O Manchester City celebrou Bernardo Silva, o tipo discreto que foi obrigado a sair em lágrimas como uma lenda
Bernardo Silva foi substituído aos 59 minutos do jogo contra o Aston Villa, o último que fez pelo Manchester City
NurPhoto
Bernardo Silva fez, no domingo, o último jogo pelo City em que passou as últimas nove temporadas. O português foi homenageado no Etihad e até Guardiola verteu uma lágrima no adeus do pequeno maestro, que se declarou aos adeptos: “Nunca mais vou sentir o mesmo amor na minha vida.”
Os estilhaços de um anúncio podem ficar espetados na personalidade mais neutra em matéria de sentimentos. Com Bernardo Silva, até os duros se tornam sensíveis. Quando o português anunciou que ia deixar o Manchester City no final da época, Pep Guardiola parecia um refém. As emoções ameaçavam fazê-lo chorar em público se falasse muito sobre o português. Escolheu a contenção, sabendo que, se dissesse tudo o que queria, acabaria exposto. Não deixou, ainda assim, de se declarar ao seu protegido, aconselhando a audiência a referir-se ao pequeno maestro como uma lenda.
Não uma lenda qualquer, uma LENDA em letras maiúsculas.
Bernardo Silva deixou o Manchester City por uma grande porta aberta por colegas de equipa, de um lado, e adversários, do outro. Pep Guardiola, assumido fãs dos pés de veludo, mostrou incontinência nas lágrimas. Limpou à camisola o rosto de um pai que vê o filho partir e a vida mudou radicalmente de um momento para o outro.
A ditadura dos resultados nem sempre permite apreciar os momentos de maior vulnerabilidade das pessoas que os produzem. O Manchester City perdeu com o Aston Villa (2-1) na última jornada da Premier League, é certo, mas Bernardo Silva teve uma despedida bem acima da sua altura. É difícil tapar a boca a um estádio, mas, quando os melhores momentos da sua passagem por Inglaterra foram exibidos no ecrã gigante, todo o estádio deixou de saber como respirar.
Adeptos, colegas de equipa e adversário juntaram-se numa homenagem sentida ao português
Dan Mullan
Adeptos, colegas de equipa e adversário juntaram-se numa homenagem sentida ao português
Dan Mullan
15
Depois, chegou o momento dele para falar e enternecer corações ao jeito do que faz com os pés. “É difícil pôr em palavras o meu sentimento pelo Manchester City, por vocês. Nunca mais vou sentir o mesmo amor na minha vida. Duvido muito que volte a ter o amor que recebi por parte deste clube e dos adeptos. Todas as memórias que temos juntos, com os meus irmãos, com os adeptos, com o staff… Isto é uma família. Vai ser para sempre uma família e estou muito agradecido.”
Leva seis ligas, três taças, cinco taças da liga, três supertaças, um Mundial de clubes e uma Liga dos Campeões como recordação de Manchester. São títulos e recordes, mas também são laços afetivos.
O Etihad não se despediu unicamente de Bernardo Silva. John Stones, colega que inspirou o nome dado pelo jogador formado no Benfica ao cão, e Pep Guardiola também acenaram pela última vez aos adeptos. Um dos melhores treinadores da história possui inesgotáveis elogios para o internacional português, que também tem mimos para a troca. “Ele é o melhor de sempre. É o meu pai do futebol”, disse em relação ao técnico espanhol. “Ganhar tanto e partilhar tantas memórias fantásticas ajuda a criar este tipo de conexões. É uma pessoa especial para mim.”
Muito muda entre aquilo que se é aos 23 anos e aquilo que se passa a ser aos 31. Bernardo Silva manteve o ar discreto de anti-estrela e, provavelmente, nunca o ouviremos autointitular-se de lenda seja do que for. Outras bocas encarregar-se-ão de o colocar no patamar que merece.