Futebol internacional

Itália, um país que não é para jogadores jovens, nem dribles ou sprints

Tonali, Calafiori, Mancini, Locatelli e Di Marco a gritarem o hino nacional italiano antes do primeiro jogo do play-off de apuramento para o Mundial de 2026
Tonali, Calafiori, Mancini, Locatelli e Di Marco a gritarem o hino nacional italiano antes do primeiro jogo do play-off de apuramento para o Mundial de 2026
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Gabriele Gavina, o demissionário presidente da Federação Italiana de Futebol após a seleção falhar o apuramento para o terceiro Mundial seguido, desvendou um relatório que expôs em números as maleitas do seu calcio: entre 50 campeonatos analisados, a Serie A é o oitavo mais velho da Europa, o que menos minutos dá a jogadores sub-21 nacionais e, entre as big 5, onde menos se dribla e menos metros são corridos em sprint

Não faltam datas que enegreçam trágica, porque o é, relação recente de Itália, quatro vezes campeã mundial, com o Campeonato do Mundo: desde 2006, quando conquistou o torneio que justificou dar a Bola de Ouro a um defesa central (Fabio Cannavaro), elevou outro a um pedestal (Fabio Grosso) devido a um golo marcado e teve um número 10 a jogar com parafusos no tornozelo (Francesco Totti) que o país não vence uma partida a eliminar. Agora a seleção falhou, pela terceira vez seguida, a qualificação para a prova, sabor que lhe foge desde 2014.

Com a molécula do futebol misturada com glóbulos brancos, vermelhos e demais companhia no seu sangue, os italianos viram a seleção a perder com a Bósnia Herezgovina, há duas semanas, após a verem perecer contra a Macedónia do Norte, em 2021, e antes frente à Suécia, em 2017, sempre nos play-offs de apuramento. As manchetes a falarem de “apocalipse”, do “fim” e de “todos para casa” repetiram-se; as consequências, desta feita, igualmente: o selecionador Gennaro Gattuso demitiu-se, dando o exemplo a Gabriele Gavina, o presidente da Federação Italiana de Futebol.

Este último não quis, porém, sair sem algum barulho.

Já era suposto a entidade apresentar, em breve, um relatório no parlamento italiano a radiografar as maleitas do calcio denunciadas há muito por dedos vários, mas deixadas andar a despeito, também porque a maquilhagem dada pela vitória no Euro 2020 ou a ida do Inter a duas das últimas três finais da Champions não ajudou. Esta quarta-feira, o demissionário Gavina, ainda na liderança da federação até que seja escolhido um sucessor, em junho, decidiu revelar já o documento para escancarar a piura do futebol italiano e as suas “deficiências”.

Os dados não são animadores. Diz o relatório de 11 páginas que entre 50 ligas analisadas, a Serie A é a 49ª que menos minutos dá (1,9%) a jogadores sub-21 nacionais, cenário piorado pela coincidência de o Observatório do Futebol (CIES), no mesmo dia, publicar um compêndio do tempo de utilização dado a jovens nessa faixa de idade nos últimos cinco anos que mostra como, no principal campeonato italiano, a equipa com melhor desempenho foi o Parma, com apenas 9,5% dos minutos dados a esses jogadores.

Para comparar, quem melhor o faz em Portugal é o Famalicão, um clube que não é para velhos, com 13,5% dos minutos dados aos sub-21, sendo também o que mais utiliza jogadores entre até aos 24 anos (52,1%).

Por contraste, o documento de Gavina mostra que a primeira divisão de Itália é o oitavo campeonato mais velho entre os 50 tidos em conta: a média de idade está nos 27 anos. O pincel aplicado ao cenário mantém os tons negros: a prevalência de jogadores estrangeiros na Serie A é de 67,9%, a sexta percentagem mais elevada, havendo apenas 89 futebolistas italianos selecionáveis entre os 284 que jogaram, em média, pelo menos 30 minutos por encontro esta época. E desses, 10 são guarda-redes.

