A fascinante incerteza da CAN, o torneio em que o onde e o quando nunca batem certo e uma maldição rodeia os campeões
A bola da competição
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A 35ª edição da grande competição de África arranca este domingo com Marrocos, a anfitriã e favorita, a defrontar as Comores. Na sétima vez seguida que a CAN não se realiza no período ou local planeados, há estrelas à procura de uma última oportunidade, Angola e Moçambique tentando surpreender, um Congo que merecerá atenção portuguesa e o caos nos Camarões, que tiveram dois selecionadores a divulgarem duas convocatórias diferentes
Hermione Granger: O quê? Não podemos fazer isso. Temos de ter um plano, temos de arranjar uma solução.
Harry Potter: Hermione, quando é que algum dos nossos planos, na verdade, resultou? Nós planeamos, chegamos lá e é o caos total.
Estas citações são dos livros de Harry Potter, de J. K. Rowling, mas poderiam aplicar-se à Taça das Nações Africanas (CAN). O grande acontecimento do futebol no continente vai realizar-se pela 35ª vez, arrancando domingo com Marrocos, que acolhe o torneio, a defrontar as Ilhas Comores (18h, Sport TV7) em Rabat. Ora, tal como vem sendo a norma, não era suposto a CAN ser neste período.
Desde 2012, há mais de 10 anos e há sete edições seguidas, que a CAN não se realiza onde e quando fora inicialmente estipulado: em 2013, os jogos passaram da Líbia para a África do Sul devido à guerra civil líbia; em 2015, Marrocos desistiu da organização devido a receios relacionados com o ébola; em 2017, novos problemas na Líbia levaram os encontros para o Gabão; 2019 viu os Camarões não terem as infraestruturas construídas a tempo, acabando o Egito a acolher a CAN; 2021 foi jogado nos Camarões, como estava previsto, mas não quando estava previsto, visto que apenas se realizou em 2022 por causa da pandemia da Covid-19.
A ediçao de 2023 teve lugar na Costa do Marfim, como programado, mas a Confederação Africana de Futebol (CAF) decidiu, inicialmente, que os desafios seriam disputados em junho e julho. Com o passar do tempo, o bom-senso imperou, teve-se em conta que disputar a CAN na época das chuvas no oeste do continente era mal pensado e a CAN 2023 foi entre janeiro e fevereiro de 2024. E chegamos a 2025. Marrocos estava pronto para receber as 24 participantes em junho e julho, mas Gianni Infantino decidiu que esses meses seriam para o Mundial de Clubes.
Assim, mantém-se a bonita tradição de não ver a CAN no local ou nas datas que num primeiro momento se comunicaram. Planeia-se, chega-se à realidade, é o caos total, como diria Harry Potter.
Hakimi, líder de Marrocos, chega ao torneio lesionado
Franco Arland
Caótica é, também, a preparação das seleções. A FIFA permitiu que, devido às datas em que a CAN se disputa — de 21 de dezembro a 18 de janeiro —, os clubes seriam obrigados a ceder os seus jogadores mais tarde do que o normal antes de grandes torneios. Assim, os futebolistas só tiveram de se apresentar até sete dias antes do arranque da competição.
Stefano Cusin, o canadiano que dirige as Comores, disse que "seria uma sorte" se tivesse cinco treinos com todos os convocados até ao encontro inaugural. Mais duro foi Tom Saintfiet, o belga que orienta o Mali na sequência de uma carreira sempre de um lado para o outro, com passagens por bancos na Guiné-Conacri, Ilhas Faroé, Países Baixos, Catar, Alemanha, Finlândia, Namíbia, Zimbabué, Jordânia, Etiópia, Tanzânia, Iémen, Maláui, África do Sul, Togo, Bangladesh, Trinidade e Tobago, Malta, Gâmbia e Filipinas.
"O diretor técnico da FIFA, Arsène Wenger, não sabe nada de futebol de seleções. Além de duas épocas no Japão, ele só trabalhou em clubes europeus. Um diretor técnico da FIFA deveria ser um antigo selecionador nacional, que percebesse o trabalho das seleções. A FIFA não tem respeito pelo futebol em África, na Ásia ou na Oceânia. Para a FIFA, o centro do futebol é a Europa e isso é tudo o que importa. O dinheiro dos clubes europeus é que importa", criticou o técnico do Mali, que está no grupo A com Marrocos, Comores e Zâmbia.
