Marie-Louise Eta, a pioneira nos bancos da Liga dos Campeões que sente que tem de demonstrar mais que os homens
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A treinadora-adjunta do Union Berlin tornou-se, no jogo contra o SC Braga, na primeira mulher a ocupar o cargo num encontro da Champions masculina, estatuto que já detinha, também, na Bundesliga
Quando Urs Fischer saiu do comando técnico do Union Berlin, o clube alemão nomeou, como treinador interino, Marco Grote, até então responsável pelos sub-19 do clube da capital. Grote levou consigo uma pessoa da sua equipa técnica, ex-futebolista que vencera a Liga dos Campeões em 2009/10 e três Bundesligas seguidas entre 2009 e 2011, tendo a UEFA Pro Licence, o mais alto grau de qualificação da UEFA, e vários anos de experiência na federação alemã.
Tudo normal. Uma pessoa altamente qualificada para um cargo na elite do futebol, num emblema que disputa a Liga dos Campeões.
Mas houve várias críticas, como de Maik Barthel, diretor-executivo de uma agência de representação de jogadores e antigo empresário de Lewandowski, por exemplo. O agente disse que a decisão de ter aquela pessoa na nova equipa técnica do conjunto principal do Union fazia com que o futebol alemão “parecesse ridículo”.
Porquê? Porque essa pessoa, com um passado ao mais alto nível como futebolista, trabalho constante nos últimos anos nos escalões de formação e certificação com a mais elevada chancela da UEFA, é uma mulher.
Marie-Louise Eta, de 32 anos, é mais uma pioneira no ainda incrivelmente exclusivo mundo do futebol masculino. Ao ser adjunta de Grote no encontro entre o Union e o Augsburgo, na passada jornada da Bundesliga, tornou-se na primeira mulher a ocupar o cargo num desafio do principal campeonato alemão. Poucos dias depois, contra o SC Braga e já com Nenad Bjelica no banco do conjunto de Berlim, ampliou o registo inédito à Liga dos Campeões, sendo a primeira treinadora-adjunta de sempre na principal competição da UEFA.
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Centrocampista com partidas pelas seleções jovens da Alemanha, Eta teve uma curta mas bem-sucedida carreira nos relvados. Atuou pelo Hamburgo, Cloppenburg, Werder Bremen e Turbine Potsdam, sendo ao serviço desta última equipa que ganhou a Liga dos Campeões em 2009/10 e a Bundesliga em 2008/09, 2009/10 e 2010/11.
No entanto, em 2018, quanto tinha apenas 26 anos, a alemã decidiu pendurar as botas e dedicar-se aos bancos. Começou por trabalhar nos sub-15 do Werder Bremen, o seu derradeiro clube, onde logo soube o que era ser pioneira, já que era a única mulher a treinar rapazes na academia de um emblema da Bundesliga. Chegaria, depois, às seleções da Alemanha, primeiro com as sub-15 femininas e depois com as sub-17, também femininas.
Em 2023, chegaria a chamada do Union Berlin, com o convite para se juntar a Grote, como adjunta nos sub-19 masculinos. A instabilidade do começo de temporada do clube fez o resto, abrindo-lhe as portas da história.
Marie-Louise Eta, quando jogava no Werder Bremen
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No mundo do futebol masculino, Marie-Louise Eta já sentiu resistência da parte de jogadores, mesmo quando são jovens. “Algumas pessoas tratam-me de maneira diferente, é algo em que reparas e não é confortável. Tento sempre não enfatizar o facto de ser mulher, mas é verdade que, quando chegas a uma equipa de miúdos, tens de os convencer com bons exercícios, boas análises, tens de demonstrar mais”, comentou numa entrevista à UEFA no mês passado
A treinadora confessa ter a sensação de ter de “impressionar os jogadores”, de os “convencer”: “Eles não ficam impressionados com o currículo de uma treinadora ao início, não ficam espantados como sucede quando o Miroslav Klose os treina. Tens de lhes provar que sabes”, garante.
Apesar da novidade em ter uma adjunta, o presidente do Union, Dirk Zingler, retira peso ao assunto, explicando que “não se trata de ter ou não uma mulher no cargo”, mas de “tomar a decisão de contratar alguém que já trabalhava no clube com competência”. Grote, que lidera a equipa técnica dos sub-19 em que está Eta, alinha no mesmo discurso, porque “não há diferenças” ao ter uma mulher no banco, com a dupla a “dividir o trabalho totalmente.”
Entretanto, as palavras de Barthel, o tal agente que não aceita Marie-Louise Eta a tomar decisões, tiveram consequências. Kevin Schade, internacional alemão que milita no Brentford, da Premier League, decidiu terminar a sua ligação com o empresário.
“Deixei de trabalhar com o meu agente porque não partilho, de todo, as suas atitudes e opiniões. Defende a abertura, a igualdade e a diversidade. E é assim que me quero sentir representado”, explicou o atacante.