Em seis anos, nunca houve um momento em que o espaço público estivesse tão desimpedido de declarações de Ruben Amorim. No desemprego desde que deixou o Manchester United, entrou num retiro mediático. Ainda em Portugal, tornou-se mestre da oratória, habilidade que nunca teve que utilizar tanto como em Inglaterra, onde as entrevistas são obrigatórias. Exceto o estritamente necessário, nunca foi de grandes contactos com a imprensa.
Na altura em que ainda quebrava o recato para uma conversa mais profunda e detalhada, fez uma revelação. “Quando era miúdo gostava de ver o Benfica e o AC Milan. Lembro-me de ver cassetes do AC Milan com Maldini, Baresi, Gullit, Rijkaard, Savicevic... Os meus sonhos de miúdo eram jogar no Benfica e no AC Milan. Cumpri um. Agora tenho de ser treinador no outro.” A partilha foi feita numa entrevista à Tribuna Expresso, em 2017, e ganha agora contornos de premonição.
Ruben Amorim é o novo treinador do AC Milan até 2028, sendo o vínculo extensível por mais uma temporada de opção. Para chegar a acordo com o técnico, o clube rossoneri aceitou pagar um salário de €3,5 milhões e chorudos bónus. Caso se sagre campeão italiano, o português vai receber mais €1 milhão e tem garantidos €500.000 se atingir a Liga dos Campeões.
A carreira parece continuar a ser atraída pelo odor a caos. A equipa de San Siro já não ganha nem joga aquilo que deixou Ruben Amorim embasbacado. O AC Milan terminou a época em quinto lugar, atrás do Como, e não vai participar na Liga dos Campeões. Nada mau, tendo em conta o oitavo lugar, em 2024/25, a pior temporada desde que conquistou a Serie A, em 2021/22.
Os sucessivos treinadores que passaram no emblema italiano não têm aquecido o lugar. Desde Stefano Pioli, vencedor do referido campeonato, que a estabilidade não tem prevalecido. O último a sacrificar-se pelo cargo foi Massimiliano Allegri, mas, antes dele, dois portugueses também tentaram a sorte.
O AC Milan nunca tinha tido um treinador vindo do mais pequeno país da Península Ibérica até 2024. Paulo Fonseca foi o pioneiro, mas saiu a meio da época para ser substituído. Sérgio Conceição, que chegou para o render, não conseguiu evitar o descalabro na Serie A. Levou, no entanto, a Supertaça e o segundo lugar na Taça de Itália. Desta vez, os milanistas querem ainda mais.
Ruben Amorim esteve livre de compromissos laborais durante seis meses. O AC Milan não foi o único clube ao qual esteve associado. O Benfica foi perdendo lentamente José Mourinho para o Real Madrid e o processo de substituição iniciou-se na Luz. O ex-Manchester United foi apontado como possibilidade, cenário negado pelos seus representantes. Aparentemente, o treinador “não teve qualquer reunião com clubes portugueses para discutir condições de trabalho, de estrutura, plantel, salariais ou quaisquer outras”. A associação aos encarnados tratou-se de “mera especulação”.
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