Futebol internacional

Para dormir bem à noite, Kevin Lamour criticou o plano de Infantino para vender o Mundial. Tal como esperava, ficou sem emprego na FIFA

A estrutura da FIFA soma nova baixa à anterior saída de Carlos Cordeiro
A estrutura da FIFA soma nova baixa à anterior saída de Carlos Cordeiro
Joosep Martinson - UEFA

Kevin Lamour esteve em funções até 17 de agosto, altura em que deixou o cargo de diretor de operações. Funcionário da FIFA há dois anos, acusou o plano que ia deixar os direitos comerciais do Mundial em mãos alheias de ser “o projeto de uma só pessoa”. Na despedida, agradeceu a uma longa lista de pessoas: nenhuma delas Gianni Infantino

Um memorando entrou pela portinhola das caixas de correio eletrónico dos trabalhadores da FIFA. O remetente era Mattias Grafström, o secretário-geral. Dirigindo-se aos trabalhadores da organização, o apêndice de Gianni Infantino comunicou uma baixa. Kevin Lamour, até então diretor de operações, acabava de deixar o cargo.

O anúncio foi feito através de um eufemismo. Na circular, Grafström foi comedido ao dizer que as duas partes “acordaram separar-se”. Os motivos para o sucedido foram amputados. Provavelmente, os funcionários leram as notícias e sabiam que Lamour falou demais para o gosto do líder soberano.

Quando se soube, através do jornal inglês The Times, da ideia de Infantino para vender uma parcela do Mundial a investidores privados, estalaram fendas na rede de apoio internacional. Por dentro, a estrutura também corroeu. Kevin Lamour criticou abertamente “o projeto de uma só pessoa” que o presidente procurou implementar, defendendo que “não só não deve prosseguir, como chegou a hora de os líderes políticos do futebol se questionarem e tomarem as decisões certas”.

Na perspetiva de quem quer manter o emprego, o funcionário com poderes executivos terá levado longe demais os reparos. Caso a ambição fosse ficar de consciência tranquila, então o desabafo cumpriu o efeito pretendido. “Se isto significar que vou perder o meu emprego, que assim seja”, disse à Associated Press. “Compreenderei e respeitarei essa decisão. Pelo menos, dormirei bem esta noite.”

“A vida não é fazer o que é fácil, mas o que é certo”

Em 2024, o agora recambiado dirigente chegou à FIFA. No entanto, as ligações a Infantino eram anteriores. Ambos trabalharam em simultâneo na UEFA, instituição em que Lamour foi secretário-geral adjunto. Aos antigos colegas que ficam a operar a sala de controlos do futebol mundial, que considera terem sido “enganados”, o rebelde desejou algo “melhor do que desprezo e intimidação”.

Já sem nada a perder, Lamour usou os últimos momentos de acesso ao e-mail profissional para desenrolar um papiro de agradecimentos em que mencionava 16 pessoas, nenhuma delas Infantino. Frisou que a “FIFA atravessa um período difícil” e que “a vida não é fazer o que é fácil, mas o que é certo”.

O ex-diretor de operações não é a primeira pessoa a deixar o organismo após a criação da FIFA Forward Enterprise ter entrado nas cogitações. Uma vez que Infantino não lhe deu ouvidos, o consultor Carlos Cordeiro saiu pela mesma porta, considerando que estava em andamento um “mau plano para o futebol” ao qual não queria estar associado. “Oponho-me inequivocamente.

A ideia de passar o Mundial para mãos alheias foi abortado. Para Infantino, após um período a medir o impacto da proposta, “tornou-se claro que o projeto gerou divisões” que “não servem o objetivo que esteve na sua origem”.

A UEFA, a AFC e CONCACAF, confederações da Europa, Ásia e América Central, do Norte e Caraíbas, respetivamente, não aliviaram a posição. “A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de ostentar - ou exigir - poder para o exercer. É um dever de serviço à família do futebol que lho confia. Quando a confiança é quebrada através do engano, quando uma pessoa se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado”, apontaram num comunicado conjunto.

O império de apoio a Infantino é cada vez mais diminuto. O último membro a retirar o apoio ao dirigente foi a Escócia. Finlândia, Inglaterra, Países Baixos, País de Gales, Irlanda, Sérvia e Suécia também já o tinham feito.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: fsmartins@expresso.impresa.pt