Paulo Fonseca sentado na sala de imprensa, onde tem dado nas vistas como treinador do Lyon
Paulo Fonseca sentado na sala de imprensa, onde tem dado nas vistas como treinador do Lyon
Anadolu

Futebol internacional

Depois de se dizer “um treinador de merda”, Paulo Fonseca emendou, sempre em francês: “Sou o melhor treinador da história recente do Lyon”

Após ser derrotado pelo Fenerbahçe no play-off da Liga dos Campeões, o treinador português teve duas conferências de imprensa em que usou da ironia para responder às perguntas dos jornalistas. Numa delas menorizou-se enquanto treinador, mas na que veio a seguir até levou uma cábula para destacar o que tem feito ao serviço do Lyon

Depois de se dizer “um treinador de merda”, Paulo Fonseca emendou, sempre em francês: “Sou o melhor treinador da história recente do Lyon”

Diogo Pombo

Editor de Desporto

No panteão da lábia do futebol português, longe do lugar onde está o cerne da praxis de um treinador, constam uns quantos momentos icónicos. José Mourinho emoldurou vários deles, parte da sua lenda é essa: aquela conferência de imprensa nos seus primórdios no FC Porto onde “em condições normais“ e “anormais“ prometeu que seriam campeões; a sua apresentação em inglês no Chelsea como ”special one”; e aquele seu destilar de críticas do ”zero tituli” no Inter, a desdobrar-se no italiano. Também ficou a de Fernando Santos, em Paris, quando disse que tinham sido “suaves como as pombas e prudentes como as serpentes”.

Sem o mesmo caráter mítico a que se elevaram os exemplos anteriores, a “desculpem a minha arrogância, mas eu sou o melhor treinador da história recente do Lyon” de Paulo Fonseca pode atrever-se, queira o tempo dar-lhe razão, a figurar no mesmo mural.

Chegado a França a meio de 2024/25, com passado a versar-se em inglês na Ucrânia, em italiano na AS Roma e no AC Milan e já com experiência na língua de Voltaire colhida da passagem pelo Lille, o treinador português arrancou agora a segunda temporada no Lyon. Fê-lo logo com uma desilusão: a equipa perdeu a eliminatória contra o Fenerbahçe e viu-se sem a qualificação para a Champions, sendo empurrada para a Liga Europa. O primeiro laivo de inusitado surgiu nessa noite, dentro da sala de imprensa do Parc Olympique Lyonnais.

Ao ser questionado quanto às substituições que fez contra a equipa turca, o treinador ripostou com ironia: “É sempre a mesma pergunta, mas estou habituado. O que posso dizer? No final do jogo é muito fácil falar de substituições, é sempre o mesmo. A razão pode ser que sou um treinador de merda, é a explicação.” Escrito e lido em português, as sensações da intervenção perdem-se na tradução apesar das cócegas feitas à linguagem grosseira. Nestas coisas o melhor é ver e ouvir o original.

Deixada essa frase a meio da semana, Paulo Fonseca voltou a sentar-se diante da imprensa na sexta-feira para falar do próximo encontro da liga francesa. Pressentindo outra descarga de perguntas sobre o seu mandato no banco do clube que já conquistou o campeonato por sete vezes - consecutivas, um feito raro -, levou uma cábula para o auxiliar.

Com os cotovelos pousados sobre a mesa, o treinador português de 53 anos quis falar “sobre números” - porque “se queremos falar de números, vamos falar da realidade”. Assim principiou o seu exercício de rebobinar o passado recente da equipa à boleia de umas poucas estatísticas para colocar o seu desempenho no Lyon em perspetiva. A última vez que a equipa ficou em 4º lugar foi em 2020/21; em 2023/24 a equipa ficou em 6º com 53 pontos e, nessa época, houve um investimento de €83 milhões, introduziu, dando logo a ideia de onde pretendia chegar.

Na temporada em que cheguei, 2024/25 [entrou no Lyon em janeiro], a equipa acabou em 6º com 57 pontos; fizemos uma média de pontos de 1,8 por jogo, mas antes de eu chegar, nessa época, o Lyon tinha feito 1,58 pontos; se nessa primeira fase a equipa tivesse feito a mesma média que nós teríamos acabado na 3ª posição. Nessa época o clube fez um investimento de €147 milhões, prosseguiu Paulo Fonseca, em tom professoral, com o seu francês vagaroso. De novo, nada como ver para crer.

Conduzindo o raciocínio até à última temporada, a sua primeira completa no Lyon, o português lembrou a escalada rumo ao 4º lugar final que garantiu o acesso às eliminatórias da Champions. “Fizemos 60 pontos e o clube investiu €50 milhões”, resumiu, para apelar aos jornalistas que vissem “a diferença para com os anos anteriores”, acrescentando um ponto: Fizemos €112 milhões em vendas. E mais outro: Até ao momento, esta época o clube investiu €29 milhões.“ Estes “são os números”, finalizou Paulo Fonseca, mas ainda faltava a conclusão.

Porque a intervenção do técnico, ao levantar uma das mãos para a encostar ao peito, seria embrulhada com uma declaração que quis vender como vinda do coração: “Desculpem a minha arrogância, mas sou o melhor treinador da história recente do Lyon.” Quem o diz? Ele, claro, mas “são os números” que o levaram a acentuar ser quem teve “os melhores resultados com o menor investimento e toda a gente reconhece a qualidade de jogo”.

E assim quis o treinador dar mais uma conferência de imprensa para mais tarde recordar no futebol português. Da sua parte, talvez já fosse de expectar: em 2017, após colocar o Shakhtar Donetsk nos oitavos de final da Liga dos Campeões, apareceu mascarado de Zorro perante os jornalistas. Tinha prometido que o faria. Com Paulo Fonseca podem-se esperar momentos destes quando há câmaras a filmar e microfones a gravar.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: dpombo@expresso.impresa.pt

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