Lamine e os campeões do mundo foram ganhar ao templo do futebol inglês
Lamine Yamal a marcar logo ao segundo minuto do Inglaterra-Espanha: foi o terceiro golo mais rápido que os ingleses sofreram em Wembley
Robin Jones
Calhou a Liga das Nações ser a cura para a ressaca do Mundial e levar ao templo do futebol inglês os recém-campeões do mundo. Cedíssimo a Espanha marcou pelo prodígio Lamine Yamal, mas depois os visitantes cederam ao pujante ritmo dos anfitriões, cuja reação não foi implacável porque Harry Kane atirou um penálti contra a barra. Foi o sinal para os espanhóis domesticarem de vez a bola e saírem de Wembley com a vitória (2-3)
Este sábado era dia de Lamine Yamal, o precoce futebolista em todos os sentidos, ir a um tempo do futebol. Aos 16 anos foi a um Europeu ganhá-lo enquanto tinha exames de escola a meio; com 18 viajou aos Estados Unidos, este verão, para ser campeão mundial e visitar lojas da Walmart, numa boa, desfrutando do facto de na América passar despercebido se for um simples transeunte. Pintor impressionista, o pé esquerdo seu pincel, o mais novo futebolista a reinar na Europa e no Mundo entrou em Wembley tal como é.
Supimpa em talento, a jogar como uma bailarina a deslizar em tapete de gelo, o aparelho a endireitar-lhe os dentes, o desplante da inteligência de Yamal tardou dois minutos a sair em evidência. A Inglaterra reciclava uma das primeiras posses de bola, o central Marc Guéhi pensou em jogar pelo segurou, orientou uma receção para trás, em direção à sua baliza, em teoria para longe da pressão, mas o tico e o teco de Lamine anteviram os neurónios do inglês.
O defesa julgou-se a fugir para porto seguro e o artista, extremo, prodígio, queiram chamar-lhe o que vos aprouver, surripiou-lhe a bola, embalou rumo à baliza, retardou a definição e só quando James Trafford, o guarda-redes, quase lhe cheirava o hálito e preso à relva estava é que o canhoto ajeitou o seu remate para marcar. Predestinado nos feitos, foi de Lamine Yamal o terceiro golo mais rápido alguma vez feito à Inglaterra em Wembley, onde a seleção joga anualmente desde 1924.
Cedo a Espanha tentou plantar o pé no palácio do futebol inglês com o seu futebol de filigrana, muitos passinhos e passezinhos, a equipa junta. Mas o domínio foi intermitente apesar do bouquet florido de Yamal. Houve rosas, equináceas e girassóis: feito o golo, estendeu-se a deslizar na relva, intercetou um passe em esforço, a bola sobrou para Rodri lançar Ferran Torres correr esbaforido como gosta e desperdiçar a chance na cara de Trafford; depois, cercado por ingleses, bamboleou as pernas, simulou e ameaçou perto da linha do meio-campo, antes de desmarcar o mesmo Ferran desperdiçar outro serviço só com o guardião na frente.
Lamine Yamal a festejar o seu golo contra os ingleses em Wembley
Jacques Feeney/Offside
E meio calcanhar, a outra metade colher, ainda usou do pé esquerdo noutra jogada para assistir com arte um remate de Dani Olmo.
Não muitos, não omnipresente no jogo, mas sobravam pormenores do adolescente metálico nos dentes que parece adulto no tempo a que já cá anda. Quando uma jogada foi ao outro extremo, o discreto Nico Williams, atraiçoou-o a relva. O basco do Athletic de Bilbao escorregou, perdeu a bola e a furtiva Inglaterra desenlaçou um contra-ataque ornado pelo calcanhar de Anthony Gordon, que assim deixou Jude Bellingham em condições de o lançar ao sprint e ele desviar o golo de Unai Simón depois de correr uns 70 metros.
A reação a reboque do inglês mudado para Barcelona conduziu à reviravolta que teve a testa do quem calça ouro. Autor de 73 golos em 65 jogos a época passada (entre Bayern e seleção), Harry Kane teve de pronunciar a corcunda, dobrar-se todo para cabecear, mas respondeu ao cruzamento de Nico O’Reilly, todo força em andamento, para dar o desvio na bola que ainda desviou na cocha atrapalhada de Marc Cucurella antes de entrar na baliza. Em quatro minutos a seleção com menos estrelas por cima do seu símbolo pôs-se a ganhar.
O ritmo dos corpanzis ingleses, a maioria a viverem do amor pela intensidade, a pressão constante e as faíscas físicas da Premier League, atazanava os espanhóis, sucumbidos com o tempo a perdas de bola. A segunda parte empurrou os campeões do mundo para trás, perigosamente abeirados de um certo abismo quando Rodri fez penálti, a bola parou a 11 metros da baliza e Kane, temível na reputação, esbofeteou a tentativa contra a trave, exagerado na força ao escorregar-lhe o pé de apoio.
Durinhos os anfitriões, claramente a prosperarem com as mordiscadelas constantes nos calcanhares dos espanhóis, tiveram Bellingham com a sua delicadeza entre linhas a dar o ponto nó nas jogadas, recebendo orientado e libertando um dos extremos na área. A Inglaterra estava melhor, parecia melhor, quando a Espanha empatou noutra benfeitoria de Yamal: pressionou O’Reilly, quase o roubou, o lateral errou um passe encostado à sua baliza e Álex Baena, às portas da área, passou à baliza.
O penálti que Harry Kane atirou contra a barra da baliza de Unái Simon
Mike Hewitt
Não tardou à entrada de Pedri, um espanto como as suas botas com bola, a parabólica da sua cabeça, começaram o jogo como suplente e tanto aguardaram no banco enquanto a Espanha necessitada se via de amestrar Wembley através da bola.
Sendo Baena um falso extremo esquerdo e verdadeiramente mais um médio, a vinda do talentoso do Barça em jogo plantou de vez o estilo dos campeões mundiais no jogo. Agora sim, os espanhóis jogavam. Com um jogada de muitos passes, muito conceito do terceiro homem, muitas paredes e bastantes contra-movimentos, outro espantosamente substituto deixou a sua classe: lançado na área, Mikel Oyarzabal, o avançado que tem presente que às vezes a melhor ação é não tocar na bola, picou-a ao de leve sobre o guarda-redes para o terceiro golo.
Então a bola foi o animal de companhia de Espanha, fiel ao seu carroussel de passes, a entortar os olhos e as pernas dos ingleses que foram lançando nomes frescos — James Garner, Calvert-Lewin, Morgan Rogers, Gibbs-White —, todos cavalos de corrida, mas sem a fineza para contrariar o punho que os visitantes já tinham cerrado no jogo. Uns impuseram-se pela calma sobre quem, salvo Bellingham, que acabou com a braçadeira de capitão, tentava reagir pelas correrias. Deu para dar uns empurrões à Espanha contra a sua área, atirá-la para trás, não mais do que isso.
E o último pontapé do jogo, feito para a frente e para longe onde só havia relva, deu-o Lamine Yamal, colhida a bola na sua área, após um canto, não sem antes lhe dar vários toquezinhos enquanto olhava em volta, à procura de apoio, de um possível passe, de uma hipóteses para combinar. Ele é assim, já na final do Mundial queria continuar a jogar mais. Mas pronto, o árbitrou lá apitou, e a Espanha ganhou. Há 39 jogos que não perde.