Futebol internacional

Morreu Franco Baresi, lenda do AC MIlan e seleção de Itália, que Maradona considerava o melhor defesa que tinha enfrentado

Baresi morreu aos 66 anos
Baresi morreu aos 66 anos
Etsuo Hara

Foi um dos defesas mais elegantes da história, vencedor de 21 títulos pelo AC Milan, clube que representou ao longo de toda uma vida e que capitaneou durante 17 temporadas. Franco Baresi morreu aos 66 anos, de causas ainda desconhecidas

Sabendo-se do desprezo que Diogo Maradona tinha pela Itália do norte, elitista, rica, um contraste completo com a Nápoles onde era rei, a imagem não podia ser mais estranha: El Pibe a caminhar pelo túnel do Sao Paolo, com uma camisola do AC Milan vestida, número 6 nas costas, de Franco Baresi.

Tudo aconteceu depois de um daqueles encarniçados confrontos entre a equipa do sul e os rossoneri, em 1989, esses tempos em que o pequeno genial argentino igualou a Serie A entre os poderosos instalados na Itália industrial e o Nápoles, que com ele venceu dois campeonatos e uma taça.

Diego podia não respeitar clubes, mas respeitava um bom jogador. E Franco Baresi, disse então, com a sua camisola vestida nas entranhas do estádio do Nápoles, era “o máximo como defesa”.

“Esta é a camisola de um grande jogador, uma recordação que vou guardar para toda a vida”, disse rapidamente a quem o abordou perante são insólita imagem.

Franco Baresi, um dos mais elegantes defesas de que há memória, partiu esta sexta-feira, com 66 anos, anunciou o AC Milan, clube onde jogou toda a vida e que ajudou a ganhar 21 títulos. As causas da morte não foram reveladas.

“O AC Milan está em lágrimas com a morte de Franco Baresi. O seu exemplo e integridade estarão para sempre no ADN do clube, tal como a sua icónica camisola 6 está”, escreveu o clube nas redes sociais.

Etsuo Hara

No site oficial, o clube deixou uma mensagem para o futuro, depois da morte de um dos seus ícones de sempre: “Em memória do Franco, permanecemos unidos, sabendo que ele nos guiará e impulsionará ao longo de toda a nossa jornada rossonera. Para sempre. Porque Baresi é eterno”.

Franco Baresi nasceu em Travagliato, uma pequena cidade no norte de Itália, a 8 de maio de 1960, e cresceu numa quinta nos arredores da localidade da província de Brescia, onde viu um jogo de futebol pela primeira vez na televisão já com 10 anos. Perdeu os dois pais ainda adolescente e pouco depois, na companhia do irmão Giuseppe, decidiu partir para Milão, em busca de uma oportunidade no futebol.

Tentaram ambos o Inter Milão, que ficou com Giuseppe, dois anos mais velho. Franco foi considerado demasiado baixo e magro. Rejeitado pelo Inter, bateu à porta do AC Milan, onde jogaria durante 20 temporadas. “Aos 18 anos, já tinha o conhecimento de um veterano”, diria mais tarde Nils Liedholm, o treinador sueco que apostou pela primeira vez naquele defesa central que nem aos 1,80m chegava, compensando a baixa estatura com visão e técnica, a capacidade de ler o adversário e o jogo - a clareza como desarmava adversários em carrinho será, para sempre, lendária.

Franco Baresi será também sinónimo de lealdade. Quando o AC Milan foi despromovido em 1980, na sequência do escândalo de apostas Totonero, Baresi ficou. Quando o clube voltou a descer em 1981/82, Baresi continuou a ser o capitão. Pouco tempo depois, Silvio Berlusconi chegou ao clube para lhe mudar a face. Com Arrigo Sacchi, a equipa tornou-se monstruosa a defender, com Costacurta, Maldini e Baresi, e uma maravilha a atacar, com o trio de holandeses: Rijkaard, Gullit e Van Basten.

Marc Francotte

Quando pendurou as botas, em 1997, levava 15 anos como capitão do AC Milan e 719 jogos pelo clube. Ganhou seis ligas italianas e três Ligas dos Campeões, uma delas, em 1989/90, frente ao Benfica.

“O Baresi, que era líbero, o Donadoni, que jogava muito… mas não eram só os jogadores, era a forma como a equipa era treinada. Os princípios da zona estavam todos ali, era uma equipa curtíssima, compacta, que atacava e defendia sempre muito junta entre os setores e isso era fruto da ideia e da concepção que o Sacchi tinha”, explicou à Tribuna Expresso em 2020 Toni, que era treinador-adjunto de Eriksson nessa final. Baresi venceu ainda duas Taças Intercontinentais e três Supertaças Europeias pelo AC Milan.

Com a seleção de Itália, foi campeão mundial em 1982, ainda muito jovem e sem qualquer minuto jogado. Em 1994, o regresso à final, agora como capitão, foi um momento quase milagroso que terminou em desilusão: lesionou-se na fase de grupos, foi operado, e conseguiu regressar a tempo de ser titular no encontro decisivo. Conseguiu secar Bebeto e Romário, mas foi um dos jogadores italianos a falhar nos penáltis, entregando o título ao Brasil.

Em 1999, dois anos depois de se retirar, foi votado o Jogador do Século do AC Milan. Nessa altura já ninguém se lembrava que, nos primeiros anos de camisola rossonera, era tratado por “Piscinin”, o “pequeno”. Graças ao seu jogo poderoso e grande capacidade defensiva, a alcunha passou a ser outra: “Kaiser Franz”, uma comparação com Franz Beckenbauer.

Chegou a ter uma carreira curta como treinador nas camadas jovens do AC Milan, onde servia como vice-presidente honorário. A sua última aparição pública aconteceu nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão/Cortina, no início do ano.

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