Futebol feminino

Portugal e a beleza das primeiras vezes no futebol feminino

A avançada Carolina Santiago é um dos rostos do sucesso da seleção sub-20: a avançada joga no Sporting
A avançada Carolina Santiago é um dos rostos do sucesso da seleção sub-20: a avançada joga no Sporting

Uma seleção jovem de Portugal vai estrear-se num Campeonato do Mundo de sub-20, dias depois do primeiro título internacional do país nos Jogos do Mediterrâneo. A treinadora, a diretora e uma jogadora falam do que aí vem, admitem o atraso - “Acho sempre que chegamos tarde, porque chegámos tarde a tudo” -, mas garantem que vão à Polónia para dentar ainda mais a história do futebol feminino português

Portugal e a beleza das primeiras vezes no futebol feminino

Ana Baião

Fotojornalista

Sofia Teles chega com o passo apressado de quem está numa semana daquelas. Desculpa-se pelo atraso, ainda que não houvesse propriamente uma hora certa para a conversa com a Tribuna Expresso. Na verdade, há uma excelente razão por trás desta chegada tardia, uma daquelas razões que há uma década seria inimaginável. A diretora para o futebol feminino da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) veio diretamente do aeroporto para a Cidade do Futebol. Acaba de chegar de Taranto, em Itália, onde a seleção sub-18 conquistara, horas antes, a medalha de ouro nos Jogos do Mediterrâneo. Daqui a poucos dias estará de novo num avião, desta vez para acompanhar a estreia de Portugal num Mundial sub-20 feminino.

Não ter parança é, sem dúvida, “espetacular, um grande sinal”, aponta a dirigente. Mesmo sem ser numa prova da UEFA ou FIFA, a vitória conquistada em Itália, lembra, “é o primeiro título internacional do futebol feminino português” e isso é um motivo “de grande satisfação”. Na segunda-feira, Portugal dá mais um inédito passo em terra por desbravar: pela primeira vez, uma seleção jovem portuguesa estará num Mundial sub-20, lugar agarrado depois de chegar às meias-finais do Euro sub-19, em 2025. Na Polónia, as jovens portuguesas terão como adversárias, no Grupo E, a campeã em título Coreia do Norte, a Colômbia e a Costa Rica.

A Marisa Gomes, que além de treinadora desta geração é coordenadora técnica das seleções nacionais, não lhe falta experiência em momentos históricos. Está desde 2012 na FPF, nesses tempos em que estas correrias entre aeroportos e competições eram coisas para outras nações. Fez parte da equipa técnica da seleção principal aquando da primeira qualificação para um Europeu sénior, em 2017, e diz que os dias de estágio antes das competições “vivem-se sempre com muito entusiasmo”, num “misto de orgulho e alguma ansiedade para começar a jogar”.

A evolução

Para esta geração, estar em grandes competições há muito deixou de ser uma impossibilidade. Várias das futebolistas que vão estar na Polónia jogaram o Euro sub-17 de 2024, muitas mais (14 das 21 chamadas) estiveram no Campeonato da Europa sub-19 do ano passado. Construíram uma continuidade nos maiores palcos que o futebol feminino português ainda procura normalizar.

Pelos quadros táticos de Marisa Gomes já passaram dezenas e dezenas de jovens jogadoras. Questionamos se não se chegou demasiado tarde a um Mundial sub-20. “Acho sempre que chegamos tarde, porque chegámos tarde a tudo”, atira. Não acredita que haja características “especiais” nesta geração, mas admite que tem algo de diferente. “Em momentos de dificuldade, conseguiu crescer. Mesmo correndo riscos de não se qualificar, procurou, lutou e conseguiu. É preciso ter resiliência, capacidade de trabalho, porque o talento só não chega. Esta equipa sabe ser um grupo”, sublinha.

E neste grupo há gente já com muito arcabouço competitivo. Como Carolina Santiago, atacante do Sporting, considerada a melhor jovem da última Liga BPI. Aos 20 anos, conta já com nove aparições na seleção principal. A estreia foi há um ano, logo a titular e logo num encontro histórico, na primeira vitória de Portugal frente aos Estados Unidos. Estar “nestes contextos novos e diferentes” tem ajudado Carolina, que acredita que pode trazer “essa maturidade” que foi ganhando para a equipa. “Mas muitas das minhas colegas também já estão a jogar em equipas principais, todas estamos muito preparadas para isto”, sublinha.

Carolina aponta que é preciso “ter os pés assentes na terra” para este Mundial, mas também fala em “ganhar”, di-lo com veemência. “Nós não vamos para lá pensar em derrota”, atira. Também está aqui uma diferença entre as seleções que Marisa Gomes encontrou em 2012 e a realidade atual. Frisa que não é comparável o nível das condições de trabalho das novas gerações e que, por isso, “mentalmente, fisicamente, em termos técnicos, há toda uma nova bagagem” das jogadoras que surgem agora cada vez mais preparadas. “Isso dá-nos uma capacidade de trabalho completamente diferente”, aponta.

