A implosão do Real Madrid: os treinadores mudam, os jogadores andam à bulha e os ratos bufam
Federico Valverde, capitão do Real Madrid, a celebrar um dos três golos que marcou ao Manchester City esta época, talvez no jogo que foi o ponto alto na época da equipa agora a desmoronar-se
NurPhoto
O Real Madrid tem a equipa a desmoronar-se em tricas, rumores, danças de treinadores e, agora, lutas entre jogadores. Depois da polémica com Mbappé e a sua viagem à Sardenha, foram Valverde e Tchouaméni a brigarem em dois dias seguidos nos treinos, com o uruguaio a acabar no hospital. Nos boatos que são parte do dia a dia do clube já se fala que para a próxima época haverá drásticas mudanças no plantel
Não há muito tempo emergiu um vídeo na internet ao estilo de câmara oculta, mas longe de o ser, a espreitar entre braços e troncos, por cima de ombros, com gente a tapar a vista. Gravado no balneário do Real Madrid em Wembley, faz dois anos, ao intervalo da final da Liga dos Campeões, a fita serviu de chancela às vigas de personalidade que sustentavam o Real Madrid, clube forjado no pó estelar de astros intergaláticos, desde a sua conceção atraído - e rendido - à gravitação de jogadores de popularidade global.
O vídeo é um desfile de egos, mas de bons egos, a elevarem os ânimos da equipa: o pequeno de tamanho Luka Modrić falou com a sua voz de tenor, Toni Kroos pareceu dar instruções à equipa técnica antes de instruir os colegas quanto ao que corrigir, Dani Carvajal fez-se ouvir e a calma voz do capitão Nacho, tipo avesso ao molde de futebolista-celebridade como o Real Madrid gosta, lembrou a todos que, às vezes, era preciso sofrer para prevalecer.
Os merengues ganharam essa final, por 2-0, conquistando a Liga dos Campeões pela 15ª vez. Foi o mais recente troféu posto na vasta vitrine do Santiago Bernabéu e terá sido o último hurrah do delicado equilíbrio entre estrelas e rendimento, de galáticos com fibra misturados com aspirantes a serem-no, mas ainda sem barba rija ou estaleca, que sustentou o clube na recente década meia.
Órfão de referências cujo nome, ou presença, significam toneladas de peso pelo que representam, os jogadores que ainda conviveram com esses idos jogadores têm feito sobrar os berbicachos no clube. Na quinta-feira soube-se que Aurélien Tchouaméni, no Real desde 2022, conflituou-se com Federico Valverde, chegado há 10 anos a Madrid, ainda adolescente, para jogar no Castilla, a equipa B. Pelas primeiras descrições, abundantes nos jornais espanhóis ou contas de jornalistas, comentadores ou opinadores nas redes sociais, porque a fauna é extensa em Espanha, a querela foi feia.
Da fumarada de rumores, o sumo contou que o uruguaio e o francês teriam partilhado pancadaria no balneário após o treino, trocando golpes após as faíscas vistas na parte de jogo do treino onde Valverde disputara lances com Tchouaméni de garras afiadas, visando-o com entradas duras. O médio charrua, alcunha futebolística dos uruguaios, acabou no hospital com a cabeça aberta e um traumatismo craniano. A picardia viera da véspera, a origem por saber, mas já na quarta-feira o vice-capitão do Real enrijeceu o trato com o companheiro de equipa, arisco com tantas entradas agressivas estando o Mundial tão à vista. Valverde até esperou por ele após o treino para insistir com palavreado naquilo que em campo não ficara resolvido.
E o treinador, Álvaro Arbeloa, achou por bem voltar a colocá-los em equipas diferentes no treino seguinte.
Face à ausência de Dani Carvajal, fustigado por lesões, Valverde tem sido o capitão do Real Madrid esta época
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“Uma luta sem sentido”
Quentes de ânimos, os jogadores confrontaram-se outra vez no balneário e o “El País” relata que Valverde escorregou e foi de cabeça a uma mesa, abrindo uma ferida tratada com pontos pelos médicos do clube antes de ir a um hospital fazer exames. De oficial apenas a reação do uruguaio, transmitida não através do clube, antes nas redes sociais. “Ontem tive um acidente com um companheiro no treino devido a uma jogada no treino, onde o cansaço e a frustração fazem com que tudo se engrandeça. Hoje voltámos a desentendermo-nos. Na discussão, fui acidentalmente contra uma mesa, fiz um pequeno corte e tive de fazer uma visita protocolar ao hospital”, escreveu Valverde, num longo desabafo.
O uruguaio usar o Instagram foi paradigmático. Fê-lo como Álvaro Carreras semanas antes, ao dar conta do seu sururu sanado, mas acontecido, com Antonio Rüdiger, ou como as rémoras de Kylian Mbappé - “entorno”, se preferirem, tão em voga se dito em espanhol -, tubarão de fama do atual Real Madrid que para serenar o enfado dos adeptos pela sua ida, durante dias de folga, à Sardenha com a namorada apesar de estar lesionado, aterrando de volta a Madrid meros minutos antes do jogo mais recente da equipa, que divulgaram um comunicado para reforçar o compromisso do francês.
