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O Manchester City foi considerado culpado de quase todas as 115 infrações das regras financeiras da Premier League. E agora?

Erling Haaland, com outros jogadores do Manchester City atrás, a festejar um golo que marcou em casa do United no dérbi da cidade, a contar para a Premier League
Erling Haaland, com outros jogadores do Manchester City atrás, a festejar um golo que marcou em casa do United no dérbi da cidade, a contar para a Premier League
Alex Livesey - Danehouse

Na sexta-feira, o “The Athletic” revelou que a Premier League já concluiu que o Manchester City é culpado de quase todas as 115 violações das regras financeiras da competição das quais foi acusado, de pagamentos fantasma feitos a jogadores ao inflacionar de contratos de patrocínio para equilibrar as contas. Ainda não foram decididos castigos e o processo, previsivelmente, ainda terá recursos apresentados na justiça, mas o maior julgamento desportivo do século pode ter consequências sísmicas no futebol

O Manchester City foi considerado culpado de quase todas as 115 infrações das regras financeiras da Premier League. E agora?

Diogo Pombo

Editor de Desporto

Faz tempo, desde fevereiro de 2023, que esta nuvem pairava sobre o Manchester City tal e qual Charlie Brown tinha uma a fazer-lhe sombra em “Peanuts”, a série animada. Nesse ano, de maneira formal, a Premier League acusou o clube de ter cometido 115 irregularidades a respeito das regras de fair-play financeiro impostas no principal escalão do futebol inglês. Comprado, em 2008, pelo Abu Dhabi Group liderado por Sheikh Mansour, membro da família real do país do Médio Oriente, o City sempre negou todas as acusações, pintando-se como inocente até a notícia rebentar, esta sexta-feira.

Antecipando-se a qualquer anúncio oficial, o “The Athletic” avançou que a comissão independente designada pela Premier League para investigar o caso concluiu o City como culpado “de quase todas” irregularidades imputadas.

A gravidade fica clara relembrando as infrações: eram 54 falhas em providenciar informações financeiras reais das contas do clube; 14 relativas ao pagamento de salários a jogadores e dirigentes; cinco incumprimentos dos limites do fair-play financeiro da UEFA e sete relativos às regras do mesmo tipo da Premier League; e 35 delitos quanto a colaborar com a investigação da entidade que rege a liga inglesa. Nem o “The Athletic”, ou a “BBC” e o “The Guardian”, que confirmaram a notícia, especificaram quais os pontos em que o City foi provado como culpado, mas coincidiram em escrever que, para já, ainda não foram decididos os castigos a aplicar.

No regulamento da Premier League consta, no seu ponto W.51, a hipótese de um clube ser penalizado com perda de pontos no campeonato, despromoção e multas financeiras, potencialmente também com a retirada de títulos conquistados, embora esta possibilidade seja mais remota. O espetro das sanções é bastante alargado dado que a investigação cobriu irregularidades desde 2008 e o City gastou cerca de 1,7 mil milhões de euros só em contratações de jogadores durante esse período — €526 milhões só neste último verão.

Endinheirada pela propriedade do fundo do Abu Dhabi, a equipa azul de Manchester apetrechou-se de estrelas a cada temporada, jogando com recursos com que muitos dos seus adversários não tinham meios financeiros para rivalizar. Mas, em 2019 e 2022, venceu o campeonato inglês com apenas um ponto de diferença para o Liverpool, então treinado por Jürgen Klopp.

As acusações, por exemplo, alegam que o City inflacionou os valores de contratos de patrocínio com valores falsos, nos seus Relatórios e Contas anuais, para cumprir as imposições das regras de fair-play financeiro da UEFA, que limita os gastos com jogadores, transferências e comissões a 75% da despesa anual, e da Premier League, que coloca esse rácio nos 85%; e também que o clube fez pagamentos a treinadores e jogadores através de contas não declaradas ou serviços de consultoria fantasma a outras entidades do Abu Dhabi Group.

Quanto às infrações relativas aos regulamentos da UEFA, o organismo que manda nas competições europeias deu os cityzens como culpados, em fevereiro de 2020, aplicando uma multa de €30 milhões de euros e banindo o clube das suas provas por dois anos. City recorreu para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) da Suíça e, cinco meses depois, conseguiu que o castigo desportivo fosse anulado.

