“A FIFA não pode usar o futebol para enriquecer os amigos”: Infantino quer vencer (em modo sprint) o Mundial, mas enfrenta forte oposição
Infantino é líder da FIFA desde 2016
Sam Hodde
O presidente da FIFA deu às federações menos de dois meses para se pronunciarem sobre a revolucionária proposta de venda de participações do Mundial a investidores. A ideia gerou críticas das confederações europeia, asiática e da América do Norte, Central e Caríbas, que não foram consultadas, e até o primeiro-ministro britânico e o comissário europeu do desporto se mostraram contra
O terramoto surgiu em modo notícia, inicialmente publicada pelo “Times” e pelo “Financial Times”, e imediatamente confirmada pela FIFA, que se apressou a dar-lhe contornos benévolos. A entidade máxima do futebol mundial, ou Gianni Infantino, cada vez mais um homem que se confunde com a instituição que preside, pretende criar uma empresa subsidiária, com vista a reunir os direitos comerciais do universo FIFA. A operação teria um propósito: vender participações do Mundial, a grande fonte de receitas da FIFA, a investidores, permitindo encaixar cerca de €3,7 mil milhões.
Esta nova subsidiária, chamada FFE (FIFA Forward Enterprise), permaneceria, assegura a FIFA, com o principal organismo do futebol como acionista maioritário. A FIFA ficaria com o controlo exclusivo sobre a governação da modalidade, as competições, os calendários e os regulamentos.
A intenção de Infantino é mover-se em modo sprint. Segundo o “The Guardian”, foi dado até 19 de setembro às 211 federações-membro para se pronunciarem quanto ao negócio, que garantir-lhes-ia um primeiro pagamento de cerca de €20 milhões logo em janeiro de 2027.
Para que a operação se concretize, é necessária a aprovação das federações e do Conselho da FIFA. Garante a entidade sediada em Zurique que, com este negócio, o financiamento para o desenvolvimento de cada federação nacional ascenderá dos atuais €8 milhões para €20 milhões entre 2027 e 2030,€22 milhões entre 2031 e 2034 e €24 milhões entre 2035 e 2038.
Outro sinal da urgência de Infantino foi, também, avançado pelo “Times”. Noticia o jornal britânico que as federações que subscreverem o plano encaixarão, cada uma, €40 milhões, enquanto as que o vetarem apenas levarão, caso o mesmo seja aprovado, cerca de €8,8 milhões. “Isto diz tudo o que precisam de saber sobre este plano“, escreveu a UEFA num curto comunicado lançado esta quarta-feira, depois de uma primeira reação de repúdio na terça-feira.
UEFA, Downing Street, Bruxelas...
As reações não se fizeram esperar. As diferentes confederações mostraram-se críticas, sobretudo, com a ausência de consulta quanto ao processo.
A CONCACAF, da América do Norte, Central e Caraíbas, expressou-se “profundamente preocupada” pela falta de informação. O líder da CONCACAF, Victor Montagliani, é um dos oito vice-presidentes da FIFA, tal como Debbie Hewit, presidente da federação inglesa (FA), outra dirigente que desonhecia esta operação.
“Não sabemos nada quanto a esta proposta e não possuimos detalhes. Baseando-nos na limitada informação de que dispomos, estamos profundamente preocupados quanto aos procedimentos que levaram a este ponto, e a aparente substância da proposta”, lê-se num comunicado da FA.
Gianni Infantino e Donald Trump foram protagonistas no Mundial, mais do que a grande maioria dos futebolistas
Richard Sellers/Allstar
Também do Reino Unido veio um dos comentários mais veementes. Andy Burnham, novo primeiro-ministro, escreveu que “o futebol não pertence aos investidores”, mas sim ”às pessoas“. ”O Mundial não é um produto. É a maior competição desportiva do planeta, e não é de ninguém para ser vendida. Vendam o negócio como queiram. Uma vez que vendeste parte do Mundial, vendeste-o", opinou Burnham.
Bruxelas também se pronunciou. Glenn Micallef, comissário europeu para a justiça inter-geracional, cultura, juventude e desporto, entende que “basta” de “comercialização implacável” do futebol“, a qual se tornou ”corrossiva“ e ”ameaça o que fez do futebol a modalidade mais popular". As instâncias do futebol vão reunir-se já esta quarta-feira, de urgência, para analisar o plano da FIFA, anunciou a ministra dos desportos de França, Marina Ferrari.
A UEFA foi das primeiras a virar costas ao projeto, em linha com a guerra mais ou menos intensa que mantém com a FIFA. A confederação asiática não foi tão contundente, pondo mais o foco em ter ficado excluída do processo de construção do negócio.
A galinha dos ovos de ouro
O Mundial é o grande motor financeiro da FIFA. Rússia 2018 trouxe lucros de cerca de €5,6 mil milhões, valor que subiu para €6,59 mil milhões no Catar 2022.
O Mundial 2026 quebrou todos os recordes. Segundo o “Guardian”, foram gerados lucros de €13 mil milhões.
São estes valores que financiam as federações-membro, muitas delas sem capacidade para gerar receitas consideráveis. Gianni Infantino deverá ser eleito, em 2027, para mais um mandato como presidente, indo até 2031.
De acordo com o “Times”, o líder da FIFA pretenderia ficar à frente desta nova empresa, logo após terminar o seu último mandato. Num negócio que tem a JP Morgan como parceira, um dos potenciais investidores seria a Thrive Eternal, de Joshua Kushner, irmão do genro de Donald Trump. A mesma fonte indica que a administração norte-americana foi consultada sobre este plano. “A FIFA não pode continuar a usar o nosso desporto para enriquecer, a si e aos seus amigos. Nós podemos fazer o desporto crescer de forma correta“, escreveu a UEFA esta quarta-feira.