Os clubes pouco apostam na canalha que o país produz e vai produzindo com talento, prova disso os recentes títulos europeus de sub-19 (2023) e de sub-17 (2024), além do 3º lugar no último Mundial do escalão, conquistado por Portugal. Não surpreende que o país esteja atrás de França, Espanha, Portugal, Países Baixos, Inglaterra e Alemanha em receitas com vendas de jogadores formados nos seus clubes. Só Atalanta e Juventus figuram entre os 50 clubes que mais euros amealharam com esse tipo de transferências.

O declínio da finta

De Itália vieram aos relvados dribladores de mestria, não tipos de fintas plásticas modernas como passar pernas sobre a bola no engano ou truques circenses, antes jogadores a quem o objeto se colava ao pé, domesticado contra quem os tentasse roubar. Nas últimas três décadas houve Baggio, Donadoni, Del Piero, Cassano, Totti, Mancini, não extremos como os que muito escasseiam hoje por lá mas atacantes crescidos na arte de evadir na companhia da bola.

Os números vasculhados pelo relatório de Gravina secundam o que os olhos não veem por estes dias. Em 2019/20, a média de dribles bem-sucedidos estava nos 19 e decaiu para os atuais 12,3 e nem em dribles tentados a pintura sorri à Serie A: entre os cinco principais campeonatos europeus é o pior neste parâmetro, com 26,6 tentados por jogo. Como se educa a jogar em Itália terá culpa, embora a causa tenha uma dose de consequência. O país padece da praga maior e global do futebol, ao ter deixado virar moda formar crianças a jogarem a um, dois toques, limitados pela mão dos treinadores em idades para experimentarem, arriscarem e aprenderem errando em vez de crescerem domados.

Nicolò Barella, do Inter, a celebrar o golo que marcou à AS Roma na última jornada da Serie A: entre os 22 titulares na partida, oito eram italianos
Marco Luzzani

O país padece da praga maior e global do futebol, ao ter deixado virar moda formar crianças a jogarem a um, dois toques, limitados pela mão dos treinadores em idades para experimentarem, arriscarem e aprenderem errando em vez de crescerem domados. Crescendo e espremendo-se por entre a fresta que dá acesso à Serie A, o contexto retratado pelo relatório não se anima a ser o mais desafiante.

É cliché no futebol dizer que não se trata de atletismo, corriqueira chalaça dita entre jogadores quando lhes pedem para correr, e só correr, nos treinos. Que a modalidade está cada vez mais atlética, com a ênfase no físico a ir ao detalhe, é inegável, mas o estilo em Itália não o reflete no número de corridas a alta velocidade: a Serie A não surge no top 10 das ligas com mais metros feitos ao sprint, por jogo. Os corpos não se aceleram, talvez porque a bola também não: acrescenta o relatório que a bola rola, em média, 7,6 metros por segundo na primeira divisão transalpina, um ritmo caracol se comparada com os 10,4 medidos na Liga dos Campeões, esta época.

Outros motivos haverá para o declínio progressivo do futebol italiano, outrora chamariz de talento, dinheiro, publicidade, encanto, enfim de tudo, durante as décadas de oitenta e noventa - na virada do milénio, curiosamente, coincidiu com a erupção da Premier League o fim do limite à inscrição de jogadores estrangeiros ou extracomunitários na Serie A. De trás permaneceram os demais problemas, como os estádios envelhecidos que pertencem não aos clubes, mas às autarquias, ou a “hipertrofia”, como lhe chama o relatório, de equipas profissionais: “só México, Argentina, Tailândia, Turquia, Tailândia e Arábia Saudita têm mais.”

Esmiúçadas as razões futebolísticas, sobram as financeiras e estruturais igualmente com espaço no relatório e que fizeram Gabriele Gavina, mesmo cancelada a sua ida ao parlamento italiano pelo respetivo Comité da Cultura, Ciência e Educação, a divulgar o relatório. “Como se a minha demissão tivesse resolvido todos os problemas”, indicou o sarcástico presidente, de saída do cargo em junho.

O futebol italiano perde mais de €730 milhões por ano, lamentou, devido às “demasiadas ineficácias, senao mesmo falsidades, que alimentam a busca de culpados a todo o custo, mas, sobretudo, a difusão de crenças erradas”. Não há muito tempo, Itália punha-se cega a acreditar no seu talento, na sua forma de jogar. Hoje custa-lhe avistar craques da estirque que durante décadas limou.

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