No panteão da lábia do futebol português, longe do lugar onde está o cerne da praxis de um treinador, constam uns quantos momentos icónicos. José Mourinho emoldurou vários deles, parte da sua lenda é essa: aquela conferência de imprensa nos seus primórdios no FC Porto onde “em condições normais“ e “anormais“ prometeu que seriam campeões; a sua apresentação em inglês no Chelsea como ”special one”; e aquele seu destilar de críticas do ”zero tituli” no Inter, a desdobrar-se no italiano. Também ficou a de Fernando Santos, em Paris, quando disse que tinham sido “suaves como as pombas e prudentes como as serpentes”.
Sem o mesmo caráter mítico a que se elevaram os exemplos anteriores, a “desculpem a minha arrogância, mas eu sou o melhor treinador da história recente do Lyon” de Paulo Fonseca pode atrever-se, queira o tempo dar-lhe razão, a figurar no mesmo mural.
Chegado a França a meio de 2024/25, com passado a versar-se em inglês na Ucrânia, em italiano na AS Roma e no AC Milan e já com experiência na língua de Voltaire colhida da passagem pelo Lille, o treinador português arrancou agora a segunda temporada no Lyon. Fê-lo logo com uma desilusão: a equipa perdeu a eliminatória contra o Fenerbahçe e viu-se sem a qualificação para a Champions, sendo empurrada para a Liga Europa. O primeiro laivo de inusitado surgiu nessa noite, dentro da sala de imprensa do Parc Olympique Lyonnais.
Ao ser questionado quanto às substituições que fez contra a equipa turca, o treinador ripostou com ironia: “É sempre a mesma pergunta, mas estou habituado. O que posso dizer? No final do jogo é muito fácil falar de substituições, é sempre o mesmo. A razão pode ser que sou um treinador de merda, é a explicação.” Escrito e lido em português, as sensações da intervenção perdem-se na tradução apesar das cócegas feitas à linguagem grosseira. Nestas coisas o melhor é ver e ouvir o original.
Deixada essa frase a meio da semana, Paulo Fonseca voltou a sentar-se diante da imprensa na sexta-feira para falar do próximo encontro da liga francesa. Pressentindo outra descarga de perguntas sobre o seu mandato no banco do clube que já conquistou o campeonato por sete vezes - consecutivas, um feito raro -, levou uma cábula para o auxiliar.
Com os cotovelos pousados sobre a mesa, o treinador português de 53 anos quis falar “sobre números” - porque “se queremos falar de números, vamos falar da realidade”. Assim principiou o seu exercício de rebobinar o passado recente da equipa à boleia de umas poucas estatísticas para colocar o seu desempenho no Lyon em perspetiva. “A última vez que a equipa ficou em 4º lugar foi em 2020/21; em 2023/24 a equipa ficou em 6º com 53 pontos e, nessa época, houve um investimento de €83 milhões“, introduziu, dando logo a ideia de onde pretendia chegar.
“Na temporada em que cheguei, 2024/25 [entrou no Lyon em janeiro], a equipa acabou em 6º com 57 pontos; fizemos uma média de pontos de 1,8 por jogo, mas antes de eu chegar, nessa época, o Lyon tinha feito 1,58 pontos; se nessa primeira fase a equipa tivesse feito a mesma média que nós teríamos acabado na 3ª posição. Nessa época o clube fez um investimento de €147 milhões“, prosseguiu Paulo Fonseca, em tom professoral, com o seu francês vagaroso. De novo, nada como ver para crer.
Conduzindo o raciocínio até à última temporada, a sua primeira completa no Lyon, o português lembrou a escalada rumo ao 4º lugar final que garantiu o acesso às eliminatórias da Champions. “Fizemos 60 pontos e o clube investiu €50 milhões”, resumiu, para apelar aos jornalistas que vissem “a diferença para com os anos anteriores”, acrescentando um ponto: “Fizemos €112 milhões em vendas.“ E mais outro: “Até ao momento, esta época o clube investiu €29 milhões.“ Estes “são os números”, finalizou Paulo Fonseca, mas ainda faltava a conclusão.
Porque a intervenção do técnico, ao levantar uma das mãos para a encostar ao peito, seria embrulhada com uma declaração que quis vender como vinda do coração: “Desculpem a minha arrogância, mas sou o melhor treinador da história recente do Lyon.” Quem o diz? Ele, claro, mas “são os números” que o levaram a acentuar ser quem teve “os melhores resultados com o menor investimento e toda a gente reconhece a qualidade de jogo”.
E assim quis o treinador dar mais uma conferência de imprensa para mais tarde recordar no futebol português. Da sua parte, talvez já fosse de expectar: em 2017, após colocar o Shakhtar Donetsk nos oitavos de final da Liga dos Campeões, apareceu mascarado de Zorro perante os jornalistas. Tinha prometido que o faria. Com Paulo Fonseca podem-se esperar momentos destes quando há câmaras a filmar e microfones a gravar.
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