A liderança da FIFA sustenta-se em múltiplas cartas. Quando se mexe numa, muito provavelmente, as outras também serão afetadas. Gianni Infantino, que se senta no topo no castelo de naipes, está a sentir o tremelicar da base em função das recentes decisões tomadas enquanto presidente do organismo.
A estrutura que sustenta o todo-poderoso do futebol ficou comprometida com a proposta de venda dos direitos comerciais do Mundial através da FIFA Forward Enterprise. As críticas ao projeto multiplicaram-se e a UEFA foi a instituição com uma resposta mais veemente. Perante o projeto, todos os países europeus concordaram em boicotar as competições organizadas pela FIFA se Infantino levasse adiante a ideia.
A FIFA abandonou a pasta, mas a intenção demonstrada marcou as federações que se rebelaram. Assim sendo, o seu principal promotor, Gianni Infantino, perdeu suporte rumo à eleição para o quarto mandato à frente da sala de comandos do futebol.
A federação da Finlândia foi a primeira a retirar o apoio a Infantino após o movimento do suíço, que muitos consideraram uma tentativa de colocar o futebol à venda. Seguiu-se a federação do País de Gales e, para confirmar o desmoronar do castelo de cartas, a poderosa Inglaterra também se juntou ao protesto. A federação mais antiga do mundo não emitiu qualquer comunicado a justificar a decisão, mas já se tinha manifestado a favor de uma “completa e robusta revisão da liderança da FIFA” de modo a garantir que o futebol é “dirigido de maneira transparente”.
O FIFA Forward Enterprise foi o verdadeiro tropeção de Infantino. Até aí, as situações anómalas verificadas ao longo do Mundial 2026 não afetaram a reputação do dirigente. Apesar de ter deixado Donald Trump intrometer-se na sanção disciplinar aplicada a Folarin Balogun, de não ter assegurado condições para o árbitro somali Omar Artan entrar nos Estados Unidos ou de não ter garantido condições de igualdade competitiva para a seleção do Irão, o presidente da FIFA saiu destes casos sem danos reputacionais relevantes.
Após o Mundial, Gianni Infantino reunia o apoio de mais de 200 membros dos 211 que compõem a organização. Alemanha, Noruega e Roménia eram os únicos países europeus que não tinham manifestado apoio à reeleição. Nos próximos tempos, terão mais companhia. O vislumbre da queda de Infantino espoletou o raciocínio em torno de candidatos com potencial para lhe sucederem na eleição que se realiza no congresso da FIFA, em março.
Enquanto portador do megafone na manifestação, Aleksander Ceferin poderia levar ao limite a oposição a Infantino. Victor Montagliani, canadiano que lidera a CONCACAF, também pode estar de olho na promoção, desejando assumir o cargo transcontinental após ter sido um dos principais responsáveis para o Mundial 2026 se ter disputado nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Da confederação asiática, poderia urgir Salman bin Ibrahim Al Khalifa, que em 2016 foi o principal adversário de Infantino, tendo conseguido o apoio de 88 membros contra 115 do oponente. Embora empurrado para o lote de candidatos, múltiplas fontes indicam que Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain e da Associação de Clubes Europeus, não está interessado na posição.
A 18 de novembro, limite para a apresentação das candidaturas, os contornos da corrida estarão mais bem definidos. Com os países africanos e da América do Sul comprometidos com a causa de Infantino, é na Europa, na Ásia e na América do Norte que existe terreno fértil para a mudança.
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