Futebol internacional

O desabafo de Marcos Llorente, o jogador saudável e fã de truques da longevidade, contra os hábitos do futebol

Marcos Llorente, jogador do Atlético de Madrid, durante uma partida da liga espanhola
Marcos Llorente, jogador do Atlético de Madrid, durante uma partida da liga espanhola
Europa Press Sports

O futebolista do Atlético de Madrid que anda descalço na rua, passeia o cão de tronco nu à primeira luz da manhã, bebe café com manteiga e usa óculos especiais para o dia e a noite de modo viver de forma mais saudável enumerou as coisas que, segundo ele, tornam impossível que o futebol equivalha saúde

Antes de o sol raiar há luminosidade e Marcos Llorente está na rua, descalço, a passear o seu cão, de preferência com o tronco destapado. Não importa se faz calor ou frio. Seja dia e na cara terá óculos com lentes de cristais vermelhos para “deixar que nos olhos entrem os raios necessários”, disse à Cadena Cope, mas, caia a noite, troca-os por uns equivalentes, só que de cristais amarelos, caso esteja “exposto a luz artificial” porque “fora do seu contexto natural, a luz azul é tóxica”.

Esta segunda parte explicou-a pouco depois de falar com a rádio espanhola, em outubro do ano passado, ao perorar no Instagram para “esclarecer” as “muitas pessoas” que “não entenderam nada” do tema “dos óculos”, um dos contribuidores para o jogador do Atlético de Madrid ser percionado, em Espanha, como um cuidador cirúrgico da sua saúde, comprador das mais ínfimas minudências às quais possa ir buscar um mínimo ganho marginal para o seu bem-estar. “Não invento nada do que partilho. Não é uma opinião. É biologia (de verdade).”

O espanhol que a cada manhã sorve um café com manteiga dentro por gostar “do chuto de energia”, apreciador do que advoga ser uma “gordura saudável”. Por hábito um titular nos colchoneros, o médio que assenta o seu jogo na intensidade e muitas correrias com a bola é fã da dieta paliolítica (exclui cereais, laticínios, leguminosas, açúcares e alimentos processados) e de jantar antes de a noite fechar a persiana, ali pelas cinco e meia da tarde se for inverno.

Marcos Llorente, de óculos postos (os da noite), a entrar no estádio do Club Brugge antes de um jogo a contar para a Liga dos Campeões
Alex Bierens de Haan - UEFA

A cada rotação da Terra redonda sobre o próprio eixo e durante a sua órbita em torno do sol que conspiram - tudo cientifíco até aqui - para cair o bréu que faz acender luzes - obra dos avanços da humanidade -, Marcos Llorente porá os óculos na cara, amigo das suas “mitocondrias” e da “melatonina”, e contra a luz artificial. “Não é uma moda biohacker. É uma necessidade se vives preso em ambientes modernos, longe do sol, rodeado por ecrãs e luzes LED”, defendeu no recente solilóquio que deixou nas redes sociais.

Já de todo factual são as linhas de fumo branco deixadas por aviões no céu que o jogador, de tempos a tempos, fotografa e partilha para os seus seguidores, escrevendo “já chega”, pedindo para “alguém explicar” ou deixando ele nos ares internáuticos um “para mim, não é normal”, aludindo aos chemtrails, nome da teoria da conspiração crente de que tais rastos serão químicos tóxicos para infetar a população mundial e alterar o clima do planeta.

O futebol não está desenhado para a longevidade

Este é o mesmo Marcos Llorente, de 31 anos, com quase 300 jogos na bagagem pelo Atlético de Madrid e mais de 20 internacionalizações por Espanha, escultor afincado de hábitos saudáveis, que esta quinta-feira veio denegrir qualquer associação do futebol ao que é saudável.

Ao colocar-se a jeito de responder a uma quantas perguntas de quem o segue no Instagram, o jogador dedicou-se à questão “para ti, o futebol é saúde ou há coisas que mudarias?”. Retorquiu com um “não”, indicando ser “rendimento” antes de minuciar vários aspetos que ficam órfãos do seu gosto: “Stress físico extremo, viagens, pressão mediática, microlesões contínuas, ritmo circadianos alterados, ativação simpática quase permanente… Para não falar dos que necessitam frequentemente de analgésicos para jogar.”

Os pontapés na bola aos quais se dedica, defendeu, “não estão desenhados para otimizar a longevidade”, antes “para ganhar”. E o que mudaria Llorente para o futebol ser mais dócil para quem o tem como profissão? “Está claro, os horários e a quantidade de jogos.” O internacional espanhol, contudo, lamentou a “bola de neve cada vez maior” e a lógica de “os que quiserem aguentar que aguentem e os que não, pois que saiam”. Em resumo, trata-se de “colocar tudo na balança e veres se te compensa”.

Marcos Llorente diz-se “consciente” de que “algum dia”, e “mais cedo do que tarde”, lhe deixará de compensar ser profissional do futebol como está e para onde cada vez mais caminha. Palavra do jogador que vive de pinças, cheio de rigor nos cuidados, que garantia, em outubro passado, não adoecer há mais de dois anos.

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