Nada temam, Neymar ainda pode ir ao Mundial. Tem é de trabalhar
Neymar regressou ao Santos no início de 2025 para relançar a carreira
Ricardo Moreira
Carlo Ancelotti até brincou com o suspense na sala antes de anunciar os atacantes convocados para os últimos jogos particulares do Brasil antes de escolher os jogadores que levará ao Campeonato do Mundo: “Curiosos, hein?“ Sim, todos queriam saber se era desta que Neymar regressaria à seleção. Não foi, mas há esperança para o melhor marcador da história do Brasil: basta estar a 100%, porque o que está em questão é a sua condição física, não a técnica, explicou o treinador
O trato com Carlo Ancelotti é descomplicado, não há cá formalismos só porque sim, vindos sabe-se-lá de onde, não escritos por uma caneta inexistente mas aos quais as pessoas obedecem. “Atacantes”, disse o selecionador do Brasil, sentado no púlpito da conferência de imprensa, ao chegar à última parte da lista de convocados para os últimos jogos particulares antes de decidir os convocados que realmente importam, os do Mundial. “Curiosos, hein?”, acrescentou com um riso maroto, erguendo o olhar de soslaio.
Janota de fato, camisa e gravata, essa formalidade não dispensa, o italiano retomou a leitura do papel, da sua boca saíram Endrick, Gabriel Martinelli, Igor Thiago, João Pedro, Luiz Henrique, Matheus Cunha, Raphinha, Rayan e Vinícius Júnior a um ritmo repleto em vírgulas, cada jogador a merecer uma pausa de segundos sem que uma delas prenunciasse o nome discutido há mais de um ano sobre se vai, ou não, ao Mundial que lá é Copa do Mundo, no país do ‘somos penta’ e do povo cíclico a exigir a conquista do torneio assim que passem outros quatros anos.
É muito brasileira a preocupação com a ida de uma vedeta a viver já nos seus anos 30 ao mais resplandecente dos palcos do futebol, é assim com o nome não dito por Carlo Ancelotti, mas antes de Neymar já fora assim com o desplante de se chegar a duvidar da ida de Pelé em 1970 ou na comoção geral quando Romário ficou excluído da lista em 2002. Em ambas, por sinal, o Brasil foi campeão do mundo.
Outro ciclo se iniciou com a chalaça de Carlo Ancelotti na segunda-feira, ao pegar na curiosidade dos jornalistas e de um povo para ser malabar atirado ao ar o treinador sabia que viriam as perguntas sobre Neymar, que mais perguntas seriam feitas ao próprio Neymar e que artigos como este seriam escritos com abundância no Brasil monotemático com periodicidade quadrienal. “O Neymar pode lá estar também. Se chegar lá a 100%, pode estar no Mundial. Por que não está nesta lista agora? Porque não está 100%”, explicou o italiano, também singular de assunto.
Neymar não joga pela seleção do Brasil desde a partida contra o Uruguai, em outubro de 2023
Eurasia Sport Images
O tema da forma física é inamovível do jogador de 34 anos, há mais de cinco envolto em dúvidas desde que trocou a chiqueza de Paris pelo deserto da Arábia Saudita, num lugar e no outro a sedução que o captou teve cifrões e a partir daí o seu corpo deixou de ser um facilitador do seu talento para se tornar um bloqueador. Contou 676 dias parado e perdeu 91 jogos devido a lesões, hoje há sites que mantêm contagens destas e não é simpática a de Neymar, que lesionado chegou ao Al-Hilal e ao Santos e lesionado saiu do Brasil-Uruguai, em outubro de 2023, a sua última aparição na seleção do Brasil.
Posto a rodar o ciclo pela ação de Ancelotti veio a consequência habitual, à primeira oportunidade confrontaram Neymar com a sua ausência de mais uma convocatória e o jogador respondeu como pôde: “Obviamente, fico chateado e triste por não ter sido convocado. Mas o foco continua, dia após dia, treino após treino, jogo após jogo. O foco mantém-se. Vamos alcançar o nosso objetivo. Ainda falta a convocatória final.” Falou após marcar um penálti de boné, brincos e relógio no pulso num jogo da Kings League, torneio de futebol de 7, amador embora cheio de influencers, personalidades do Twitch e jogadores reformados, o que dirá bastante acerca do contexto atual de Neymar.
Disse também que “ainda falta a convocatória final”, uma verdade, está agendada para 18 de maio, no fundo confiou na porta mantida aberta por Carlo Ancelotti ao dizer que “na lista final o discurso é outro” e deixar conselhos a Neymar: “Tem de continuar a trabalhar e a jogar, mostrar as suas qualidades numa boa condição física.” Ou seja, o homem com mais golos (79) na história da seleção do país que é penta tem de se pôr em boa forma para acalentar esperanças de ir ao seu quarto Mundial que no Brasil é Copa do Mundo.
Daqui por uns meses descobriremos se Neymar será como Pelé ou se imitará Romário, “não é uma avaliação técnica“, antes “uma avaliação física“, esclareceu Ancelotti ao explicar como o capitão do Santos “com bola está muito bem“ mas “não está a 100% de suas possibilidades“. No fundo, o conselho é apenas um: “Tem que trabalhar para estar em 100%.“