Futebol internacional

Ruben Amorim e os seus dois amores: o “jogo especial” e “símbolo do futebol europeu” que será o encontro entre AC Milan e Benfica

Depois da passagem pelo Man. United, Amorim assinou em 2026 pelo AC Milan
Depois da passagem pelo Man. United, Amorim assinou em 2026 pelo AC Milan
Mattia Ozbot
Em 2017, Ruben Amorim afirmou que, em miúdo, os seus sonhos passavam por jogar no Benfica e no Milan. Já tinha entao cumprido a primeira parte. Para cumprir a segunda, só como treinador. Foi um desabafo premonitório e na estreia na Europa como técnico dos rossoneri, na Liga Europa, quis o destino que o adversário fosse o Benfica (4ª feira, 20h, Sport TV5)

No início de julho, Ruben Amorim foi apresentado como novo treinador do AC Milan e certas declarações, dadas em certa entrevista premonitória a esta casa em 2017, não passaram despercebidas.

Disse então Amorim à Tribuna Expresso que, em miúdo, via “cassetes do Milan com Maldini, Baresi, Gullit, Rijkaard, Savicevic” e que os seus sonhos passavam por jogar no Benfica e no Milan. “Cumpri um. Agora tenho de ser treinador no outro”, atirou, entre sorrisos.

Nunca foi propriamente um segredo eclesiástico que Ruben Amorim sempre foi adepto do Benfica, onde fez parte da formação e jogou durante seis temporadas. Nessa mesma entrevista à Tribuna Expresso onde professou o seu amor ao AC Milan de Arrigo Sacchi, e numa altura em que a sua carreira de treinador estava a começar, sublinhou que era “preferível ser sincero com as pessoas”.

“Se for treinar um clube qualquer que seja adversário direto do Benfica, acho que as pessoas preferem que diga ‘sou do Benfica, mas sou profissional’ do que estar a dizer que era um boato”. Mais uma vez, premonitório: nem três anos depois, Ruben Amorim estava a treinar o Sporting, onde foi campeão nacional em três ocasiões.

Ruben Amorim a festejar a conquista da Taça da Liga em 2009/10, na sua segunda época no Benfica - e primeira época de Jorge Jesus na Luz
FRANCISCO LEONG/GETTY

Em Milanello, agora com a responsabilidade de trazer à tona um AC Milan afastado dos títulos, a pergunta era inevitável: quais eram as recordações mais vívidas que tinha desse Milan das fronteiras entre os anos 80 e 90, esse Milan que encantou o Mundo entre a organização italiana e a magia holandesa? Amorim escolheu uma que até o fez sofrer. Anos depois, voltou a referir-se ao Benfica como o seu clube. “É difícil. Como todos sabem, sigo o AC Milan desde que sou miúdo, mas também sou adepto do Benfica e lembro-me bastante bem, nos anos 90, do golo do Frank Rijkaard na final [da Taça dos Campeões Europeus de 90]. Esse jogo foi duro para mim e para a minha família”, disse.

Não poderia aí imaginar Ruben Amorim que os humores dos sorteios lhe reservavam, na estreia europeia pelo clube que um dia, meio a sério, meio a brincar, disse que queria treinar, um duelo com o outro clube do seu coração. Esta quarta-feira, às 20h, na Liga Europa, há um AC Milan-Benfica que é muito mais do que um simples jogo numa prova continental.

Para Ruben Amorim e para a história do futebol europeu.

Habituado a ganhar ao Benfica

E a isso mesmo se referiu o treinador português na conferência de imprensa de antevisão ao encontro com o Benfica. Relembrou, entre sorrisos, mas como que lamentando, as duas finais das Taça dos Campeões Europeus perdidas pelas águias frente ao AC Milan - antes da tal de 1990, ainda houve a de 1992/62, um Milan então de Cesare Maldini, Giovanni Trapattoni ou do brasileiro Mazzola, que bisou na 2ª parte, de nada valendo o golo a abrir de Eusébio, num jogo disputado em Wembley. Amorim não teve também problemas em falar de um jogo que significa um pouco mais do que outros.

“É um símbolo do futebol europeu. Obviamente que é um jogo especial, mas só me interessa vencer”, sublinhou. O arranque de época com o AC Milan foi sólido, com duas vitórias consecutivas na Serie A, mas nas duas últimas jornadas, frente à Juventus e Lazio, não conseguiu mais do que um empate.

Defrontar o Benfica e ganhar estando do outro lado do banco não é nada de estranho para Ruben Amorim. Em 13 jogos nessa condição, venceu seis, um deles ainda no SC Braga e cinco pelo Sporting. Algumas dessas vitórias seriam marcantes na passagem de Amorim por Alvalade, como na final da Taça da Liga, em janeiro de 2022, ou o triunfo à jornada 28 da I Liga 2023/24, que praticamente selou o título do leão, com um golo de Geny Catamo já em tempo extra.

Treinador português, de 41 anos, na apresentação em Milão
Giuseppe Cottini

Há também quatro derrotas, a mais dolorosa, seguramente, nesse mesmo campeonato, mas na 1ª volta, quando, na Luz, o Benfica operou uma milagrosa reviravolta nos descontos, com golos aos 90’+4 e 90’+8.

Olhando para os duelos oficiais entre AC Milan e Benfica, eles não abundam. Há apenas seis e o Benfica nunca venceu. Além das duas finais europeias já referidas, as duas formações jogaram nos quartos de final da Liga dos Campeões 1994/95 (vitória do Milan por 2-0 em San Siro e nulo na Luz) e na fase de grupos da edição de 2007/08 (vitória dos rossoneri em casa por 2-1 e 1-1 em Lisboa).

Remexendo um pouco mais nos registos, encontram-se ainda quatro encontros não oficiais ou de preparação. No penúltimo deles, na Eusébio Cup de 2009, Ruben Amorim foi titular, adaptado a lateral direito por Jorge Jesus, e quase marcava desde o meio-campo. Já na 2ª parte, Amorim aproveitou um alívio pouco ortodoxo de cabeça do guarda-redes do Milan para tentar a sua sorte mesmo no círculo central, com um remate a 40 metros quando Storari ainda recuperava posição. A bola passou rente ao poste, mas o Benfica ganharia o troféu nos penáltis.

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