Futebol internacional

Um estádio decrépito, tensões constantes e, ainda assim, o Rayo Vallecano, clube operário de Madrid, chegou à sua primeira final europeia

Jogadores do Rayo festejam a passagem à final da Liga Conferência
Jogadores do Rayo festejam a passagem à final da Liga Conferência
Jean Catuffe

O Rayo vive num conflito interno entre a sua essência e as exigências do futebol moderno. Mas se, por um lado, é impossível comprar um bilhete online para um jogo da equipa, dentro do campo o clube está no seu melhor momento: consolidou-se na La Liga e, depois de ultrapassar o Estrasburgo, nas meias-finais, vai jogar a final da Liga Conferência frente ao Crystal Palace

Romario no está, aqui no hay capital

Pero nos da igual, aquí hay calidad

Y si no te gusta, pues te vas

Porque chaval, esto es Vallecas.

A canção dos Ska-P não é o hino oficial do Rayo Vallecano, mas é como se fosse. Nos anos 90 não havia dinheiro no bairro operário de Vallecas, no sul de Madrid, enquanto o Barcelona juntava o Baixinho a Stoichkov e Hagi. Três décadas depois, o cenário não é muito distinto. Enquanto os catalães passeiam a sua morbidamente obesa folha de ordenados por um renovadíssimo Camp Nou, o Rayo continua a jogar no decrépito Campo de Fútbol de Vallecas, o mais pequeno da La Liga, com menos de 15 mil lugares.

Mas destas duas equipas, só uma vai jogar uma final europeia este ano. O Rayo, equipa yo-yo de Espanha, sempre a saltitar entre a primeira e a segunda divisão, aparentemente estável no escalão principal desde que apostou num tal de Andoni Iraola em 2020 para o banco, estará em Leipzig na final da Liga Conferência, num duelo com o Crystal Palace, depois de bater o Estrasburgo nas meias-finais com duas vitórias por 1-0.

Se o Rayo é diferente do Barcelona, ainda mais é do Estrasburgo, equipa dentro da estrutura multiclubística da BlueCo, que tem como centro o Chelsea. Estar dentro de um labirinto capitalista seria o pior pesado para a afición rayista, um dos bastiões da esquerda no futebol, que vem desde as suas origens quando, nos anos 20, o clube nasceu numa humilde casa do bairro e, pouco depois, começou a jogar na chamada Federação Obreira de Futebol.

Hoje mantém-se vivo no clube um espírito de classe trabalhadora e ativismo de esquerda, anti-fascista e anti-racista. Ir ao futebol em Vallecas não é só assistir a um jogo, é também ver as mensagens dos Bukaneros, os famosos ultras do Rayo, e o seu apoio apaixonado às causas dos movimentos feministas, LGBTQIA+, os braços abertos aos refugiados.

Os adeptos do Rayo, conhecidos pela sua ligação ao bairro e posições de esquerda
Eurasia Sport Images

E se há algo de verdadeiramente intencional em manter o Rayo um pequeno clube de bairro, as lutas entre a direção de Raúl Martín Presa, os adeptos e a própria Comunidade de Madrid têm mantido o finalista da Liga Conferência numa espécie de bolha anacrónica, que se ri de um sucesso europeu que não estava no bingo de ninguém no início da época.

Liderança contestada

Quer comprar um bilhete para um jogo do Rayo Vallecano? Prepara-se para esperar na fila. O clube não tem qualquer estrutura online para compra de bilhetes e estes só podem ser adquiridos nas bilheteiras do estádio, em formato físico. Neste temporada europeia, houve quem passasse noites inteiras ao relento para conseguir o seu ingresso. Em 2022, a Tribuna Expresso falou com quem tivesse passado 35 horas na fila no estádio para comprar o bilhete de época.

Não há também qualquer parque de estacionamento no estádio, pelo que os futebolistas, em dia de jogo, estacionam nas ruas adjacentes ao recinto, como qualquer adepto.

Esta é apenas uma das muitas particularidades de um clube que vive num conflito interno entre a sua essência e as exigências do futebol moderno. O Campo de Fútbol de Vallecas, inaugurado em 1976, é um dos corações do bairro, mas há muito que precisa de obras estruturais.

Em 2018, o estádio esteve fechado durante dois meses depois de se sentirem tremores nas bancadas e de uma criança adepta do Sevilha ter caído - sem ferimentos, felizmente - num buraco. Eram então comuns as fotos das casas de banho sem o mínimo de condições, do lixo acumulado, das cadeiras sujas e partidas, dos andaimes a segurar as periclitantes paredes. A Comunidade de Madrid, dona do recinto, fez algumas obras, mas ainda este ano o clube esteve perto de não ter o aval da UEFA para jogar a Liga Conferência em casa.

Iñigo Pérez, o jovem treinador de 38 anos levou o modesto clube espanhol à final da Liga Conferência
Jean Catuffe

Já este ano, em fevereiro, a La Liga adiou o jogo do Rayo com o Oviedo à conta das más condições do relvado, que colocavam em perigo a integridade física dos jogadores. Na caminhada da Liga Conferência, tornou-se viral o vídeo do Lech Poznan no balneário dos visitantes, com os polacos a mostrarem as condições precárias de um local onde conviviam caixas e caixas de cartão cheias de garrafas de água, salas sem luz e ralos seguros com fita isoladora.

Raúl Martín Presa, dono do clube desde maio de 2011, salvou-o da bancarrota, mas mantém uma tensa relação com os adeptos, que o acusam de desinvestir na equipa feminina e nas camadas jovens. Em 2022, em vários jogos fora, as jogadoras do Rayo tiveram de ser assistidas pelo staff das equipas rivais já que não levavam consigo qualquer médico. Presa justificou-se, dizendo que se as equipas femininas e da formação tivessem médicos o “serviço nacional de saúde espanhol ficaria sem profissionais”. A equipa, quatro vezes campeã espanhola entre 2003 e 2011, está agora na 3ª divisão.

Pior ainda ficaram os adeptos quando Presa, que não descarta construir um novo estádio fora de Vallecas, ao contrário dos desejos dos aficionados e das próprias autoridades de Madrid, convidou dois elementos do partido de extrema-direita VOX para assistirem a um jogo na bancada presidencial. Dias depois, correram mundo imagens de adeptos do Rayo, usando fatos de proteção, a desinfetarem as paredes.

Tensões e sucesso desportivo

Apesar de todas as tensões internas, a equipa principal masculina do Rayo vive um momento desportivo único. Além da final europeia apenas na segunda participação do clube em competições da UEFA, depois da Taça UEFA em 2000/01, no próximo ano o Rayo irá estar pelo sexto ano consecutivo na La Liga, pela primeira vez na história do clube.

Tudo começou com a chegada de Andoni Iraola, que subiu o clube em 2021 para a La Liga e logo na temporada seguinte chegou às meias-finais da Taça do Rei. Há dois anos, o Rayo salvou-se por pouco, após uma experiência falhada com Francisco, substituído por Iñigo Pérez, antigo adjunto de Iraola, que só não seguiu com o basco para Bournemouth porque o Reino Unido recusou-lhe o visto de trabalho - não tinha, à data, o nível da UEFA exigido pelo país.

Perdeu o Reino Unido, ganhou o Rayo, que com o jovem de apenas 38 anos conseguiu uma histórica qualificação europeia, com o 8º lugar da época passada, e pode agora levantar o seu primeiro troféu europeu, na final marcada para dia 27, em Leipzig.

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