Por vezes, o que é mais difícil de moldar é mesmo o querer. “Em 2012, quando eu entrei, a conquista de pequenas coisas era muito valorizada. Atualmente, essas coisas acabam por não ter o mesmo sabor. Nós temos falado nisso com o grupo, usando até uma entrevista que vimos do Cristiano Ronaldo em que ele fala do filho e diz que o mais difícil é passar-lhe a fome”, conta, lembrando que os grandes sucessos da geração que se apurou pela primeira vez para um Europeu sénior, em 2017, e depois para o Mundial de 2023 aconteceram “pela capacidade de superar dificuldades” dessas jogadoras, muitas delas forjadas em contextos ainda longe das condições que neste momento já existem.

Mais atletas e mais formação

O que não quer dizer que já esteja tudo nos carris. A seleção sénior esteve nos últimos três Europeus de forma consecutiva. Olhando para as seleções jovens, Portugal conta apenas com três qualificações para o Euro sub-17 (2014, 2019 e 2024) e duas no Euro sub-19, em 2012 e em 2025. Ambos os escalões não se qualificaram para os Europeus deste ano. “As duas equipas fizeram sete pontos e não se apuraram, por diferença de golos”, lamenta Marisa Gomes. O processo é mais importante do que o resultado, realça. “Mas, claramente, nós trabalhamos para resultados, porque são eles que permitem que as jogadoras e equipas técnicas cresçam nas fases finais”, lembra. Marisa Gomes sublinha que, em termos de qualidade de jogo, Portugal tem todas as condições para estar consecutivamente em fases finais: “Há muitos campeonatos em que não estamos e estão equipas que não têm a mesma qualidade que nós. E nós sentimos que as nossas jogadoras têm de ter estes palcos.”

Carolina Santiago espera que o percurso desta geração inspire “e possa servir de exemplo para as mais novas, para começarem a acreditar que um dia poderão também estar nestas competições”. Mas é preciso mais do que crença. Sofia Teles reforça a ideia de que Portugal tem “jogadoras cada vez mais preparadas e clubes cada vez mais preparados” para as formar. “Quase todos os anos as equipas técnicas dizem que a geração nova é melhor do que a do ano anterior”, conta. Mas sublinha que, para que a presença em fases finais seja mais constante, Portugal precisa de “mais praticantes”, com “mais formação”.

Segundo o Plano Estratégico do Futebol Feminino da FPF para 2025-2029, o número de praticantes mais do que duplicou entre 2018/19 (5584 atletas) e esta época (13.873). O número de clubes subiu de 209 em 2018 para 420 em 2024/25. O investimento da FPF nas modalidades que estão na sua órbita (futebol, futsal e futebol de praia) cresceu dos €9 milhões em 2022/23 para €23 milhões esta temporada. Os sinais são bons, assume a dirigente, mas lembra aos clubes que este “é o momento do investimento, de crescimento, de criar este negócio à volta do futebol feminino”.

Possibilidade de boicote não afetou

O primeiro jogo num Mundial jovem para o futebol feminino português será logo contra a campeã em título, a Coreia do Norte, uma equipa “com um padrão de jogo muito agressivo, que vai exigir um desgaste individual grande”. E depois “é o histórico de vitórias neste tipo de competições”, reforça Marisa Gomes, que sublinha a importância dos encontros com a Colômbia e Costa Rica, numa fase de grupos com apenas dois dias de descanso entre os jogos: “Acho que temos, claramente, condições para disputar o jogo com estas equipas de forma diferente, sobretudo com bola, que é uma característica que nós gostamos.”

A preparação para o Mundial sub-20 aconteceu em pleno tumulto entre UEFA e Gianni Infantino, com a possibilidade de boicote da confederação europeia às competições da FIFA a pairar sobre a competição. As incertezas terminaram na última semana, com a UEFA a suspender a intenção. Carolina Santiago sublinha que o grupo trabalhou “normalmente” e que a eventualidade de não chegar sequer a haver estreia na Polónia “não chegou” às jogadoras.

Sofia Teles diz que a FPF procurou que o tema “não afetasse as jogadoras”, embora houvesse a noção do que estava em causa: “Tentámos fazer a preparação da melhor forma possível, com a maior tranquilidade, com a expectativa de que chegasse o momento em que o boicote não acontecesse”, explica a diretora do futebol feminino. “A partir do momento em que uma coisa destas está nas notícias é natural que se fale e elas vão acompanhando, ainda que tentemos controlar um bocadinho. Felizmente as coisas correram pelo melhor.”

Com o conflito entre UEFA e FIFA em banho-maria — pelo menos em campo, já que nos tribunais a UEFA deverá avançar com queixa-crime contra Infantino por gestão desleal —, o Mundial sub-20 será algo bem real e um marco na história do futebol feminino português. O objetivo inicial, assumido por Sofia Teles, é passar a fase de grupos — qualificam-se diretamente as duas primeiras seleções e as quatro melhores terceiras. E depois é chegar “o mais longe possível”. Carolina Santiago atira o bordão “do jogo a jogo”, mas os seus olhos são só entusiasmo: “Acredito que vamos fazer um bom trabalho. É darmos o nosso melhor, se fizermos isso vamos ficar de consciência tranquila.”

Jogos de Portugal no Mundial sub-20

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