Foram necessárias 25 páginas para a FIFA compilar todos os argumentos. Ao longo do papiro entregue aos 211 membros, o organismo procurou convencê-los do quão conveniente é a venda dos direitos comerciais do Mundial a terceiros através da criação da subsidiária Fifa Forward Enterprise que permitiria uma receita de €3,7 mil milhões.
O “The Guardian”, que consultou o documento, verificou que as promessas contemplam o “financiamento de terceiros”, o desejo de “otimizar a monetização dos direitos de transmissão”, parcerias de “alto retorno” e um “aumento do portfólio de torneios” de 200 para 450 por ano. Ao longo do rol de explicações, surgiu apenas uma referência ao futebol praticado por mulheres.
Curiosamente, a 5 de setembro, arranca desde já o Mundial sub-20 feminino, na Polónia. O torneio será um marco importante, pois começará a ser disputado antes da data limite (19 de setembro) que Gianni Infantino estabeleceu para as federações se pronunciarem sobre o projeto, curto prazo amplamente criticado.
Uma vasta maioria tomou, antecipadamente e em bloco, uma posição sobre o tema. A CONCACAF, que representa os países da América do Norte, América Central e Caraíbas, demonstrou “profunda preocupação” e apela a que o “futuro do futebol fique na família do futebol”. A AFC, a confederação asiática, mostrou “desapontamento” e acusou as “ações unilaterais” da FIFA de “minarem os fundamentos do futebol”. Juntando a UEFA, 143 de 211 membros revelaram-se contra a mudança.
A Europa tomou a posição mais firme, anunciando que “nenhuma equipa nacional vai participar em competições da FIFA enquanto estas propostas resistirem”. A concretizar-se, o boicote poderia ter efeitos visíveis já no Mundial sub-20 feminino. A competição contempla seis equipas da UEFA - Polónia, França, Inglaterra, Espanha, Itália e Portugal - e, nas atuais circunstâncias, nenhuma delas compareceria. Ou seja, a prova iria sofrer um forte desbaste.
De acordo com os regulamentos da competição, as desistências levam a multas de pelo menos €16.122 ou, se comunicadas a menos de 30 dias do primeiro jogo, a partir de €21.496. Está ainda previsto que a FIFA “adote as medidas que considerar necessárias” e possa substituir as seleções que optem por não participar. Supostamente, Portugal estreia-se no dia 7 de setembro contra a Coreia do Norte.
A Tribuna Expresso questionou a Federação Portuguesa de Futebol sobre o que planeia fazer perante esta situação, mas não obteve resposta até ao fecho desta peça. Além da equipa sub-20, em outubro, a seleção principal feminina também tem agendado o play-off de apuramento para o Mundial do próximo ano, no Brasil, competição que se inclui nos torneios onde os países da UEFA pretendem estar ausentes. Portugal vai defrontar a Irlanda no Norte e, se seguir em frente, mede forças com Croácia ou Islândia, em novembro.
Assoberbada em críticas, a FIFA defendeu que “ninguém está a vender o futebol” e que as “notícias incorretas” estão a influenciar o processo. Infantino voltou a acenar com €34,8 milhões para cada federação distribuídos entre 2027 e 2030.
O método para conseguir a verba não está a reunir muitos apoiantes. “Nenhuma entidade pode representar 211 membros”, demarcou-se a FIFA que garante o cumprimento dos “princípios democráticos”. “Sem o apoio da maioridade da federações, as atividades comerciais permanecerão inalteradas e a Fifa Forward Enterprise não será estabelecida."
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