Futebol internacional

Brahim Díaz, o 100% marroquino, 100% espanhol que leva Marrocos a reboque na CAN

Antes de Brahim Díaz, apenas três jogadores na história tinham marcado golos em cinco jogos da CAN
Antes de Brahim Díaz, apenas três jogadores na história tinham marcado golos em cinco jogos da CAN
JALAL MORCHIDI

Nascido em Málaga, emigrou cedo para Manchester antes de aterrar em Madrid e naturalizar-se marroquino, em 2024. O fantasista ambidestro do Real Madrid marcou em todos os jogos da Taça das Nações Africanas e virou o primeiro jogador do país a fazê-lo em cinco partidas de uma edição do torneio, colocando a sua seleção nas meias-finais

Com 12 anos mal se é gente, divertir é a prioridade se a vida o permite e um treinador de Brahim Díaz, sabendo-o traquina, desconfiou de uma batotice. Pedira às crianças que pusessem uma peúga branca puxada à canela no pé forte e uma preta, ou azul escura, ele não se recorda ao certo, no menos bom. Ele obedeceu e, às tantas, o instrutor ordenava que os jogadores apenas tocassem na bola com o pé mais fraco para os desafiar. Ao olhar para Brahim, deu-lhe uma pequena descompostura: “Mas tu trocaste as coras e puseste a boa na má e a má na boa, ou quê?”

Nada disso, era-lhe natural, dizia ele, a ambidestria nem sequer se explicava por uma historieta de embirração paternal em meter o filho a praticar com os dois pés. Brahim Díaz contou ao El País, em 2021, que nas ruas de Málaga lembra-se de brincar com ambos os calcantes e de ser indiferente qual usava. O talento, uma vez por outra, não escolhe lados, mas o atacante teve de optar por um para hoje ser o nome cintilante da Taça das Nações Africanas (CAN).

Era março de 2024 e já jogava no Real Madrid, intermitente entre a equipa e o banco, quando Espanha o pré-convocou à semelhança de Marrocos, com a diferença de pouco mimo sentir de Luis de la Fuente e muito receber de Walid Regragui, o selecionador do país do Marraquexe, das alturas do Atlas, do mazagão de pegada portuguesa e da avó paterna de Brahim. O treinador ligava-lhe quase todos os dias, a sedução e a corte seriam irresistíveis: o jogador com 26 partidas pelas equipas jovens espanholas e uma, com um golo marcado, pela seleção principal, preferiu Marrocos.

Esse jogo foi amigável, logo não oficial, então o pequeno e entroncado jogador, hábil de fintas, lesto a mudar de direção e com pés para sair com igual facilidade do drible para qualquer lado pôde trocar de bandeira. A sua ziguezaguente natureza ficou na seleção do norte de África, mas nem foi a aproveitá-la que, na sexta-feira, marcou um golo aos Camarões. Foi num canto, sorrateiro a aparecer na pequena área e a desviar um desvio para fazer o 2-0, confirmando a passagem de Marrocos às meias-finais desta CAN menos rústica, espalhada por estádios modernos, que o país organiza.

Brahim Díaz tem 26 anos e joga há três épocas no Real Madrid
Anadolu

É quem sofre mais faltas na CAN

Foi o quinto golo no torneio para Brahim Díaz, feito louco a celebrar com a equipa e os adeptos no estádio Princípe Mulay Abdellah, em Rabat, 70 mil almas engalfinhadas a celebrar com ele, galgado um placard publicitário e de braços abertos, a clamar por reação ao entretenimento que tem proporcionado. Nunca um marroquino marcara em tantos jogos de uma Taça das Nações Africanas, ele deixou um golo às Ilhas Comores, ao Mali, à Zâmbia, à Tanzânia antes de aos Camarões, só três jogadores tinham logrado golos em cinco partidas de uma edição.

Díaz vai com 14 golos em 24 internacionalizações e pouco demorou a ser figura na seleção semi-finalista do último Mundial, uma das anfitriãs da edição de 2030 e esperançosa por repetir o destaque na deste ano, embalada que está com o brutal investimento do país no futebol. “Decidi por amor e carinho, não vai além disso”, explicou, há dois anos, Brahim ao optar por Marrocos. “Não vou deixar de ser espanhol, tenho dupla nacionalidade. Sinto-me 100% marroquino e 100% espanhol, é a verdade. Quem o entender, agradeço, quem não entender, espero que algum dia entenda”, acrescentou o jogador, dos que ainda estão em prova, que mais faltas (15) sofreu nesta CAN.

Aos 26 anos, Brahim Díaz ainda liga com o secundarismo no Real Madrid, jamais um titular absoluto por lá embora sempre uma peça frequente na equipa, sem estrebuchar pelo papel de agitador saído do banco que mexe com os jogos ao pedir a bola onde o espaço rareia. “Tenho a sorte”, não será bem sorte, mas adiante, “de poder utilizar as duas pernas e rodar tanto para um lado, como para o outro”, constatou ao El País. “Mexo-me muito bem nessa zona”, a das entrelinhas, escondido nas costas dos médios e provocando a dúvida nos defesas.

Assim se vai destacando o talentoso que é 100% do país onde nasceu, em Málaga, saído de lá cedo para cumprir a adolescência no Manchester City antes de o Real Madrid o comprar para emprestar ao AC Milan, e 100% do país pelo qual joga. É a soma do impacto de Brahim Díaz na CAN conquistado apenas uma vez por Marrocos, em 1976. O próximo adversário será a Argélia de Mahrez ou a Nigéria de Osimhen e Lookman. O destino é a final de Rabat, a 18 de janeiro.

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