Futebol feminino

Salários crescem no futebol feminino, mas quase metade das jogadoras continua a ponderar uma saída antecipada

Equipa do Benfica é hexacampeã nacional.
Equipa do Benfica é hexacampeã nacional.
Carlos Rodrigues

O último relatório da FIFPRO identifica uma mudança nas razões que levam as futebolistas a considerar o fim antecipado da carreira. Os salários médios mensais pagos pelos clubes triplicaram desde 2017, mas só 56% das inquiridas têm contrato de trabalho e metade das que enfrentaram problemas de saúde mental não recebeu apoio dos clubes

Em 2017, 90% das jogadoras inquiridas pela FIFPRO, sindicato que representa os e as futebolistas a nível global, identificaram pelo menos um factor que poderia levá-las a abandonar o futebol antes do esperado. Em 2026, 49% afirmam estar atualmente a considerar essa possibilidade. Os valores sugerem uma mudança, mas os estudos têm dimensões, enquadramentos e amostras diferentes, além de não medirem exactamente a mesma realidade, pelo que os indicadores podem não ser inteiramente comparáveis. O inquérito de 2017 abrangeu mais de 3.000 jogadoras de 33 países.

O 2026 FIFPRO Global Employment Report, elaborado a partir de um inquérito a 791 jogadoras de 40 países e de 34 entrevistas aprofundadas, é a análise mais abrangente das condições de trabalho no futebol feminino desde esse ano. Os resultados traçam um retrato de uma modalidade em expansão, mas onde o crescimento não chega a todas da mesma forma.

Entre as jogadoras que ponderam abandonar precocemente o futebol, 59% apontam razões financeiras e 46% referem o stress psicológico. Em 2017, as dificuldades financeiras eram já uma das principais preocupações, com 47%. O stress psicológico, por seu lado, passou de 13% para 46%. Os números mostram que a questão financeira permanece central e que as preocupações com a saúde mental ganharam expressão.

O dinheiro cresce, mas não chega a todas

O salário mensal médio pago pelos clubes, corrigido da inflação, triplicou desde 2017 e atingiu os 2601 dólares (cerca de €2237). A mediana, porém, fica-se pelos 1669 dólares (aproximadamente €1435). A diferença mostra que os salários mais elevados puxam a média para cima e que o valor médio não representa necessariamente o rendimento da maioria das atletas.

O relatório descreve o crescimento como “desigual e fragmentado”. Alex Culvin, directora de futebol feminino da FIFPRO, afirma que a profissionalização está a acelerar em algumas partes do mundo e que as receitas aumentam, mas os benefícios não são distribuídos de forma equitativa.

“Há um tema recorrente de precariedade e condições frágeis”, salienta Culvin, ao descrever a realidade de jogadoras que enfrentam exigências profissionais sem disporem necessariamente de condições de trabalho adequadas.

Maja Hitij - FIFA

Os indicadores laborais ajudam a perceber o problema. Apenas 56% das jogadoras inquiridas têm contrato de trabalho, embora 78% tenham algum tipo de contrato com o clube. Só 13% recebem uma pensão através do clube e 47% dizem que as respetivas equipas não dispõem de pessoal suficiente. Além disso, 24% relatam atrasos salariais nas duas épocas anteriores e apenas 66% recebem remuneração durante os 12 meses do ano.

A duração média dos contratos aumentou de 12 meses, em 2017, para 19 meses, em 2026. Mas a evolução não elimina as diferenças entre mercados. Em dez países da Europa de Leste analisados, os salários médios continuam abaixo do salário mínimo nacional.

O crescimento comercial da modalidade não se traduz automaticamente, portanto, em segurança profissional. A capacidade de gerar receitas e de pagar salários mais elevados em determinados campeonatos não garante contratos, proteção social ou rendimentos estáveis a todas as jogadoras.

A saúde mental sem apoio suficiente

O relatório revela que 57% das participantes já enfrentaram dificuldades de saúde mental. Entre estas, metade afirma não ter recebido apoio dos respetivos clubes.

A FIFPRO quer que o acompanhamento psicológico passe a integrar os padrões mínimos obrigatórios de proteção das futebolistas. Como exemplo, aponta a liga norte-americana NWSL, onde os clubes têm de disponibilizar profissionais de saúde mental e as jogadoras podem beneficiar de até seis meses de licença para esse fim.

A organização defende também que os contratos nacionais estabeleçam condições mínimas em áreas como remuneração, instalações, recursos humanos e assistência médica. Das 30 ligas nacionais analisadas, apenas oito dispõem de acordos colectivos com as jogadoras, negociados através dos respetivos sindicatos.

Culvin considera que a expansão comercial deve ser acompanhada por maior proteção laboral. “Não é necessário haver uma escolha entre crescimento comercial e proteção aos jogadores. Essas duas coisas precisam caminhar juntas e atuar em sintonia”, afirmou.

A maternidade é um dos sinais de mudança

Nem todos os indicadores evoluíram negativamente. A proporção de jogadoras que ponderam abandonar o futebol para constituir família desceu de 47%, em 2017, para 19%, em 2026.

A FIFPRO associa esta evolução às regras mínimas de protecção da maternidade introduzidas pela FIFA em 2021, na sequência de um processo em que o sindicato teve intervenção. As normas incluem um mínimo de 14 semanas de licença de maternidade remunerada e garantias salariais durante a gravidez.

A descida não permite atribuir toda a mudança exclusivamente à regulamentação. É, ainda assim, um exemplo de como a criação de garantias formais pode acompanhar uma alteração nas razões que levam as atletas a considerar o abandono. O contraste com os restantes dados é significativo: a maternidade perdeu peso como motivo para sair, mas as dificuldades financeiras e o stress psicológico continuam entre as principais preocupações.

Soccrates Images

Outro exemplo citado no relatório do que a regulação global pode alcançar é a reforma do sistema de transferências aprovada pela FIFA em junho de 2026, que entra em vigor a 1 de janeiro de 2027. Uma das novas regras garante às jogadoras que ganhavam menos de 150 mil euros por ano no contrato anterior o direito a 5% do valor fixo de qualquer transferência internacional definitiva, pago diretamente pelo clube de origem. Com um salário anual médio de cerca de 31 mil dólares, a maioria das jogadoras ficaria abaixo desse limite. O relatório ressalva, porém, que o impacto dependerá do desenvolvimento do mercado: a regra só gera pagamento quando existe valor fixo e as transferências com verba são muito menos frequentes no futebol feminino do que as transferências livres e os empréstimos.

E em Portugal?

Portugal está representado no inquérito internacional, mas o relatório não divulga resultados nacionais que permitam determinar como se posiciona o futebol feminino português em matéria de salários, contratos, pensões ou saúde mental.

Os dados não permitem, por isso, transpor diretamente para Portugal os resultados globais nem concluir que as jogadoras portuguesas enfrentam exactamente as mesmas condições. Para fazer essa avaliação seriam necessários indicadores nacionais comparáveis.

A conclusão da FIFPRO é mais abrangente: o futebol feminino cresceu, os salários médios aumentaram e algumas condições melhoraram, mas a profissionalização continua a ser desigual.

A descida de cerca de 90% para 49% merece ser assinalada, mas não significa que os problemas tenham sido resolvidos. Segundo a FIFPRO, a profissionalização do futebol feminino continua a avançar de forma desigual e quase metade das jogadoras inquiridas admite considerar uma saída antecipada da carreira. Num setor que procura consolidar o seu crescimento, o desafio já não é apenas expandir a modalidade, mas garantir condições de trabalho sustentáveis para quem a pratica.

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