A Premier League 2023/24 tem sido o campeonato dos asteriscos. Devido ao incumprimento das regras de controlo financeiro da competição, Everton e Nottingham Forest já perderam pontos na secretaria, com os recursos apresentados pelos clubes a fazerem da verdadeira situação classificativa de ambos uma incógnita. De momento, os primeiros têm menos oito pontos do que os obtidos em campo e os segundos menos quatro, mas ainda está tudo nas mãos da justiça.
As atuais “regras de lucro e sustentabilidade” da Premier League permitem que um clube perca até €122 milhões num ciclo de três anos. Prejuízos maiores levam a castigos, mas a situação financeira no vermelho de muitos emblemas, pouco amiga da estabilidade a longo prazo, levou a apelos de revisão destas normas.
Ora, esses pedidos de contenção de despesas poderão, agora, conhecer um desenvolvimento decisivo. A Premier League, o campeonato do mundo que, de longe, mais gasta — e mais gera —, pode estar muito perto de impor aos seus participantes um teto máximo de gastos com futebolistas.
Dezasseis dos 20 clubes da competição votaram a favor da conclusão de um plano para que haja um limite máximo que cada um possa gastar com transferências, salários ou comissões de empresários. Só Manchester United, Manchester City e Aston Villa, três dos que mais abrem os cordões à bolsa, votaram a favor, enquanto o Chelsea, outro campeões dos milhões que saem da conta, absteve-se.
A Premier League irá, agora, terminar a análise legal e económica do diploma. Pretende-se que haja uma votação final na assembleia-geral da entidade em junho, para que o limite de gastos entre em vigor no começo da temporada 2025/26. Nessa reunião, é preciso que 14 dos 20 clubes votem a favor.
Uma fórmula ligada ao que menos receber pela TV
Os principais órgãos de comunicação social britânicos, como a “Sky Sports”, a “BBC” ou o “The Guardian”, coincidem no método a aplicar para calcular este limite. Assim, o teto será um múltiplo do valor encaixado em direitos televisivos pelo clube da Premier League que menos receber por essa via.
Esse múltiplo deverá ser de quatro a cinco vezes. Nas últimas temporadas, o último classificado das receitas de televisão tem recebido à volta de €116 milhões de euros. Na derradeira época, o Southampton encaixou €120 milhões, pelo que, se o múltiplo for, por exemplo, 4,5 vezes, teria havido um teto de €540 milhões para utilizar em compras de futebolistas, ordenados ou comissões de agentes.
A Premier League indica que este não é um teto fixo, pois depende da evolução dos contratos televisivos. Ainda assim, há receios quanto à conformidade deste limite com a legislação britânica da concorrência, ao passo que o sindicato dos futebolistas profissionais tem-se manifestado, repetidamente, contra “quaisquer propostas que tenham impacto direto” no salário que possa vir a ser recebido pelos jogadores.
Esta nova legislação coexisitiria com as regras financeiras da UEFA. Segundo o novo fair play da entidade máxima do jogo na Europa, os clubes podem participar, em 2023/24, nas provas continentais se gastarem até 90% das suas receitas em salários, transferências e comissões de agentes, valor que será reduzido para 80% em 2024/25 e para 70% em 2025/26.
No primeiro século de existência da liga inglesa de futebol, a preocupação com o equilíbrio competitivo, garantido através do equilíbrio entre o que todos gastavam, foi uma constante. Logo no início do campeonato, ainda no século XIX, introduziu-se uma regra que obrigava o clube visitado a partilhar parte da receita de jogo com o visitante.
Esta prática foi uma das principais razões para a divisão de títulos em Inglaterra. O Manchester United, clube que mais campeonatos ganhou, venceu 16% das edições da liga, juntando a era First Division à Premier League. Em sentido inverso, a Juventus conquistou 30% das ligas em Itália, o Real Madrid 38% em Espanha e, o Bayern, 53% na Alemanha.
Esta divisão de receitas foi abandonada em 1981. Desde a criação da Premier League, em 1992, a competição tem-se tornado cada vez mais desigual: no século XXI, só Arsenal, Manchester United, Chelsea, Manchester City e Leicester ergueram o título, sendo que a equipa de Pep Guardiola ganhou cinco dos últimos seis. Foram cinco campeões em 23 anos, enquanto nos 23 anos anteriores houve oito campeões (Liverpool, Nottingham Forest, Aston Villa, Everton, Arsenal, Leeds, Manchester United e Blackburn Rovers) e nos 23 anteriores houve 11 (Chelsea, Manchester United, Wolverhampton, Burnley, Tottenham, Ipswich Town, Everton, Liverpool, Leeds, Arsenal, Derby County).
Um mundo de muitos milhões gastos
A explosão das receitas da Premier League nas últimas décadas levou a que o domínio financeiro da competição se fosse acentuando. Numa espécie de corrida ao armamento, praticamente todos os clubes estão entre os mais gastadores do planeta, num sprint que os bolsos dos donos do Manchester City ou do Chelsea poderão aguentar, mas que se vem revelando insustentável para o Everton, o Forest ou o Leicester.
Em 2023/24, os 20 da Premier League gastaram €2,93 mil milhões em aquisições. A segunda liga que mais gastou foi a Ligue 1, com €1,17 mil milhões. Se olharmos ao balanço entre compras e vendas, o saldo da Premier é de €1,35 mil milhões negativos, à frente do campeonato saudita, com €905 milhões negativos. Na Europa, quem tem pior balanço, à parte de Inglaterra, é a Ligue 1, com uns meros €125 milhões de prejuízo entre compras e vendas.
No acumulado das últimas cinco temporadas, a Premier gastou um total de €11,15 mil milhões em aquisições, com um saldo negativo de €6,32 mil milhões entre entradas e saídas. Atrás disto, em compras, está a Serie A, com menos de metade (€5,2 mil milhões).
A diferença no saldo acumulado do derradeiro lustro de épocas é ainda pior, já que a Premier League tem perdas de €6,32 mil milhões, enquanto a Serie A tem um défice de €578 milhões.
Sete dos oito plantéis do mundo em que mais dinheiro foi gasto em contratações estão em Inglaterra: o Chelsea, líder planetário, é seguido pelo Manchester City. Atrás deste duo está o PSG, seguido do Manchester United, Arsenal, Liverpool, Tottenham e Newcastle.