Intransponível como um muro, Michaely Bihina foi a luva de ouro da CAN. Logo ela que mal jogou no Benfica
A guarda-redes Michaely Bihina a zelar pela segurança da baliza dos Camarões durante a CAN feminina
JALAL MORCHIDI
Com quatro penáltis defendidos, quatro folhas limpas e o recorde de defesas num só jogo da CAN, a jogadora de 22 anos foi considerada a melhor guarda-redes do torneio. Desde que se transferiu para as encarnadas foi somente a terceira opção para a baliza do Benfica, mas sem ela a seleção camaronesa não teria sido campeã de África pela primeira vez
Estávamos a meio da época 2025/26. O Racing Power tinha acabado de perder por 5-0 contra o Benfica. Não foi por aquilo que Michaely Bihina fez nesse jogo para evitar a goleada: na semana seguinte, acabou a ser apresentada como cara nova do clube encarnado.
No percurso da guarda-redes de 22 anos, a cada momento de desilusão parece corresponder um momento de conquista. Apesar da “grande oportunidade” e da “realização de um sonho”, a preponderância que tinha no clube de Setúbal foi desconsiderada depois da transferência. O resto da temporada no Benfica foi passado na sombra de Lena Pauels e de Thaís Lima. Com a patente de terceira guardiã, os pingos de utilização limitaram-na a 15 minutos em campo.
Muita vontade de estar diante dos postes ficou por desempacotar após a mudança para a nova casa. A energia reservada foi posta ao serviço da seleção durante uma CAN praticamente imaculada. Os Camarões conquistaram a competição continental pela primeira vez e o triunfo foi uma obra da autoria de Michaely Bihina.
Ninguém se destacou mais do que a jogadora de Ekounou na competição. Pelo menos, entre aquelas que usam luvas para melhor desempenharem a sua função. Os obstáculos ultrapassados valorizaram o desfecho. Nos quartos de final, as camaronesas eliminaram a Nigéria, país dez vezes vencedor da CAN feminina. Algo extraordinário teve de acontecer para a diferença ser esbatida, tal como um novo recorde de defesas num só jogo do torneio (nove).
Se a superação de Michaely Bihina tivesse ficado por aí, os Camarões não tinham levado o título. A guarda-redes teve que repetir a exibição imponente. A dois minutos do final do prolongamento, nas meias-finais, travou uma grande penalidade com toda a sua presença longitudinal a ser enviada para o remate de Fatima Tagnaout. No entanto, para eliminar Marrocos, anfitrião da prova, bloqueou outros três remates no desempate que se seguiu.
Michaely Bihina defendeu um penálti a dois minutos do final do prolongamento contra Marrocos
JALAL MORCHIDI
A qualificação para o Mundial do próximo verão já estava assegurada. Conseguir o epíteto de campeã africana ficou dependente de uma vitória contra o Malawi, feito conseguido com sucesso (3-0). No jogo decisivo, Michaely Bihina alcançou o quarto jogo sem sofrer golos na competição. Apenas na estreia na fase de grupos, contra o Mali, não conseguiu garantir a catarse da baliza.
A luva de ouro foi-lhe entregue e a carreira esmiuçada. A imprensa que acompanhou o torneio descobriu que começou a jogar como avançada. Meros seis meses depois teve de vestir as luvas - porque a colega que ocupava o posto se atrasou para um jogo - já estava a ser chamada pelas seleções jovens dos Camarões. O talento para vigiar o interior dos postes convenceu também o Racing Power a contratá-la ao Éclair de Saa em 2022/23, altura em que o clube finalista da Taça de Portugal, há dois anos, ainda se encontrava na Segunda Divisão.
A exuberância do troféu brilhante, os ululantes caracóis, os óculos para proteger os olhos dos líquidos que voaram durante os festejos. O Benfica tem na reserva uma personagem carismática talhada para ser figura e que humildemente reclama aposta, apesar da muito válida concorrência.