A Alemanha sempre foi um não somos como os outros na relação entre o futebol e a política. Xabi Alonso, treinador do Bayer Leverkusen, estava há pouco mais de um ano no país e já praguejava contra o crescimento da extrema-direita nas conferências de imprensa. A convivência com o ambiente terá ajudado a soltar o ativista que existe no técnico espanhol.
Os adeptos não querem que o poder caia em mãos alheias. A generalidade do futebol alemão foi contra a Superliga Europeia e nasceu uma rebelião quando a Bundesliga ponderou vender parte dos direitos comerciais a um investidor externo. Interromperam-se jogos, entoaram-se protestos e o projeto acabou por não ser consumado. Se a Alemanha, como um todo, é dos sítios onde os adeptos mais erguem a voz, então o St. Pauli merece estar junto dos melhores.
O clube do bairro de Hamburgo é inteiramente detido pelos seus 30.400 sócios, resistindo aos investidores, alguns de origem bastante duvidosa, que no futebol moderno são quase requisito obrigatório para evitar que os clubes vivam em apneia por carência acentuada de dinheiros. Com a maioria das equipas rendidas aos petrodólares, a competição é desigual. Porém, o St. Pauli, sem trocar linhas na lista de valores prioritários, garantiu a promoção à Bundesliga e vai jogar no principal escalão do futebol germânico pela primeira vez em 13 anos.
Empenhado em resistir à ideia de futebol-negócio, ninguém exigiu ao St. Pauli a campanha de sucesso na Bundesliga 2, liderada pelo treinador Fabian Hürzeler (31 anos). O rendimento desportivo tornou-se num pretexto para retirar a carapaça à essência. Em 2009, foi aprovada em Assembleia-Geral a carta de princípios que guiam a postura do clube. Um dos primeiros pontos diz que “o St. Pauli aceita a responsabilidade social e promove os interesses dos seus sócios, empregados, adeptos e voluntários para lá da esfera do desporto”.
Oke Göttlich é o atual presidente do St.Pauli. A restante direção é composta por três mulheres vice-presidentes. “Quero que o St. Pauli tenha o maior sucesso, porque quanto mais sucesso tivermos, mais podemos apresentar os valores que promovemos no nosso dia a dia”, disse Oke Göttlich ao The Athletic. “Tomaremos sempre uma posição contra o racismo e a homofobia, vamos sempre cuidar dos fracos e dos pobres, porque é importante para nós. Está-nos no sangue”.
O clube, muitas vezes representado com uma caveira devido à ligação com a comunidade punk e que se autointitula de “progressista”, teve na pessoa de Corny Littmann o primeiro presidente gay de uma equipa alemã. Por isso, a braçadeira que sufoca o braço do capitão de equipa não é um mero elástico, pois tem as cores da bandeira LGBT, um padrão semelhante ao que a FIFA proibiu no Mundial 2022, no Catar.
No dia da festa da subida à Bundesliga, confirmada com a vitória por 3-1 contra o Osnabrück, a invasão de campo levou para o meio do relvado esse colorido. “Talvez isto pareça demasiado romântico e utópico, mas gostaria que pudéssemos trabalhar juntos para tornarmos o mundo melhor. Há muitas coisas na indústria do futebol que estão a ir na direção errada”, afirmou Oke Göttlich também ao The Athletic. “Quero correr contra esta parede o máximo que puder mesmo que isso me deixe com a cabeça a sangrar, não me importo”.
Jackson Irvine, internacional australiano, é um jogador que traz a política na ponta da língua. O St. Pauli foi “o encaixe perfeito” para o médio. “Sabia que queria ir para um clube que me satisfizesse desde o estilo de vida até ao nível futebolístico”, escreveu na página do sindicato de jogadores australianos (Professional Footballers Austrália). “Os valores do St. Pauli estão escritos nas bancadas e em t-shirts. Não há gestos vazios aqui”. “Gosto que os adeptos do St.Pauli me vejam como uma pessoa e não como um performer.
O Millerntor, estádio do St. Pauli, tem capacidade para 29.546 pessoas. O preço dos bilhetes para 10.000 desses lugares não excede os 12€ para que os adeptos com menor capacidade financeira não se afastem do futebol. Inclusão a todos os níveis.
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