Futebol internacional

A fotocópia do velho Mourinho transformou-se numa guerra aberta entre a La Liga e o Real Madrid

Mourinho numa conversa com o árbitro Miguel Angel Ortiz, durante o encontro com o Atlético Madrid
Mourinho numa conversa com o árbitro Miguel Angel Ortiz, durante o encontro com o Atlético Madrid
Ballesteros

Após o final do dérbi entre Atlético e Real Madrid, Mourinho muniu-se de uma fotocópia com dois frames de lances que os merengues acreditam serem passíveis de cartão vermelho para o rival. Uma performance que deu o mote para novo capítulo da luta entre Real Madrid e Javier Tebas, líder da La Liga, feito de comunicados, respostas via redes sociais e até à teoria de que Mourinho, afinal, nem queria entrar na guerra

Uma folha pode ser muito mais que uma frágil folha e uma folha de papel impressa com dois frames da transmissão do Atlético Madrid-Real Madrid deu o mote para mais uma batalha de uma guerra antiga entre o Real Madrid e a La Liga, personificada no seu presidente, Javier Tebas. Uma novo capítulo que já vai em ataques na televisão, respostas via redes sociais e contra-comunicados.

De certa forma, foi um regresso ao passado, quase um déjà vu. Após ser derrotado no dérbi de Madrid (2-1), José Mourinho chegou à sala de imprensa de Metropolitano com uma impressão na mão, apontando o dedo à arbitragem. De semblante pesado, sem aparente vontade de falar do jogo, Mourinho acusou o juiz da partida de ter poupado o Atlético a duas expulsões, tratando o árbitro de “pobre coitado” e atacando a sua parca experiência.

“Tem 41 anos e não é internacional. É um mau árbitro que só apitou jogos pequenos. Não aguentou a pressão”, atirou, numa declaração que fez muito boa gente recuar 15 anos, quando o estilo bélico, agressivo, do “nós” contra “eles” do português foi uma das armas de Florentino Pérez para combater a superioridade desportiva daquele Barcelona de Xabi, Iniesta, Busquets e Messi.

A derrota do Real Madrid no reduto do rival da cidade deixou a equipa de José Mourinho já a seis pontos do Barcelona, em posição difícil quando ainda nem terminou setembro. E depois dos acontecimentos em casa do Atlético e da performance de Mourinho na conferência de imprensa, entrou em ação o braço armado que tem sido a Real Madrid TV, mostrando os lances polémicos em loop, utilizando linguagem de guerrilha. “É tudo de vomitar, não lhes interessa que a La Liga de Tebas esteja a transbordar de merda. O que se passa esta época já ultrapassou todos os limites. Falta só uma circular que permita aos adversários do Madrid entrarem em campo com um revólver”, ouviu-se na transmissão do canal oficial do clube da capital.

Javier Tebas que, para o bem e para o mal, não é homem de ficar calado, respondeu ao clube, com quem vai mantendo, há anos, um conflito raramente latente, nunca surdo, sempre estrepitoso, que teve como clímax a ascensão e queda da Superliga, defendida pelo Real Madrid, atacada de forma veemente pelo dirigente.

“Compreendo as queixas, mas nunca a forma. O Real não perdeu por causa dessas jogadas”, escreveu no X, um dos seus meios favoritos para ripostar, em resposta a um artigo de um meio digital que defendia o clube.

“Já começam os porta-vozes e a televisão do regime a construir o relato de sempre: a conspiração permanente”, pode ler-se na publicação. “Defender que os árbitros estão dirigidos para prejudicar o Real Madrid é viver numa outra galáxia. Este relato serve de desculpa para esconder outras carências que se notam à vista desarmada nestes primeiros jogos da temporada. É mais cómodo apontar para uma conspiração do que explicar o que acontece no relvado”, escreveu ainda o presidente da La Liga.

A resposta do Real Madrid chegou via comunicado no site do clube, onde foi pedida a saída de Tebas. ”É intolerável que o presidente da La Liga utilize a sua posição institucional para continuar a desacreditar e a atacar o Real Madrid da forma como o faz em cada uma das suas intervenções públicas”, frisou o clube, acusando Tebas de estar “obcecado” com os merengues.

“Perante este comportamento desadequado, que persiste há algum tempo, acreditamos que o futebol profissional em Espanha necessita urgentemente de um líder capaz de o gerir e desenvolver, com o dever fundamental da neutralidade.” O Real Madrid escreveu ainda que “o presidente da La Liga não é o dono da competição”.

Tebas contra-atacou. De novo no X: “Concordo plenamente com uma frase: o presidente da La Liga não é o dono da competição. O presidente do Real Madrid também não. Respeito por todos, subordinação a nenhum.”

Mourinho coagido?

Se na sua primeira passagem pelo Real Madrid, durante três temporadas, entre 2010 e 2013, a estratégia de guerra de Mourinho era marcada por uma atitude energicamente confrontativa, corrosiva, no domingo o que se viu foi um treinador aparentemente cansado, derrotado pelas circunstâncias. Como se, de repente, tivesse perdido uma certa gravitas que, nessa primeira era, lhe permitiu desgastar em muito os adversários.

Agora, somam-se as críticas. “Perder, perdemos todos. Mas quando alguém ultrapassa a linha do respeito, é perigoso. Por mais que te chames Mourinho, Flick ou Simeone, não vale tudo”, apontou Diego Simeone, treinador do Atlético Madrid, na mesma cadeira da sala de conferência de imprensa do Metropolitano minutos antes ocupada pelo treinador português.

José Mourinho durante o dérbi de Madrid
NurPhoto

Em entrevista ao programa El Larguero, da rádio Cadena SER, Luis de la Fuente, treinador campeão mundial por Espanha no verão, também foi contundente perante as acusações do Real Madrid. Se eu acreditasse nessas manipulações, era melhor ir para casa. Certamente não tenho essa atitude perante a vida nem perante o desporto. Perdi algumas vezes, muitas, e outras vezes ganhei, mas nunca pensei que existisse uma mão a dirigir o que quer que fosse”, apontou o selecionador espanhol, que na mesma emissora admitiu que talvez Mourinho pudesse ter algumas razões de queixa nomeadamente no lance de Kang-in Lee sobre Federico Valverde.

Versão alternativa dos factos tem o jornalista Diego Torres, do “El País”, que durante anos acompanhou a atualidade do Real Madrid — e publicou o livro sobre o treinador português, com o título “A Guerra de Mourinho” , antes de ser afastado da área em 2019, depois de publicar uma informação incorreta sobre Zinedine Zidane, pela qual o diário teve de se desculpar. Ainda assim, o repórter não se coibiu de utilizar o X para garantir que Mourinho “foi enviado para a guerra” pelo clube e que Florentino Pérez terá ficado dececionado com “a falta de convicção” do português durante o discurso contra a arbitragem no auditório de conferências de imprensa do Estádio Metropolitano.

Torres aponta ainda ter informações que Mourinho não estava à espera que o plantel disponível fosse tão limitado e que se sente até “enganado” pelo retrato que lhe foi feito pelo clube antes de recusar continuar no Benfica e assinar para uma segunda vida no Santiago Bernabéu.

Tem alguma questão? Envie um email ao jornalista: lpgomes@expresso.impresa.pt