Futebol internacional

Marie-Louise Eta: este é o nome da primeira mulher a treinar uma equipa masculina na Bundesliga e nos principais campeonatos da Europa

Marie-Louise Eta tem 34 anos e já tinha estado, como adjunta, na equipa técnica do Union Berlin
Marie-Louise Eta tem 34 anos e já tinha estado, como adjunta, na equipa técnica do Union Berlin
Maja Hitij

Marie-Louise Eta foi escolhida pelo Union Berlin, atual 11º classificado do principal campeonato alemão, como treinadora principal da sua equipa masculina até ao final da época. Aos 34 anos, a antiga vencedora da Liga dos Campeões feminina vai ocupar a função durante cinco jogos, antes de assumir a equipa de mulheres do clube

Marie-Louise Eta já mais ou menos que esteve aqui. Quando, em 2024, o Union Berlin se viu em ligeiros apuros por ficar provisoriamente sem treinador, teve assumir uma escolha já feita. Nenad Bjelica empurrou Leroy Sané, então no Bayern de Munique, a meio de um jogo, foi expulso, castigado com três jogos de suspensão e o tau-tau forçou a história: os deveres de técnico principal ficaram repartidos pelos seus dois adjuntos, Danjel Jumic e Marie-Louise Eta. Um homem e uma mulher a dividirem a função.

Como ele era croata e ela alemã, Marie-Louise ficou com a incumbência de falar nas conferências de imprensa, a sua cara bem posta diante das câmaras para que vivalma duvidasse. Assim o Union Berlin se fez o primeiro clube na Bundesliga e nos cinco principais campeonatos europeus de futebol a ter uma mulher como treinador de uma equipa principal masculina, mesmo que de forma interina. Pouco meses antes, em 2023, tinha então 32 anos e esteve no banco da equipa berlinense em Braga, num jogo da Liga dos Campeões.

Marie-Louise já estivera mais ou menos aqui, mas não exatamente aqui, no lugar onde o Union Berlin a colocou, perto da meia-noite de domingo, sem alarido de maior nem lustro puxado à significância da decisão. “Novo ímpeto para os últimos jogos”, anunciou, em comunicado, ao explicar que o clube “vai atacar a fase final da época e a batalha para evitar a despromoção sob a liderança desportiva” da alemã, “previamente treinadora dos sub-19” masculinos e “futura técnica da equipa principal feminina”. Porque apesar de histórico, isto é transitório.

Terá a função interinamente, por cinco jogos até meio de maio, antes de assumir o comando da equipa principal feminina do clube como já era previsto. Será cerca de um mês a esculpir história no futebol. “Estou encantada que o clube tenha confiado em mim para esta desafiante tarefa”, disse Marie-Louise Eta, nova treinadora de Diogo Leite, defesa central português, ao lembrar que a missão não é órfã de riscos: “Dada a diferença pontual na parte de baixo da classificação, a nossa continuidade na Bundesliga não é garantida.” O Union Berlin é o atual 11º classificado, com mais oito pontos face ao St. Pauli, o 16º e primeiro na zona de despromoção.

Marie-Louise Eta vai treinar Diogo Leite, defesa central português, no Union Berlin
picture alliance

Um passado de Champions

Em experiência de campo não falta currículo à nova cara principal do clube. Como jogadora destacou-se no Turbine Potsdam, pujante equipa do futebol feminino germânico na primeira década deste século. Ainda era conhecida como Marie-Louise Bagehorn quando, em 2010, conquistou a Liga dos Campeões, sendo pelo meio tricampeã da Alemanha antes de descalçar as chuteiras com precocidade, aos 26 anos, precipitada pelas lesões. Casar-se-ia depois, assumindo o apelido do marido.

A partir de 2018, Eta dedicou-se aos deveres de treinador. Estudou nos cursos da UEFA, liderou as seleçoes sub-15 e sub-17 femininas e chegou ao Werder Bremen. Nascida em Dresden, no leste da Alemanha empobrecido no seu legado futebolístico desde a queda do muro de Berlim, chegou ao Union em 2023 como adjunta dos sub-19 masculino, lidando com os anti-corpos quase inatos a um mundo de homens que ninguém saberá justificar, mas que se erguem perante uma mulher quando o contrário não acontece diante de um homem que treine uma equipa feminina.

Aconteceu-lhe de forma pública em 2023, pela voz de Maik Bathel. O diretor de uma agência alemã de representação de jogadores criticou que a decisão do Union Berlin em promovê-la interinamente treinadora principal, a meias com um homem, fazia o futebol germânico “parecer ridículo”. O empresário perderia jogadores devido às suas declarações. “Como qualquer pessoa, quero ser respeitada. É uma questão de qualidade, de crescer através da performance, isso é o que conta para mim. Não importa se és homem ou mulher”, diria Marie-Louise Eta, à “Globo”, que à UEFA admitiu como “algumas pessoas” tratavam “de maneira diferente” e isso “não é confortável”.

A 18 de abril, quando vier a sua estreia no banco do Union Berlin, em casa, frente ao Wolfsburg, sentirá a diferença de tratamento. Jornalistas e câmaras e destaques serão dados ao jogo que marcará a primeira vez de uma mulher como treinadora de uma equipa principal masculina de uma primeira divisão na Europa. Ali jamais uma mulher esteve, mesmo que Marie-Louise Eta já mais ou menos tenha estado.

Como Helena Costa, hoje diretora-desportiva do Estoril Praia, quase esteve em algo parecido: em 2014, a portuguesa foi contratada pelo Clermont, do segundo escalão francês, mas demitiu-se a dias de sequer orientar a equipa num treino, por divergências com o presidente. Seria Corine Diacre a treinar a equipa masculina do clube, desse ano até 2018. Em Inglaterra, Hannah Dingley liderou o Forest Green Rovers da quarta divisão, sendo a primeira a orientar uma equipa profissional em Inglaterra. A primeira de todas foi Carolina Morace, quando virou treinadora do Viterbese, do terceiro patamar do calcio italiano, em 1999.

Nenhuma chegou onde Marie-Louise vai estar em breve, mas certamente todas sentiram o mesmo que uma mulher sentirá quando tem funções de responsabilidade no futebol masculino.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt