atrair novas praticantes e passa, sobretudo, por conseguir que essas atletas permaneçam no futebol até atingirem o alto rendimento. “É fácil falarmos da Liga, da seleção e da visibilidade. A formação feminina ficou um bocadinho mais esquecida e consideramos que está na hora de a agarrar”, afirmou.

    O Plano Estratégico reconhece que, apesar do crescimento sustentado dos escalões de formação, a transição para o futebol sénior continua a ser um dos principais desafios, propondo o estudo das causas do abandono da prática, a reavaliação das competições seniores e o reforço da profissionalização da liga principal como instrumentos para melhorar a retenção das jogadoras.

    Questionada sobre os principais entraves ao desenvolvimento da modalidade, Sofia Teles apontou a insuficiência de infraestruturas desportivas e a persistência de barreiras culturais. “Há uma falta de infraestruturas desportivas em Portugal. Se juntarmos isso às barreiras culturais, ainda se torna mais difícil alimentarmos o número de praticantes”, afirmou.

    Apesar desses constrangimentos, considera que atualmente o contexto é substancialmente diferente, com o futebol feminino a atravessar uma fase de expansão. Estamos num patamar de crescimento, de expansão. Estamos a tentar ultrapassar barreiras, como a cultural e a da visibilidadeque noutros países já estão mais esbatidas —, mas ainda temos de dar esse salto para conseguirmos aumentar o número de praticantes, afirmou.

    Sofia Teles assumiu a direção do futebol feminino da FPF em março de 2025
    Europa Press Sports

    No plano competitivo, a dirigente admitiu que a profissionalização continua a ser um dos principais desafios. Nos últimos anos, conseguimos perceber uma evolução do número de jogadoras que são profissionais em contrapartida com aquilo que eram anteriormente. Mas isto verifica-se, sobretudo, ao nível da Liga — em que 72% das atletas são profissionais—, que é o nosso expoente máximo. Quando falamos da segunda, terceira ou quarta divisões, já não há tanto esta capacidade de termos as jogadoras profissionais ou condições profissionais para as jogadoras. Obviamente que esse é o objetivo, mas demora o seu tempo, há um processo que tem que ser seguido, como aconteceu com o masculino, disse.

    Embora a liga feminina concentre um número crescente de jogadoras profissionais, Sofia Teles considera que a evolução depende também do reforço da visibilidade, da atração de parceiros comerciais e da melhoria das condições oferecidas pelos clubes. A responsável destacou ainda a qualificação inédita da seleção nacional feminina de sub-20 para o Campeonato do Mundo, em setembro, como outro sinal da evolução em Portugal.

    Questionada sobre a execução financeira do Plano Estratégico, Sofia Teles admitiu que não há um valor global, mas explicou que as medidas serão implementadas de forma faseada, de acordo com as prioridades definidas pela FPF, recordando que o investimento global previsto para o futebol, futsal e futebol de praia femininos aumenta na próxima época, de 22 para 23 milhões de euros.

    Texto escrito por Maria Beatriz Batalha e editado por Lídia Paralta Gomes

    Notícia corrigida às 17h25, com distribuição certa das atletas entre futebol, futsal e futebol de praia.

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