“Itália não tem jogadores de topo porquê?“: o duro diagnóstico do apagão da squadra azzurra (que também envolve o “maluco” Farioli)
Antonio Gagliardi trabalhou na federação italiana durante mais de 10 anos, foi adjunto de Pirlo na Juventus, de Chivu no Parma e é formador de treinadores
Andrea Cantini/Parma Calcio 1913
Parte da estrutura técnica da seleção de Itália durante mais de 10 anos, adjunto de Pirlo na Juventus e Chivu no Parma, formador de treinadores. Antonio Gagliardi, assistente de Mancini na conquista do Euro 2020, esteve na 4ª Conferência Bola Branca, da Renascença, para falar da crise da seleção tetracampeã do mundo que falhará a fase final pela terceira vez seguida. Apontou problemas de identidade, de formação de talentos e de dificuldade de aposta em nomes como o mais recente campeão nacional
Antonio Gagliardi aponta uma contradição no frequentemente confuso e caótico debate em torno do calcio. O homem que entre 2007 e 2021 integrou a estrutura técnica da Federação Italiana de Futebol lembra como “treinadores mais velhos” do país costumam diagnosticar o “problema” como estando na vontade de “copiar o modelo espanhol”, indicando o “regresso à tradição” como o caminho a seguir.
Sem mencionar nomes, não é difícil pensar em Fabio Capello - “estamos a copiar o futebol de Guardiola de há 15 anos, sem que tenhamos qualidade para o fazer”, disse o veterano - como expoente máximo desta tese. Mas eis o reparo feito por Gagliardi: “Poucas equipas em Itália jogam de forma espanhola. Há 16 clubes na Serie A que aplicam um 3-5-2 muito defensivo”, indica o natural de Marostica, no Veneto, a cerca de 100 quilómetros de Veneza.
A tal contradição surge, na visão de Gagliardi, no grande oásis entre as aflições da seleção italiana. No Euro 2020, com Mancini no banco e Antonio na equipa técnica, a nazionale juntou a técnica, qualidade de passe e conforto com bola de Jorginho, Verratti, Barella, Insigne, Locatelli ou Berardi, e foi campeã, glória colocada a meio de três ausências seguidas de fases finais de Mundiais.
“Na única vez que tentámos o que poderia ser qualificado como ‘estilo espanhol‘, vencemos o Europeu. É curioso”, sublinha quem não nega que “é importante defender bem” e recorda as prestações old school, velha guarda, de Chiellini e Bonucci, que juntos somavam 70 anos de vida, nas meias-finais contra a Espanha. Aquela squadra azzurra chegou a estar 37 encontros consecutivos sem perder.
Antonio Gagliardi fez parte da estrutura técnica que, liderada por Mancini, ajudou Itália a vencer o Euro 2020
Alex Morton - UEFA
Antonio Gagliardi foi um dos protagonistas da 4ª Conferência Bola Branca, da Rádio Renascença, por onde passou também Pepijn Lijnders. O transalpino viveu, durante mais de uma década, a realidade da seleção do seu país, tendo também sido adjunto de Andrea Pirlo na Juventus e Cristian Chivu no Parma, antes de o romeno rumar ao Inter para erguer o scudetto. É, também, formador de treinadores.
O Mundial de 2026 está quase a começar e, tal como em 2022 e 2018, não terá a participação de um país que só conta menos títulos planetários que o Brasil. Desde que Fabio Grosso marcou o penálti que firmou o êxito em Berlim contra a França, em 2006, jamais Itália pisou, sequer, a fase a eliminar do torneio. Caiu nos grupos em 2010 e 2014, agora estará, pelo menos, 16 anos ausente, nem se salvando pelo alargamento das vagas - a edição prestes a começar terá 48 seleções.
A queda na Bósnia foi um “momento triste”, classifica Gagliardi, mas, no seu inglês cheio de sotaque, o técnico prefere mirar a floresta e não a árvore: “Se o penálti no play-off tivesse entrado, teríamos ido ao Mundial, mas os problemas seriam os mesmos. Podemos analisar cada eliminação, claro que Ventura [técnico aquando do falhanço para a Rússia], Mancini [que não logrou o bilhete para o Catar] e Gattuso [o líder na recente queda] cometeram equívocos, mas esse não é o ponto principal. E certamente que a causa maior não foi jogar um estilo espanhol.“
Qual é, então? “A grande questão é: Itália não tem jogadores de topo porquê? Não temos grandes jogadores como no passado ou como têm outros países porquê?”. Para Gagliardi, a verdadeira crise reside no talento, ou na sua ausência.
Antonio Gagliardi em Lisboa, durante a Conferência Bola Branca, da Rádio Renascença
De blazer azul escuro por cima da t-shirt branca, combinação extremamente do agrado dos treinadores sub-50, Antonio pede que se olhe aos recentes rankings da Bola de Ouro. Desde que, em 2021, Jorginho ficou em terceiro, não mais um jogador de campo italiano figurou nos 25 primeiros do prémio. O brilhantismo de Gianluigi Donnarumma na baliza é mesmo uma exceção num país que, tirando o referido caso de Jorginho, não apresenta um futebolista que não seja guarda-redes entre os 10 melhores desde Andrea Pirlo, no já distante ano de 2013.
