Futebol internacional

A vitamina Jürgen Klopp chegou à seleção da Alemanha trazendo o “poder que o futebol tem para mudar um país“

Klopp na sua apresentação como técnico da Alemanha. Assinou até 2030
Klopp na sua apresentação como técnico da Alemanha. Assinou até 2030
Markus Ulmer - GES Sportfoto

O ex-Dortmund e Liverpool é o novo treinador da mannschaft. Com um discurso para levantar o ânimo de um país em crise futebolística, Klopp prometeu uma equipa “a jogar à Alemanha, de forma muito intensa”. E já deixou ideias concretas: linha de quatro a defender, não realizar marcação individual e apostar em extremos

A vitamina Jürgen Klopp chegou à seleção da Alemanha trazendo o “poder que o futebol tem para mudar um país“

Pedro Barata

Jornalista

Há dois anos e meio, Jürgen Klopp precisava de descansar, necessitava uma pausa. Os sete anos de Mainz, seguidos dos sete de Borussia Dortmund, com escassos meses de intervalo até embarcar para quase oito de Liverpool, 23 temporadas como construtor de clubes e criador de esperanças, mais do que mero técnico de futebol, haviam-no deixado vazio.

A paragem fez-lhe bem. Sem surpresa, um dos mais influentes e vencedores técnicos deste século é o novo selecionador do seu país, a Alemanha. Na conferência de imprensa de apresentação, Klopp surgiu de sorriso rasgado, cabelo algo rebelde, face limpa e confiante, dando, em certos momentos, quase ares de um político em campanha, alguém pronto a discursar para que a multidão o seguisse.

E talvez seja isso que faz falta numa potência do futebol em crise. A Alemanha, a orgulhosa Alemanha, quatro vezes campeã do mundo, outras quatro vice, outras quatro vezes terceira, ficou estancada no Maracanã. Desde que, no santuário carioca, triunfou no Mundial 2014, não mais superou, sequer, uma eliminatória do torneio que costumava ter a mannschaft como crónica habitante das rondas finais. Saída na fase de grupos em 2018 e 2022, queda nos penáltis dos 16 avos de final em 2026.

“O facto de Jürgen estar ali sentado já é ligeiramente indicativo do que viemos aqui fazer”, brincava, antes da conferência de imprensa, a bem-disposta assessora da federação alemã. Bernd Neuendorf, líder federativo, foi claro quanto aos últimos acontecimentos, falando de uma “eliminação amarga” nas Américas, completando um “mau Mundial”, que levou a “uma escolha convicta”: “Klopp era quem queríamos, sem dúvidas. Fizemos um grande esforço para o trazer”, confessou o presidente.

Jürgen Klopp ocupava um cargo consultivo no império de futebol da Red Bull. Como gesto de agradecimento por a Reb Bull não ter colocado entraves ao fim do contrato de Klopp, a federação vai doar €1 milhão à fundação da marca de bebidas energéticas e, adicionalmente, realizar três partidas da seleção principal masculina em Leipzig, onde mora a principal equipa da Red Bull.

Klopp com o seu habitual sorriso na apresentação
Markus Ulmer - GES Sportfoto

Confiante e falador, Klopp, dono de 1064 jogos por clubes, assumiu que, “durante muitos anos”, era para si “impensável” orientar uma seleção. Agora, com 59 voltas ao sol, é a “altura certa” para assumir uma missão que o deixa “feliz” e “honrado”.

“É o pináculo da minha carreira. Vou dar tudo o que tenho“, atirou.

Numa primeira mensagem de motivação para o público, o técnico pegou na sua experiência anterior: “Eu vivi como o futebol pode mudar uma cidade. Conheço o poder que o futebol tem para mudar um país. É esse o desafio”, atirou, tocando, ainda, na auto-estima desportiva da seleção.

Se perguntarmos na Alemanha se somos tão bons quanto a França, a resposta é que não, não somos. Mas a pergunta deveria ser: temos jogadores como Dembélé, Mbappé, Doué, Barcola? E não, não temos. Mas, ainda assim, podemos batê-los. Não importa olhar para a França, Espanha ou Argentina. Devemos olhar para nós, para como jogamos futebol. Não somos o número um do mundo, há 11 seleções à nossa frente no ranking, mas temos de conseguir derrotá-los à nossa maneira. Vamos jogar à Alemanha, de forma muita intensa.