Uma favorita a olhar para 2030
Anfitriã, primeira seleção africana a chegar às meias-finais de um Mundial (em 2022), fantásticas séries recentes de vitórias seguidas, com um registo de oito triunfos em oito encontros na qualificação para o Mundial 2026. Campeões do mundo sub-20 em outubro, campeões da Taça Árabe três dias antes do começo da CAN.
É inegável: Marrocos é a potência africana do momento. O momento desportivo é brilhante, conjugando-se com um enorme investimento em infraestruturas, o qual se vê bem nesta CAN.
As partidas dividem-se em nove estádios, seis deles com 45 mil ou mais lugares. Apenas um dos recintos, o Marrakesh Stadium, não foi inaugurado ou profundamente remodelado nos últimos dois anos. Muitos dos centros de treino disponíveis para as seleções têm, também, cheiro a novo, numa "excelência de condições" constatada pelo experiente Avram Grant, o israelita que levou o Chelsea à final da Liga dos Campeões 2007/08 e que, agora, treina a Zâmbia.
Em crise com o Liverpool, Salah tem a oportunidade de ganhar um troféu que lhe tem escapado
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Força desportiva e institucional, Marrocos tem agora mais um momento para expressar a sua pujança. Além desta CAN, recebeu recentemente torneios da FIFA, como Mundiais de Clubes ou Mundiais sub-17 femininos, que serão todos realizados, anualmente, em Marrocos até 2029.
Mantendo Hoalid Regragui no comando técnico, há estabilidade num plantel com Yassine Bounou na baliza, Romain Saïss ou Nayef Aguerd na defesa, Sofyan Amrabat no meio-campo ou Youssef En-Nesyri no ataque. Numa seleção que ganhou recentemente a fantasia de Brahim Díaz, a grande incógnita é Achraf Hakimi, o voador lateral do PSG que chega lesionado.
Ganhar um troféu que escapa aos marroquinos desde 1976 seria ideal para continuar a olhar com máxima ambição para 2030, quando o Mundial passar pelo Norte de África.
A última dança dos craques da década e o caos dos Camarões
Entre Mohamed Salah, Sadio Mané e Riyad Mahrez há 340 internacionalizações, oito títulos da Premier League, três da Liga dos Campeões e dois da CAN. O egípcio, o senegalês e o argelino são, possivelmente, as três maiores referências africanas da última década, sucessores da era de Drogba, Eto'o ou Yaya Touré.
Pois bem, entre Salah, Mané e Mahrez há, também, dois jogadores a meses de cumprirem 34 anos (os dois primeiros) e outro que fará 35 em fevereiro. Para o trio de magos, esta CAN surge com um aroma a quase despedida.
Se Mané e Mahrez já triunfaram na CAN e se encontram a gozar os milhões da Arábia Saudita, para Mo o torneio surge num momento particularmente importante. Após criticar publicamente o Liverpool e abrir a porta à saída de Anfield, o canhoto ainda voltou a vestir a camisola red antes de se juntar à sua seleção, mas meses de pouco protagonismo terão ativado o fogo interior do melhor marcador estrangeiro da história da Premier League.
Nos últimos anos, a tática do Egito foi, frequentemente, qualquer coisa como defender e esperar que Salah resolva. Será essa a expetativa dos cerca de 109 milhões de egípcios, país apaixonado por futebol e recordista de êxitos continentais (sete), mas sem ganhar desde 2010, quando fechou uma série de três triunfos seguidos.
O sportinguista Geny Catamo é a grande estrela de Moçambique
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Há várias seleções que vivem momentos difíceis. Veja-se a Nigéria, país mais populoso do continente (236 milhões de pessoas, o sexto maior do mundo), casa do goleador Victor Osimhen, mas cuja ausência do Mundial 2026 leva a que haja pressão máxima para chegar longe; ou o caso ainda mais grave do Gana, que nem está na CAN porque, no apuramento, ficou atrás do Sudão, que marca presença em Marrocos apesar da catastrófica situação do país. Os sudaneses têm-se visto obrigados a recorrer à Líbia ou à Tânzania como casas emprestadas, soluções de recurso tendo em conta a guerra.
Mas especialmente particular é o caso dos Camarões. A presidência de Samuel Eto'o na federação tem estado envolta em polémicas, e as semanas anteriores ao torneio viram nascer novo caso.
