A inteligência de Kai Havertz, o amante de burros, brilha no Arsenal-Chelsea
O remate de Ødegaard para o 2-1
John Walton - PA Images
Com um golo e uma assistência sem tocar na bola do alemão, os campeões bateram (2-1) os vizinhos de Londres. Num dérbi com dois amigos nos bancos, Raya foi, novamente, decisivo para os gunners
Kai Havertz recebeu o seu primeiro burro — sim, literalmente um burro, o animal, mamífero, quatro patas — quando tinha 18 anos. Há qualquer coisa nos burros que fascina o jogador, ao ponto de ser dono de quatro, tendo-os em casa, na Alemanha. Sente muitas saudades deles enquanto está em Inglaterra, garante Kai.
Havertz adora burros, mas não é burro, no sentido de desprovido de inteligência. É um atacante que olha em redor enquanto joga, que percebe o espaço, não um arma de destruição em massa, mais um subtil recurso para quebrar barreiras tanto pelo poder do físico como pela força da mente.
Tudo isto ficou evidente quando, no arranque do segundo tempo do Arsenal-Chelsea, Havertz assistiu Ødegaard sem o assistir, compreendeu a situação, não tocou na bola, abriu o panorama para o colega. Kai já apontara o 1-1, ficando como elemento fundamental de uma difícil vitória (2-1) dos campeões da Premier League contra os vizinhos da capital.
O dérbi era, nos bancos, coisa de velhos amigos. Mikel Arteta e Xabi Alonso são os dois bascos, como tantos e tantos treinadores de elite. Jogaram no mesmo clube de formação, o Antiguoko, brincaram nas praias de San Sebastián, fizeram carreira de botas calçadas no futebol inglês.
Na linha lateral do Emirates, chegaram a parecer quase cópias. Penteados semelhantes, indumentaria parecida, polos negros em destaque, presença quase copiada um do outro, aquele ar energético e intenso dos técnicos que representam a vanguarda da bola internacional.
O reencontro entre Arteta e Alonso, amigos de longa data
David Price
Cedo conseguiram os visitantes marcar. Aos 2', Morgan Rogers, especialista do remate fora da área, aproveitou uma bola solta na sequência de um livre para atirar rasteiro, surpreendendo Raya.
Haveria algo de repetido no 1-1, vindo 23 minutos depois. Também um disparo de fora da área, rasteiro, ao poste mais perto do guardião. Emiliano Martínez, tal como o seu colega de posição espanhol, não foi capaz de defender, acabando batido por Kai Havertz, o amigo dos asnos.
A estrutura de três centrais de Xabi Alonso confia no entendimento de Palmer, João Pedro e Rogers na frente. Partindo da direita, atuando sempre como um menino com a mochila às costas a correr por estar atrasado para o teste de matemática, atua Pedro Neto. O português atirou ao poste no final do primeiro tempo num lance que o define: atacar o espaço, conduzir, rematar. Quenda não saiu do banco.
Aos 37 anos, Aubameyang tem sido um dos grandes destaques do início de época internacional
O Arsenal é, ao contrário do Chelsea, um projeto em fase terminada, uma obra completa. Gere os tempo, conhece-se e conhece os outros. Depois do descanso, os gunners decidiram que era o momento de acelerar, de cercar a área em bolas paradas, de trazer o público para a partida. O Emirates, outrora um estádio frio e desconfortável para a própria equipa local, é hoje um palco que empurra os campeões.
Nessa fase chegou o 2-1. Kai Havertz fez valer a sua inteligência, a velocidade mental, ele não é um burro, e deixou o passe de Tzolis, que ficará com os créditos da assistências graças à classe do alemão, para Ødegaard. O norueguês bateu Martínez.
Os blues ainda ameaçaram o 3-1, mas Martínez defendeu. Na parte final, Gyökeres entrou para ser a antítese de Havertz, todo ele físico e velocidade e potência, não tanta subtileza.
Já com o apito final como vizinho, o Arsenal, claro favorito à revalidação do título, apresentou mais um trunfo. Estêvão foi da direita para o centro, rematou de pé esquerdo, 2-2 à vista. Raya, tantas vezes decisivou, voltou a ser fundamental, voando para dar os três pontos ao amigo basco que está há mais tempo no banco de um emblema londrino.