Futebol internacional

Gastos excessivos, traumas e planeamentos falhados: 10 anos depois de conquistar a Premier League, o Leicester desceu à terceira divisão

Jogadores do Leicester incrédulos depois de confirmada a descida ao terceiro escalão
Jogadores do Leicester incrédulos depois de confirmada a descida ao terceiro escalão
Plumb Images

Há uma década, o Leicester foi protagonista do mais incrível conto de fadas da Premier League, conquistando o título contra todas as expectativas. Seguiu-se a trágica morte do proprietário e, nas últimas temporadas, más decisões que culminaram com duas descidas consecutivas de divisão. Na próxima época, os Foxes vão jogar na League One

Há algo de profundamente desolador na imagem de um estádio vazio. Não terá sido por acaso que o primeiro sinal de vida do Leicester City nas redes sociais depois de confirmado o pior momento da história do clube tenha sido uma fotografia de um deserto King Power Stadium, com uma mensagem tão burocrática que, ao mesmo tempo, parecia saída de alguém ainda em profundo estado de choque.

“O resultado desta noite confirma a nossa descida à Sky Bet League One”. Assim, curto e cruel.

Dez anos depois se terem tornado uma das mais improváveis histórias do futebol mundial, ao ganhar uma Premier League com uma odd de 5000/1 - como muito bem referiu o The Athletic, a mesma de Elvis ser encontrado vivo - os Foxes engatilharam a segunda descida de divisão consecutiva e na próxima temporada serão parte do terceiro escalão do futebol inglês. A machadada final numa época já marcada pela retirada de seis pontos, em fevereiro, por incumprimento das regras financeiras da English Football League, por perdas operacionais excessivas, aconteceu com um empate 2-2 frente ao Hull City, na terça-feira.

No ano civil de 2026, o Leicester ganhou apenas dois jogos, depois de iniciar a época como um dos candidatos a subir à Premier League.

Traumas e gastos excessivos

Longe vão os tempos do “dilly ding dilly dong” que Claudio Ranieri atirava aos jogadores nessa miraculosa época de 2015/16 quando estes lhe pareciam um pouco menos atentos no treino. Agora, não há campainha imaginária que valha a um clube que vem juntando resultados financeiros preocupantes a más decisões de gestão desportiva.

Depois de se sagrar campeão, em 2016, o Leicester chegou aos quartos de final da Champions na época seguinte, vencendo a Taça de Inglaterra em 2021. Em 2020 e 2021 entrou para a última jornada ainda com possibilidades de se qualificar para a Liga dos Campeões, quedando-se nessas duas temporadas no 5º lugar, num caminho que parecia de consolidação num patamar não muito longínquo do big 6 da Premier League.

Ainda assim, o colapso do Leicester terá começado ainda dentro do período áureo do emblema das East Midlands britânicas. Dois anos depois do inesperado título de 2016, Vichai Srivaddhanaprabha, carismático dono do clube, morreu quando o seu helicóptero se despenhou pouco depois de descolar do King Power Stadium.

Uma imagem com apenas 10 anos: o Leicester a festejar nas ruas o mais inesperado título da Premier League
Michael Regan

O tailandês, empresário que se tornou multimilionário graças ao império de lojas duty free em aeroportos, comprou o clube em 2010 por pouco mais de 40 milhões de euros, quando o Leicester estava falido e afogado em dívidas. Quatro anos depois, os Foxes estavam de regresso à Premier League. Dois anos depois sagraram-se campeões. Com a morte de Vichai, muito querido pelos jogadores, a gestão do clube passou para as mãos do seu inexperiente filho Aiyawatt, na altura com apenas 33 anos.

À morte de Vichai, em 2018, seguiram-se os anos da pandemia, particularmente duros para a King Power, já que criou grandes disrupções na aviação e, por consequência, nas lojas duty free. Sem conseguir a qualificação para a Champions, o Leicester manteve, no entanto, uma política de gastos altos, oferecendo contratos longos e salários chorudos aos jogadores. Em 2021, contratou futebolistas como Jannik Vestergaard, Boubakary Soumaré ou Patson Daka por valores elevados, sem que qualquer um deles tenha justificado o investimento. Nos anos seguintes perdeu peças importantes como Youri Tielemans, Ayoze Pérez ou Kelechi Iheanacho a custo zero.

Em 2023, depois de descer ao Championship, um primeiro choque de realidade para o clube, o Leicester seria obrigado a vender Harvey Barnes (Newcastle) e James Maddison (Tottenham). No regresso à Premier League, um ano depois, voltou a investir quantias significativas em jogadores que são agora símbolos da queda aos infernos, como Oliver Skipp, Jordan Ayew ou Caleb Okoli.

Planeamento falhado

Mesmo contando com os parachute payments, valores que a Premier League paga aos clubes que descem ao Championship para ajudar na transição para um campeonato que gera muito menos receitas, o Leicester iniciou a nova temporada com uma abordagem muito conservadora no mercado, sem contratações que não fossem por empréstimo, dada a sangria de dinheiro que já vinha de épocas anteriores. Ainda assim, o seu plantel era dos mais caros do Championship.

Mas fora as limitações financeiras, a preparação da época começou logo torta: mesmo sabendo desde abril que seria despromovido da Premier League, só em meados de junho o clube decidiu despedir Ruud van Nistelrooy e Marti Cifuentes, que substituiria o neelandês, só chegou várias semanas depois, já com a pré-temporada em plena laboração.

O espanhol saiu em janeiro, com o clube em 14º lugar, mas com os lugares do play-off à vista, e Gary Rowett demorou quase um mês a ser contratado. E com o antigo defesa no banco, o Leicester entrou numa espiral depressiva imparável, vencendo apenas um jogo no Championship, frente ao Bristol City. A BBC fala de uma cultura de falta de responsabilização por parte da liderança do clube, a milhas da atitude de mãos à obra dos tempos de Vichai Srivaddhanaprabha. Nas bancadas, agora algo despidas do estádio do clube, somam-se as manifestações contra a liderança tailandesa.

Adeptos começam a contestar a liderança tailandesa do clube
Michael Regan

No final do jogo com o Hull, na terça-feira, Rowett falou ainda da falta de “urgência” e de reconhecimento da “importância do jogo” por parte dos jogadores, já aparentemente derrotados antes da equipa entrar em campo. E pouco depois da foto de um estádio vazio encher as redes sociais do Leicester de um silêncio ensurdecedor, nova imagem de um solitário King Power Stadium apareceu. Desta vez acompanhada de uma declaração de Aiyawatt Srivaddhanaprabha, a assumir as culpas por um momento quase tão inesperado quanto aquele título de há 10 anos.

“Peço imensas desculpas pela desilusão que causámos. Percebo os sentimentos dos nossos adeptos e não tenho o seu apoio como algo garantido, principalmente em momentos como este. O nosso foco agora é no que se segue. Vamos tomar as decisões que forem necessárias para levar o clube para a frente, trabalhando juntos para reconstruir, melhorar e restabelecer os padrões esperados para o Leicester City.”

No final deste mês, o Leicester vai marcar o 10º aniversário do título de 2016 com um jogo solidário que juntará muitos dos nomes marcantes desse ano inesquecível para o clube. Porém, em vez de festejar, o clube terá necessariamente de refletir. Ricardo Pereira, lateral português que é capitão da equipa, é um dos jogadores em fim de contrato. Muitos outros deverão sair, para comportar o necessário apertar de cinto que a descida à League One pressupõe.

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