Promessas táticas

A equipa técnica contará com Pepijn Lijnders, adjunto de Klopp no Liverpool, e Sven Bender, pupilo do treinador no Borussia Dortmund, prata olímpica no Rio e sete vezes internacional A. Estes, e outros assistentes, auxiliarão Jürgen a concretizar o que diz ser uma suas “maiores qualidades”: “Saber onde não sou tão bom”.

Outro antigo futebolista a entrar para a estrutura é Per Mertesacker, campeão do mundo em 2014 e até há pouco diretor da formação do Arsenal. Será uma espécie de diretor de todas as seleções nacionais, ajudando Klopp a estar atento às equipas jovens, uma prioridade: Vejam o De la Fuente. Trabalha com eles há 20 anos, conhece-os, é uma grande vantagem, frisou Klopp.

Klopp não se ficou pelas ideias vagas ou promessas de união do país. Falou, também, de futebol e de tática, assumindo continuar um devoto da contra-pressão, do seu gegenpressing, do futebol heavy metal.

Promete-se um coletivo de “identidade” e com “um plano claro”, já com garantias. Jogará com defesa de quatro, não com três centrais, notando que “a linha de quatro foi uma das vencedoras do Mundial”, pois assim atuavam os quatro semi-finalistas e os oito quarto-finalistas; não haverá marcação individual, perseguições a todo o campo, “apesar de agora grandes equipas o realizarem”; e a seleção “terá extremos”, pois “é importante dar largura ao campo”.

“Quero que as pessoas saiam do estádio, vão para casa e digam: 'Uau, isto foi porreiro'“, explicou Klopp, quase num regresso à missão de ”transformar descrentes em crentes“ que anunciou na chegada a Liverpool. Para os jogadores, também uma nota de esperança: ”Quem for elegível para a equipa nacional deve dar tudo de si. Eu estarei a ver, prometo. Ninguém é excluído. É um recomeço para todos“, assegurando ainda ”sensibilidade“ a lidar com a gestão física dos futebolistas, não querendo ”forçar“ ou ”levar ao limite" quem não estiver em condições nas janelas internacionais.

Adeus ao boné

Durante o Mundial, Klopp foi comentador de televisão. Enquanto a posição e as opções de Nagelsmann eram questionadas, a presença do mais reputado treinador alemão das últimas décadas na linha lateral, pleno de carisma, foi uma óbvia fonte de pressão para o jovem selecionador.

As coisas pioraram quando, na antevisão a um dos desafios, Klopp disse que Nagelsmann era o dono do banco da mannschaft “de momento”, quase dando prazo de validade ao colega de prossião. O comentário teve repercussões bombásticas e o autor, ainda nos Estados Unidos, pediu desculpa a Nagelsmann.

Na apresentação, Klopp repetiu o gesto. Elogiou Nagelsmann, voltou a apelar ao perdão do seu antecessor, confessando ter sido “um dos piores comentário públicos” que alguma vez proferiu.

Klopp ladeado por Bernd Neuendorf, presidente da federação alemã, e Hans-Joachim Watzke, vice-presidente
Markus Ulmer - GES Sportfoto

O contrato vai até 2030, até ao Mundial que passará por Portugal. Klopp, que volta e meia faz uso do humor, perguntou se teria direito “a um bom lugar de estacionamento” nas instalações da federação. “Então podem contar que ele esteja ocupado durante um bom período de tempo”, brincou.

Numa parte mais séria da manhã, o treinador dirigiu-se diretamente aos jornalistas. A imprensa alemã, nomeadamente a tablóide, é especialmente agressiva e dura, roçando frequentemente o sensacionalismo. Ser o líder da Alemanha ou do Bayern Munique é levar com uma pressão que até para Pep Guardiola foi difícil de suportar.

“Aceito este cargo mesmo vendo como vocês trataram o Julian Nagelsmann. Aceito este cargo mesmo vendo como vocês trataram o Thomas Tuchel. Mas garanto-vos: se forem atrás da minha família, vou-me imediatamente embora”.

De forma mais leve, uma das últimas questões da conferência de imprensa centrou-se na indumentária. Teremos um Klopp de boné e fato de treino, à Klopp? Bem, não, porque ele está “mais velho” e comprou “roupas novas”. Não usará fato e gravata, mas irá para um "business casual".

No fim da apresentação, a assessora virou-se para Klopp e comentou que o técnico já “tinha saudades de conferências de imprensa”. De energias revigoradas, a missão será reerguer um gigante, a tarefa em que o natural de Estugarda é um especialista.

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