E Cristiano Ronaldo tem finalmente o seu título na Arábia Saudita
Ao fim de três anos e meio, o português acabou com a seca de títulos no Al Nassr
Yasser Bakhsh
A vitória frente ao Damac por 4-1 valeu o primeiro campeonato nacional ao Al Nassr desde 2019 e o fim da seca de Cristiano Ronaldo, que três anos e meio depois de chegar a Riade vence finalmente o primeiro título no futebol saudita, com direito a bis no jogo decisivo. Jorge Jesus volta a ser campeão depois de o fazer com o Al Hilal em 2023/24. João Félix junta-se também à festa portuguesa
Foi a 30 de dezembro de 2022 que o mundo acordou para a chegada de Cristiano Ronaldo ao campeonato saudita. “Vim para ganhar, para jogar, aproveitar e para fazer parte do sucesso e da cultura do país”, disse então o português, acabado de sair do Manchester United às turras com Erik ten Hag, aparentemente farto do futebol europeu onde já tinha tocado em todos os troféus possíveis, aborrecido seguramente com algum esbater do protagonismo no onze da equipa da Premier League.
Ninguém pensaria, naquele dia, tal foi a fanfarra e a certeza de domínio, que seria preciso esperar três anos e meio para escrever a frase: “Cristiano Ronaldo ganhou o seu primeiro título na Arábia Saudita”. Mas assim é. A 21 de maio de 2026, o português tem finalmente a sua primeira grande alegria coletiva no Al Nassr, uma alegria comum dividida com outros dois portugueses, Jorge Jesus e João Félix, depois do clube de Riade bater o Damac por 4-1 e conquistar a liga da Arábia Saudita.
Foi preciso sofrer para chegar ao primeiro título, adiado duas vezes nos últimos dias. Na semana passada, um caricato erro do guarda-redes Bento, ajudado por Iñigo Martínez, na última jogada dos derradeiros segundos do jogo com Al Hilal, deu o empate à equipa de Rúben Neves, que adiou assim o campeonato do rival, mantendo-se, ao mesmo tempo, na corrida. E, no sábado, o Al Nassr perdeu, no seu estádio, frente ao Gamba Osaka a final da Liga dos Campeões 2, o equivalente à Liga Europa asiática.
Yasser Bakhsh
Em 2023, Cristiano levantou a Liga dos Campeões Árabes, mas tal nada vale para os registos da FIFA. Agora sim, com a conquista do campeonato, a primeira liga nacional de Ronaldo desde 2020, ainda na Juventus, o avançado português, de 41 anos, acaba com uma seca que se punha bem longa. Para ele e para o Al Nassr, que não ganhava o campeonato desde 2018/19, na altura com Rui Vitória no banco.
A final da Liga dos Campeões 2 foi a 4ª perdida por Cristiano no Al Nassr, que havia já saído derrotado na Taça da Arábia Saudita de 2023/24, na Supertaça de 2024 e também a edição de 2025 da mesma prova. A nível individual, o capitão da seleção nacional ia mitigando a falta de títulos coletivos com distinções que conhece bem: foi o melhor marcador das duas últimas edições do campeonato.
O campeonato saudita é o primeiro título conquistado por Cristiano Ronaldo desde a Taça de Itália de 2021, pela Juventus. Junta uma primeira liga na Arábia Saudita às três Premier League conquistadas no Manchester United, aos dois campeonatos espanhóis que logrou no Real Madrid e a outros dois que ganhou em Itália. Com 973 golos em competições oficiais - mais um bis marcado no jogo do título -, Cristiano continua a perseguir também o marco dos 1000 golos.
Montanha-russa em Riade
Nas três épocas e meia que leva na Arábia Saudita, Cristiano viu o Al Ittihad de Nuno Espírito Santo ganhar o título em 2022/23, com o Al Nassr a quedar-se pelo 2º lugar, a apenas dois pontos da equipa de Jeddah. No ano seguinte, Jorge Jesus, então no Al Hilal, levou os azuis a um triunfo claro na liga, com 14 pontos de vantagem para a equipa de Cristiano. A época passada havia sido ainda mais negativa, com o Al Nassr a terminar em 3º lugar, atrás de Al Ittihad e Al Hilal.
Abdullah Ahmed
Este ano, num campeonato cheio de flutuações, em que o título pareceu garantido, depois perdido para o Al Hilal e depois de novo ao alcance, o Al Nassr acabou finalmente com o hiato de troféus. A equipa arrancou com 10 vitórias consecutivas. Seguiu-se um período de quatro jogos sem ganhar, três deles derrotas. Coincidiu com um momento de convulsão interna, quando José Semedo e Simão Coutinho, homens de confiança de Cristiano Ronaldo, viram os seus poderes esvaziados, o que levou o jogador português a intentar uma espécie de greve para se manifestar contra as decisões do Fundo Soberano da Arábia Saudita, na altura proprietário dos quatro principais clubes da liga - vendeu, entretanto, o Al Hilal. Cristiano venceria o braço de ferro.
A equipa perdeu a liderança para o Al Hilal, mas estabilizou, iniciando uma série de 15 vitórias seguidas no campeonato, interrompida no início deste mês, após derrota frente ao Al Qadisiyah. E depois do empate com o Al Hilal foi mesmo preciso chegar à última jornada para resolver a questão do título. Frente a um Damac que lutava para não descer (e acabou mesmo por não evitar a despromoção), o Al Nassr começou nervoso, mas marcou ainda na 1ª parte, com um cabeceamento de Mané. Na 2ª parte, Coman fez o 2-0 e um penalti convertido pelo Damac ainda levantou alguns fantasmas, prontamente afastados por dois golos de Ronaldo, aos 62', num livre, e aos 80'. O português saiu pouco depois, em lágrimas.
Há 10 meses, quando anunciou a renovação com o Al Nassr, após semanas de especulação e uma suposta vontade de deixar o Al Nassr por uma equipa que jogasse o Mundial de clubes, Cristiano falava de “um novo capítulo” que começava, com “a mesma paixão e o mesmo sonho”. Se o sonho passava pelo título, parte dele está a ser, finalmente, uma realidade.