‘Fede’ Valverde garantiu que “em nenhum momento” golpeou Tchouaméni, nem o francês o atacou. Pediu desculpa, admitiu a “frustração” e a dor perante uma situação que protagonizou no Real Madrid, “uma das coisas mais importantes” da sua vida. De outra confidência se retiraram as duas frases mais alusivas e certeiras da situação atual: “foi o resultado de um acumular de coisas que terminaram num conflito sem sentido” surgidas numa “época sem títulos onde o Real sempre é o foco da mira e tudo se magnifica”.
Os dizeres urbanos falam que os merengues são um clube de jogadores, não de treinadores. Cedo estalaram os desaguisados com Xabi Alonso, o basco feito príncipe de Madrid como jogador, ganhador de tudo, vindo no verão com aura do Bayer Leverkusen mas carcomido, aos poucos, com boatos esparramados na imprensa sobre o enfado dos futebolistas com as suas palestras, as longas sessões de vídeo e a carga tática que injetava nos treinos.
Falava-se das comichões de Valverde por ser lateral direito, ainda mais das que Vinícius Júnior não escondia por ser substituído com frequência nos jogos. Em outubro, saído contra o Barcelona, apesar da vitória a birra do brasileiro engoliu as parangonas e, em vez de apoiar o treinador, Florentino Pérez ficou do lado do extremo que já pirraça fizera, com o respaldo do clube, por não ganhar a Bola de Ouro entregue a Ousmane Dembélé, do PSG. A “Marca” conta que havia quem fingisse adormecer nas palestras de Xabi e outros conversavam como pirralhos infantis numa sala de aula. A relação deteriorou-se até o técnico ser despedido, em janeiro.
Veio Álvaro Arbeloa, homem da casa, faz-tudo em campo nos tempos de atrito de José Mourinho em Madrid, para orientar a equipa até ao final da temporada. Seria visado como as companhias de Alonso: os jornais gastaram tinta a relatar o desprezo de alguns jogadores pelo magro estatuto do espanhol, pobre em feitos no banco, como de soslaio olhavam para os adjuntos do seu predecessor, cujo currículo obeso não compensava o desencanto que os pesos-pesados sentiam perante os seus métodos. Nessa franja de descontentes estariam, como ainda estarão, Vini Jr., Valverde, Jude Bellingham ou Eduardo Camavinga; na dos fiéis a quem manda consta Tchouaméni.
Tchouaméni durante o treino do Real Madrid desta sexta-feira, um dia após a briga com Valverde
David S. Bustamante
O cúmulo: ser convidado para a festa do Barça
Não seria este um dos episódicos vulcões de polémica do Real Madrid, pródigo em afagar o pêlo de futebolistas de crista generosa, sem mais rumores a proliferarem.
Há quem dê conta que outra falange há na equipa já anti-Mbappé devido aos tiques de estrela do francês, melhor marcador dos merengues (41 golos esta época, 44 na anterior) mas ainda a apalpar a noção dos deveres exigidos a quem é o jogador-bandeira do clube - ou, no dicionário do Real, o mais galático. Que vem aí uma vassorada das antigas no plantel, com saída de jogadores no verão e a chegada de outros, com egos mais dóceis. E de um treinador capaz de os domesticar à semelhança de Carlo Ancelotti, o prezado conciliador de personalidades que pedia a opinião aos futebolistas sobre o que fazer durante as partidas.
Ainda mais hoje, que além de jornais e jornalistas, ou de comentadores fãs de conversa de balcão - o conhecido programa “El Chiringuito”, por exemplo, pediu à Inteligência Artificial para gerar um vídeo da suposta briga entre Valverde e Tchouaméni -, existem influencers, personalidades de YouTube ou fenómenos do Twitch (streaming) com supostas fontes no clube a espalharem diz-que-disses. Onde há fumo costuma existir fogo e Valverde, no seu desabafo para o algoritmo das redes sociais, também tocou no que tem abundado esta época: “Estas coisas podem acontecer no balneário e resolvem-se sem que venham à luz. Evidentemente, cá há alguém que corre rápido a contar.“
As tricas sucedem-se, os ratos bufam e o clube, escreve a imprensa espanhola, vai aplicar processos disciplinares ao uruguaio e ao francês. Entretanto, já os castigou com multas focadas na carteira em vez de nas chuteiras: meio milhão de euros a cada um. Tchouaméni está livre para jogar no domingo, em Camp Nou, casa do Barcelona onde Valverde não irá devido à concussão que agora tem na cabeça e o Real Madrid pode ser o convidado de honra da festa do título. Perdendo em casa do rival, os catalães garantirão a conquista do título a três jornadas do fim.
E os desavessos jogadores do Real olharão para o lado e não verão um Kroos ou um Modrić, nem um Nacho ou um Carvajal, ainda menos um colossal Sergio Ramos. Falta quem assegure a ordem numa casa onde nem Florentino Pérez tem dito uma palavra em público.