Futebol internacional

Três jogadores do Real Madrid taparam mensagem de apoio a Ceuta e mexeram num assunto que faz tremer organização do Mundial 2030

A entrada do Real Madrid em campo frente ao Elche, encontro que os merengues ganharam por 3-2
A entrada do Real Madrid em campo frente ao Elche, encontro que os merengues ganharam por 3-2
Quality Sport Images

Várias equipas da La Liga entraram em campo com uma t-shirt onde se lia “todos somos caballas”, alcunha dada aos habitantes de Ceuta, epicentro da crise migratória. Kylian Mbappé, Vinicius Júnior e Ibrahima Konaté dobraram a camisola. A atitude foi criticada dentro e fora do futebol. Em Espanha, a tensão política com Marrocos tem feito surgir pedidos de exclusão do país africano da aliança que está a preparar o próximo Mundial

Mais de 70.000 pessoas vindas de Marrocos a nado entraram em Ceuta entre 30 e 31 de julho. A população de cerca de 83.000 habitantes viu o número de cabeças no território espanhol no norte de África praticamente duplicar. Durante a crise migratória, registaram-se 141 óbitos, de acordo com os números mais recentes. A maioria dos que conseguiram chegar à costa regressaram voluntariamente ao país de origem, mas as estimativas do Governo espanhol indicam que 10.000 indocumentados permanecem na região. Muitos desses dormem na areia, esperando não morrer na praia.

Milhares de espanhóis encheram ruas por todo o país para demonstrarem solidariedade com Ceuta no início de setembro. O futebol também aderiu à onda de manifestações que assinalaram o dia da cidade. Nesse sentido, a La Liga permitiu que os clubes interessados pudessem entrar em campo com camisolas de apoio à causa.

O Real Madrid, uma espécie de establishment desportivo do país, aderiu às manifestações. Quando subiram ao relvado para defrontarem o Elche na 6ª jornada do campeonato, os jogadores merengues cobriram-se com uma t-shirt que dizia “todos somos caballas”, alcunha dada aos habitantes de Ceuta.

A participação não foi unânime entre os elementos da equipa. Kylian Mbappé, Vinicius Júnior e Ibrahima Konaté dobraram a camisola e ocultaram a mensagem, levantando uma poeirada de críticas. O presidente da La Liga, Javier Tebas, sugeriu que o trio não respeitou o “ato de clube” e sugeriu que o grupo privilegiasse o interesse institucional em prol dos valores individuais.

Os jogadores do Real Madrid que não aderiram à chamada de atenção levaram igualmente açoites morais com proveniência política. Entre os partidos da direita, o PP disse sentir “vergonha alheia” e o Vox acusou-os de “não apoiarem os espanhóis”.

Mbappé lembrou quem perdeu a viva a tentar chegar a Ceuta
NurPhoto

Kylian Mbappé apressou-se a explicar os motivos que o levaram a cobrir a mensagem numa entrevista ao diário “AS”. O internacional francês demonstrou “solidariedade com Ceuta”, mas assumiu que queria “ter um gesto e um pensamento para com todos os imigrantes que perderam a vida e que estão em condições duras”. “Era uma posição difícil, porque as pessoas podiam pensar que estava contra o povo de Ceuta, mas não.”

Iniciativa externa à La Liga

Apesar da indignação demonstrada por Javier Tebas, o movimento não foi promovido pela La Liga. A iniciativa partiu da Associação Valenciana de Empresários (AVE), que promoveu a ideia entre os clubes da região da costa este espanhola. Assim sendo, o Villarreal, o Elche e o Levante aderiram à ideia.

Os adversários aceitaram acompanhar estes clubes e vestiram o mesmo slogan. Apenas o Barcelona, que defrontou o Levante, preferiu ficar de fora. Uma opinião diferente quanto à pertinência do apoio a Ceuta tiveram Real Madrid e Bétis.

A AVE, empenhada em comandar a estratégia de comunicação da crise de Ceuta, quis promover “o compromisso e a solidariedade para reivindicar a coesão territorial e social de Espanha”. Dá-se o caso do líder do organismo, Vicente Boluda, ser antigo presidente do Real Madrid.

Abde Ezzalzouli foi acusado de criticar as pessoas do próprio país que tentaram chegar a território espanhol
Francisco Macia

A utilização do lema “todos somos caballas” por protagonistas capazes de alargar a dimensão da causa teve outros percalços. Abde Ezzalzouli, jogador marroquino do Bétis, carregou-o ao entrar em campo frente ao Villarreal. Nas redes sociais, foi acusado de atentar contra o próprio país. “Em momento algum vesti a camisola com um objetivo político ou desprezo pelo povo marroquino”, defendeu.

Tensão política interfere na organização do Mundial 2030

Se cada participante na organização do Mundial 2030 contribuir com um traço de personalidade, Portugal traz para a mesa o pacifismo. De resto, a tensão vai imperando entre os restantes membros da aliança.

Em Espanha, três partidos pediram que Espanha exclua Marrocos da organização do torneio. O Sumar, que tem créditos de originalidade, não vê garantias de que o país africano possa assegurar “um respeito efetivo e continuado pelos direitos humanos, da legalidade internacional e dos princípios democráticos”. Vox e Podemos fizeram a mesma exigência. Por cá, o Livre também apoiou a saída de Marrocos.

A discórdia não fica por aqui. Marrocos e Espanha estão a disputar o direito a acolher a final do Mundial 2030, corrida da qual Portugal está excluído por não ter um estádio com pelo menos 80.000 lugares, capacidade exigida para o efeito.

O presidente da federação marroquina, Fouzi Lekjaa, antecipou-se à oficialização e anunciou que o jogo decisivo se vai realizar no Estádio Hassan II. O recinto está a ser erguido e terá capacidade para 115.000 pessoas. No entanto, a FIFA ainda não tomou uma decisão sobre o assunto. O organismo, que não tem escapado ao escrutínio, disse que o veredicto será divulgado “no momento certo”.

O contributo de Portugal para a organização do Mundial 2030 terminará nas meias-finais, sendo o Estádio da Luz, com espaço para 68.100 espetadores, candidato a local onde se vai definir um dos finalistas. Em Espanha, os remodelados Bernabéu (83.186) e Camp Nou (105.000) ambicionam rivalizar com o Hassan II.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: fsmartins@expresso.impresa.pt