Futebol internacional

Mohamed Salah diz adeus ao Liverpool: “Infelizmente chegou o dia, esta é a primeira parte da minha despedida”

Egípcio está de saída do Liverpool após nove temporadas de troféus e golos
Egípcio está de saída do Liverpool após nove temporadas de troféus e golos
Andrew Powell

Após nove temporadas, duas Premier Leagues, uma Champions e mais de duas centenas de golos, o egípcio vai deixar Anfield no final de uma época em que fissuras que já vinham de trás se abriram ainda mais. Mas nada muda o legado: Salah fica na história como um dos melhores jogadores da história do Liverpool. E isso não é mesmo para todos

Ao som de um piano suave segue-se um suspiro. Só depois Mohamed Salah começa a falar no vídeo, com um ror de taças como pano de fundo. A notícia chega rápido. Faltam ainda três meses para terminar a temporada, mas o egípcio, a bem da honestidade, não quis deixá-la para mais tarde: “Olá a todos. Infelizmente chegou o dia. Esta é a primeira parte da minha despedida: vou deixar o Liverpool no final da temporada.”

O adeus, transparente, tranquilo, feito com tempo e sem uma novela a acompanhar, é como um ato antagónico face aos últimos meses de Salah em Anfield. Foi campeão, melhor jogador, marcador e assistente da Premier League em 2024/25, passeando em campo o estado de graça que não existia quando chegava aos escritórios do clube. O faraó chegou mesmo a dar por certa a sua saída no final do contrato, uma guilhotina marcada para junho de 2025, antes de uma renovação tirada a ferros e que apareceu apenas em abril. Com o sucesso desportivo, coletivo e individual, a situação parecia apaziguada.

Mas o terrível arranque de 2025/26 do Liverpool terá feito surgir novas fissuras na relação entre jogador e clube, jogador e treinador, jogador e as suas próprias vontades. Arne Slot tirou-lhe a titularidade em dezembro e bombasticamente reagiu o avançado, terceiro melhor marcador da história dos reds, abrindo-se surpreendentemente aos microfones dos jornalistas após mais um deslize da equipa, então numa terrível fase.

Expressou a incredulidade por não ser titular depois de ter feito “tanto pelo clube”, frisou não ser “mais do que ninguém”, mas ter ao longo de nove temporada trabalhado por “merecer uma posição”, posição essa que, treslendo o seu discurso, não se coadunava com ver jogos sentadinho no banco. A relação com Slot era então inexistente: “Não há relação entre nós. Sempre foi boa e agora, de repente, não há relação”. Atirou-se ainda ao momento de forma de colegas de equipa, falou de promessas no verão, que se tinham tornado incumpridas. “Parece que o clube me atirou para debaixo do autocarro. É o que eu sinto. E acho que é muito claro que alguém quer que eu fique com a culpa toda”, lançou, lapidarmente.

Mohamed Salah sentado num trono no centro do relvado em Anfield, no estádio do Liverpool, quando foi anunciada a renovação do seu contrato com o clube em abril de 2025
Andrew Powell

Pensou-se então que Mohamed Salah, mesmo de novo contrato assinado, não mais jogaria no Liverpool. Mas no regresso da CAN o egípcio voltou a ser um habitual titular. Ainda assim com uma produção bem longe da época transata: tem de momento apenas cinco golos marcados e seis assistências, um abismo de distância para os 34 golos marcados e 23 assistências distribuídas em 2024/25.

E, por isso, não se pode dizer que o adeus seja uma absoluta surpresa. Aos 33 anos, Salah sairá de Anfield de forma agridoce, é certo, mas com um intocável estatuto que o coloca como um dos mais importantes jogadores dentro de um clube que está pejado de glórias. Ajudou os reds a vencerem a Premier League por duas vezes, esteve na vitória na Champions League em 2019, marcando na final. Ganhou ainda um Mundial de clubes, uma Supertaça Europeia, uma Taça de Inglaterra e duas Taças da Liga. São, até ver, 255 golos em 435 jogos - foi quatro vezes o Bota de Ouro da liga inglesa.

“O Liverpool não é apenas um clube. É uma paixão, é história, é um espírito. Não consigo explicá-lo em palavras a quem não faz parte deste clube”, diz ainda Mo Salah no vídeo de despedida, onde há uma referência não falada, mas sentida, a Diogo Jota, que morreu tragicamente em julho. “Celebrámos vitórias, conquistámos os mais importantes troféus e lutámos juntos no momento mais duro das nossas vidas”, diz, num momento em que o vídeo de despedida mostra imagens de um minuto de silêncio feito em honra do avançado português.

O clube promete, mais para o final da época, “celebrar o seu legado e conquistas” quando o faraó se despedir, agora a sério e definitivamente, do clube que também ajudou a transformar nas últimas nove temporadas. Há alguns meses falou-se de um contrato milionário na Arábia Saudita, para o próximo destino de Salah, provavelmente não tão fabuloso como aquele forjado no norte de Inglaterra, ainda não é conhecido.

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