A nostalgia pica a todos. José Mourinho está a aproveitar esta fase da carreira para voltar a lugares que já conhece. Matou saudades do Benfica, um clube que orientou 26 anos depois da primeira vez. Agora, reeleito Florentino Pérez, este domingo, na presidência do Real Madrid, vai para os merengues onde esteve entre 2010 e 2013. Depois de um regresso, um outro regresso. Aos 63 anos, continua a somar experiências.
Os dois clubes estavam a jogar à corda com o treinador até que a vontade do próprio resolveu o impasse. O Benfica estendeu-lhe uma rejeitada renovação. Mourinho optou antes pela proposta do Real, que deverá segurar o técnico para as próximas três épocas, ou seja, até junho de 2029.
Quando foi oficializado como sucessor de Bruno Lage nos encarnados, foi fotografado a segurar uma camisola com o número 2027. O detalhe era meramente simbólico. Afinal, no papel, que é o que interessa, ficou definido que qualquer uma das partes poderia prescindir do segundo ano do vínculo nos dez dias úteis seguintes ao término da temporada 2025/26. Se esse prazo fosse cumprido, o Real Madrid só teria que pagar €7 milhões. Uma vez que o limite expirou, o preço de José Mourinho aumentou para €15 milhões.
A demora justifica-se com a realização de eleições no clube espanhol, sufrágio no qual Florentino Pérez foi desafiado por Enrique Riquelme. O contraste entre os candidatos era cabal: o homem dos galáticos, fã de contratações milionárias, quis um regresso ao passado, vendo em José a personalidade ideal para domar um balneário de estrelas; o esperançoso em destroná-lo defendia que Mourinho seria apenas um penso rápido, não uma solução.
A necessidade de resolver com brevidade o futuro fez disparar a produção de notícias sobre o assunto ainda antes do conjunto da Luz suspender a atividade na temporada, situação que sobrepôs a narrativa do treinador face à da própria equipa. O discurso de Mourinho evoluiu de um “quero ficar” e “é tudo especulação” para um “ninguém é parvo, há conversas entre o meu agente e o Real Madrid”. Uma despedida progressiva e calculada de um trabalho sem grandes histórias para contar.
Enquanto foi treinador do Benfica, o Special One não perdeu qualquer jogo para o campeonato. No entanto, mesmo com um ataque (74 golos marcados) com números superiores aos do campeão FC Porto (66), empatou 11 vezes. As contas da I Liga ditaram o terceiro lugar, posição que impede as águias de disputarem a Champions na próxima época quando, a faltarem quatro jogos para o final, não dependiam de ajuda alheia para o conseguirem.
O falhanço é indissociável das decisões de Mourinho. A periclitância foi atenuada em jogos de maior exigência tática, como dérbis, clássicos e Liga dos Campeões. Afinal, o português continua a ser um estratega capaz de estimular a utilidade de jogadores que não sobressaem em qualquer contexto. Nos duelos diretos frente a FC Porto e Sporting, perdeu apenas um encontro para a Taça da Portugal frente aos dragões. Ao mesmo tempo, na Liga dos Campeões, garantiu vitórias frente ao Ajax, Nápoles e Real Madrid que ajudaram a que o Estádio da Luz acolhesse futebol de topo até ao play-off. Na combinação das duas versões do Benfica, a abstinência de troféus faz sobressair a faceta negativa.
Apesar de ser viciado em ganhar, o próprio José Mourinho não levanta uma taça desde 2022, altura em que ganhou a Liga Conferência com a AS Roma. O Real Madrid, órfão de conquistas há dois anos, é sempre um candidato a agitar qualquer palmarés estagnado. O português conhece esta esponja de títulos. Na anterior estadia na capital espanhola, venceu o campeonato (com 100 pontos), a taça e a supertaça.
Ganhar no Real Madrid não será gratuito. O balneário estalou com os recentes conflitos entre jogadores e uma das grandes estrelas, Kylian Mbappé, está desalinhada com os adeptos. A primeira tarefa será desinfetar os bastidores, sendo que em 2013 foi a relação tóxica com o plantel que o fez deixar o clube. Iker Casillas, alvo da ira de Mourinho nesses tempos - membro da candidatura de Enrique Riquelme -, vetou o regresso: “Não o quero no Real Madrid. Há treinadores mais capacitados para treinar o clube da minha vida.”
Os resquícios da celeuma não desapareceram. De qualquer forma, o setubalense goza de respaldo. Não deixa de ser uma aposta pessoal de Florentino Pérez. “Devo ser dos poucos treinadores que saiu do Real Madrid sem ser despedido”, recordou recentemente Mourinho.
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