“Nos últimos 15 anos da Bola de Ouro, Espanha tem 61 nomeados. França apresenta 50, Alemanha tem 40”, contabiliza. Seguem-se Portugal, com Ronaldo, Nani, Pepe, Rui Patrício, Bernardo Silva, João Félix, Bruno Fernandes, Rúben Dias, Rafael Leão, João Cancelo, Vitinha, Nuno Mendes e João Neves a darem 35 presenças nacionais entre os finalistas, depois a Inglaterra, a Bélgica e os Países Baíxos. “No fim surge Itália, só com 16. Não temos a mesma qualidade, sobretudo no ataque”, lamenta Gagliardi.
No fatídico desafio na Bósnia, o ataque italiano era composto por Moise Kean, jogador de uma Fiorentina que foi 15ª classificada da Serie A esta temporada, e Mateo Retegui, do Al-Qadisiyah saudita. No banco estavam Giacomo Raspadori, autor de cinco golos em 2025/26 entre Atlético de Madrid e Atalanta, e Francesco Esposito, a grande esperança nacional, mas ainda não um titular absoluto do Inter.
O dedo é apontado às dificuldades na “formação” e na mentalidade que “penaliza os jovens”. “Somos o terceiro país mais populoso da União Europeia, todos os miúdos jogam futebol, é impossível não haver talento.” Um estudo recente mostrou que, entre 50 campeonatos analisados, a Serie A é o oitavo com jogadores mais velhos do continente e o que menos minutos dá a sub-21 nacionais.
Indo além da bola, Gagliardi lamenta também “a excessiva burocracia”, obstáculo quando se pensa em renovar ou criar novas infraestruturas, como estádios que substituam os velinhos recintos do país. “Se falamos da queda do futebol, também temos de falar do declínio do país. Fomos perdendo poderio e dinheiro.”
A “visão clara” de Farioli
Antonio Gagliardi tem 42 anos. É meia dezena de voltas ao sol mais velho que o recente campeão nacional português, que descreve como “um amigo próximo”. E Francesco Farioli é lançado para a conversa como outro síntoma da crise italiana.
“Ele tem imensa qualidade, mas teve de ir para França, para os Países Baixos e para Portugal para mostrar a sua qualidade. Não teve oportunidade em Itália por uma questão de mentalidade”, sublinha o orador.
Pelo terceiro Mundial seguido, Itália não estará presente
O comandante do FC Porto jamais liderou uma equipa em Itália. Debutou como treinador principal no Fatih Karagumruk, depois rumou ao Nice, Ajax e, finalmente, aos dragões.
Antes de se aventurar a solo, Farioli era treinador adjunto de um dos mais brilhantes cérebros que brotaram para lá dos Alpes. Assistente de Roberto De Zerbi no Benevento e Sassuolo, certo dia a opção foi rumar à Turquia e ser adjunto no Alanyaspor.
Sair do barco de um profissional que parecia destinado aos maiores bancos do mundo para fazer as malas rumo à periférica Turquia soava a escolha arriscada. Gagliardi teve dificuldade em compreendê-la: “Quando ele me ligou a dizer que ia para lá ser adjunto, disse-lhe que ele era maluco. Estava com um dos melhores do mundo, o De Zerbi é um mestre.“
O que o interlocutor de Farioli não entendeu à primeira foi a “visão clara” que estava a ser aplicada. “Ele projetou a sua caminhada, a sua jornada. Tem uma visão sobre tudo, é uma das suas melhores qualidades, pensa a metodologia, o estilo de jogo, a carreira. Acho que é, já, um dos melhores treinadores que há”, classificou Gagliardi, para quem Farioli “um dia” irá treinar na Serie A, mas não já, porque “está no local certo”.
Ronaldo, Pirlo e as equipas da Bola de Ouro
Antonio Gagliardi com Andrea Pirlo nos tempos da Juventus
Jonathan Moscrop
Além do tempo com a seleção, Gagliardi esteve com Andrea Pirlo na Juventus, em 2020/21, e Cristian Chivu no Parma, em 2024/25. O tempo em Turim ficou marcado pelo insucesso coletivo, já que a vecchia signora vinha de nove campeonatos seguidos e terminou somente na quarta posição. Na Liga dos Campeões, foi eliminada pelo FC Porto de Sérgio Conceição.
Seria a derradeira campanha de Cristiano Ronaldo em Itália. Antonio lembra o “grande respeito” que o madeirense tinha por Pirlo, devido ao estatuto obtido nos relvados pelo campeão do mundo em 2006.
Naquela época, devido à pandemia da covid-19, a Bola de Ouro não foi atribuída. A France Football, em alternativa, realizou uma espécie de quadro de honra da história do futebol, construindo três equipas de notáveis, uma principal, uma secundária e outra em terceiro plano. Cristiano Ronaldo figurou no primeiro lote de escolhidos, enquanto Pirlo foi incluído no segundo, o qual contava com Buffon, outro integrante daquela Juventus 2020/21, na baliza.
“O Cristiano gozava imenso com o Pirlo por um estar na equipa principal e o outro na secundária”, recorda o então adjunto. É a famosa competitividade de Ronaldo.