A 13 de novembro, os Camarões foram eliminados pelo Congo no play-off para o Mundial 2026. Dias depois, Eto'o foi reeleito presidente, assumindo o despedimento de Marc Brys, selecionador nacional, como primeira medida do novo mandato. O antigo avançado nunca escondeu não gostar de Brys, que foi uma escolha do ministro dos desportos.
A 1 de dezembro, Eto'o contratou Davig Pagou para o comando técnico. No entanto, Brys garantiu nunca ter sido legalmente despedido, assegurando que a decisão só lhe chegou pelos jornais.
A 9 de janeiro, Pagou, o novo selecionador, apresentou uma estranha convocatória para a CAN, da qual estavam ausentes Onana, Aboubakar ou Choupo-Moting, nomes que marcaram os últimos anos da equipa. Nesse mesmo dia, Brys apresentou uma lista que continha os referidos ausentes. Entre toda esta confusão, será mesmo Pagou a liderar os Camarões, pentacampeões continentais.
A maldição que afeta a Costa do Marfim
Se a CAN é a competição que desafia a lógica do quando e do onde pré-definidos, é, também, o acontecimento que maltrata os detentores do título. Desde os três seguidos do Egito (2006, 2008 e 2010) que nenhum campeão da edição anterior chega, sequer, aos quartos de final.
Vejamos: o Egito ganhou em 2010, mas nem se apurou para 2012; a Zâmbia triunfou com surpresa em 2012, mas caiu nos grupos no ano seguinte; a Nigéria foi a melhor em 2013, mas falhou o apuramento para 2015; a Costa do Marfim, gloriosa em 2015, saiu na fase de grupos em 2017, tal como a Argélia, ganhadora em 2019 e eliminada na primeira fase em 2021; os Camarões e o Senegal, respetivamente triunfadores em 2017 e 2021, caíram nos oitavos de final do torneio seguinte.
O sportinguista Ousmane Diomande, que tem tido uma relação complicada com a seleção — só uma internacionalização em encontro oficial em 2025 —, integra um elenco que tentará contrariar esta maldição. Afinal de contas, de contrariar a lógica sabem os costa-marfinenses, que na última CAN, disputada em casa, perderam dois jogos na fase de grupos, um deles por 4-0 contra a Guiné Equatorial, trocaram de selecionador antes dos oitavos de final e, mesmo assim, levantaram a taça.
Moçambique, Angola e Congo
A CAN, cuja criação foi engendrada numa reunião em 1956 entre Egito, Sudão, Etiópia e África do Sul no Hotel Avenida, em Lisboa, é palco habitual para surpresas. É nesse lote que as duas equipas lusófonas do torneio se querem incluir.
Fredy, o capitão de Angola
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Cabo Verde, presente em quatro das últimas seis CAN e ainda a saborear o feito da presença no Mundial 2026, falhou a qualificação. Assim, teremos Angola, que em 2023 esteve muito bem ao atingir os quartos de final, e Moçambique, que chegou a sonhar com o Mundial, mas tem de se contentar com a ida à segunda fase final consecutiva, algo que só sucedera uma vez na história da equipa.
Presente no grupo B, juntamente com o Egito, a África do Sul e o Zimbabué, os angolanos são orientados há poucos meses pelo francês Patrice Beaumelle, que passou boa parte da carreira como adjunto do mítico Hervé Renard, vencedor da CAN com a Zâmbia e a Costa do Marfim e atual técnico da Arábia Saudita. O melhor que os palancas fizeram foram os quartos de final em 2008, 2010 e 2023.
Já Moçambique encontra-se no grupo F, onde terá a oposição de Gabão, Camarões e Costa do Marfim. A seleção encontrou estabilidade sob a orientação de Chiquinho Conde, que esteve em cinco das seis fases finais do país: 1986, 1996 e 1998 enquanto futebolista, 2023 e 2025 sentado no banco. A exceção foi 2010. Os mambas jamais superaram a fase de grupos do torneio.
O grupo D da cimeira de Marrocos terá, certamente, em Roberto Martínez um espectador atento. É lá, juntamente com Benim, Senegal e Botsuana, que competirá a República Democrática do Congo, possível adversária de Portugal no Mundial. Os leopardos têm tido prestações consistentes na última década, com um terceiro lugar em 2015 e um quarto em 2023 como classificações de relevo.