Futebol internacional

O futebol não é só futebol e adepto da RD Congo na CAN está 90 minutos em modo estátua na bancada para homenagear figura histórica do país

Michel Kuka Mboladinga mantém-se imóvel durante 90 minutos. Tudo para a apoiar a sua seleção e homenagear Patrice Lumumba, herói da independência da RD Congo
Michel Kuka Mboladinga mantém-se imóvel durante 90 minutos. Tudo para a apoiar a sua seleção e homenagear Patrice Lumumba, herói da independência da RD Congo
Anadolu

Michel Kuka Mboladinga tem sido uma das figuras nas bancadas da Taça das Nações Africanas, em Marrocos. A cada jogo, mantém-se 90 minutos estático, sem se mover, resistindo como um dia resistiu Patrice Lumumba, herói da independência congolesa, assassinado pouco depois de se tornar no primeiro líder do país

O espectáculo da CAN não está apenas no relvado. Aliás, muitas vezes ele é mais colorido nas bancadas, que a cada edição se tornam num verdadeiro desfilar das culturas locais, com muita música, dança e trajes tradicionais, abraçando o futebol como mais uma manifestação cultural de cada país africano. 

Essas manifestações são raramente silenciosas. Ou paradas. A menos que se trate de Michel Kuka Mboladinga. Este adepto da República Democrática do Congo, que pode ser adversária de Portugal no próximo Mundial, tem feito dos jogos da sua seleção um verdadeiro teste de firmeza: enquanto à sua volta a festa explodia, Mboladinga passou os três jogos da fase de grupos da RD Congo de pé, sem qualquer movimento, como um homem-estátua, sem se mexer durante mais de 90 minutos. 

O gesto não é apenas um gesto, uma bizarria própria dos adeptos de futebol. A cada jogo, Mboladinga apresentou-se de impecável fato completo, óculos e cabelo aprumado, antes de subir a um pedestal construído para o efeito. Rapidamente se percebeu que tentava emular uma verdadeira estátua que olha para o firmamento da capital Kinshasa a cada dia, a do herói nacional Patrice Lumumba. A resistência dos 90 minutos como homenagem à resistência colonial.

Figura essencial da história da independência do país, Patrice Lumumba lutou contra o sistema colonial belga, tornando-se símbolo da autodeterminação dos povos africanos. Foi o primeiro primeiro-ministro da República do Congo, como era então chamada, após a independência, em junho de 1960, recusando a violência e promovendo a unidade nacional e a necessidade de emancipação do país face aos interesses do antigo colonizador.  

Com a ingerência do exército belga, Patrice Lumumba seria pouco depois vítima de um golpe de estado liderado por Mobutu Sese Seko. Foi perseguido e capturado quando tentava fugir para uma zona segura e, antes de ser executado, foi vítima de tortura, na qual participaram oficiais da Bélgica, que também tiveram parte importante na ocultação do seu corpo. O país europeu só reconheceu publicamente o seu papel na morte de Lumumba no início deste século, após um inquérito parlamentar.  

Já o papel de Michel Kuka Mboladinga, fisicamente muito parecido com Patrice Lumumba, passa, por isso, por muito mais do que apoiar a sua seleção. Nos estádios de Marrocos tem reavivado a memória e o legado do herói congolês, como representante da justiça social e da dignidade do seu povo. 

Vencedora da prova em duas já longínquas ocasiões, em 1968 e 1974, a RD Congo vem de um 4º lugar na edição da CAN de 2023. Nos oitavos de final da prova, na próxima terça-feira, vai defrontar uma das favoritas, a Argélia, em Rabat. Em março, parte com boas hipóteses para o playoff internacional do Mundial, onde vai jogar com Nova Caledónia ou Jamaica. Vencendo a final, junta-se ao grupo de Portugal, que conta ainda com Colômbia e Usbequistão. Será que teremos Mboladinga nas bancadas dos Estados Unidos?

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