Para já, a Premier League não reagiu (nem negou) oficialmente às notícias dando conta da sua decisão, ao contrário do Manchester City, cuja resposta ao “The Athletic“ remeteu para a posição mantida pelo clube desde a erupção deste caso. “O processo ainda decorre, há elementos significativos ainda por completar. A nossa posição mantém-se consistente com o comunicado do clube de fevereiro de 2023”, defendeu. Durante o período englobado pela investigação, jogaram nos cityzens Bernardo Silva e João Cancelo, além de Matheus Nunes e Rúben Dias, sendo este último ainda um dos capitães da equipa.

É previsível que o clube, de milhões já gastos em batalhões de advogados, recorra contra a decisão na justiça seja qual for a decisão, arrastando a conclusão do processo. O Manchester City tem sido representado pelo escritório de Lord Pannick KC, prestigiado advogado inglês que, segundo a “BBC”, cobra 5000 libras (cerca de 5800 euros) à hora pelos seus serviços.

O início em Rui Pinto

Vencedor de 26 títulos desde a sua compra pelo fundo do Abu Dhabi — seis a partir do início da investigação, incluindo três Premier Leagues e uma Liga dos Campeões —, o clube vê a nuvem que o rodeia escurecer ainda mais.

O Manchester City continua a defender-se como inocente de todas as 115 acusações de uma investigação com origens em 2018 e num conhecido português, Rui Pinto, hacker e criador do site Football Leaks. Seria o nome de batismo da avalanche de documentos e e-mails trocados entre clubes, jogadores e empresários, revelados aos milhares desde então em colaboração com o “Der Spiegel”, que precipitou uma série de casos judiciais em vários países.

Rui Pinto, o criador do site Football Leaks
Sonja Och

O Expresso, integrado na European Investigative Collaborations (EIC), participou na publicação conjunta de várias notícias originadas do Football Leaks, abrangendo do Manchester City ao Real Madrid, passando por negócios envolvendo o Benfica, o FC Porto e o Sporting, ou o agente Jorge Mendes e a sua Gestifute, a agência Doyen e o empresário Nélio Lucas.

O denunciador responsável pelo Football Leaks congratulou-se com a notícia de que o City foi tido como culpado de quase todas as acusações. “É uma decisão histórica para o futebol inglês e que vem coroar o trabalho por mim realizado através do Football Leaks. Hoje, todos sabemos que, através de manipulações estruturais e de manobras financeiras, o Manchester City não se limitou a contornar as regras, transformou-as numa mera formalidade, desafiando qualquer tentativa de preservar a integridade da competição. Essa fraude meticulosamente arquitectada será finalmente alvo de punição, e o impacto não será apenas turbulento, mas verdadeiramente devastador para os Cityzens“, escreveu nas redes sociais.

Em abril deste ano, Rui Pinto foi absolvido dos 241 crimes (201 de acesso ilegítimo qualificado, 22 de violação de correspondência agravados e 18 de dano informático) dos quais era acusado em Portugal.

As reações

Ainda na sexta-feira, vários meios ingleses noticiaram que muitos clubes da Premier League estavam já a consultar fontes judiciais para aferirem se poderão pedir compensações financeiras na sequência das infrações cometidas pelo Manchester City. A teoria diz que o clube, ao ser considerado culpado, na prática subverteu a verdade desportiva das provas nas quais competiu (o campeonato e as duas taças internas) ao não respeitar as regras pelas quais todos os clubes se devem reger.

Muitas das 115 infrações imputadas aos cityzens aconteceram na vigência de Pep Guardiola, treinador do clube nos últimos dez anos. Em 2020, quando o questionaram acerca das suspeitas numa conferência de imprensa, o espanhol disse: “Quando o clube foi acusado falei com a direção. Explicaram-se e acreditei neles, mas disse-lhes, ‘se me mentem, irei embora e não serei mais vosso amigo.‘“ Chegado a Manchester em 2016, Guardiola saiu por vontade própria no final da época passada.

Enzo Maresca, antigo adjunto de Guardiola, é o atual treinador do Manchester City
Carl Recine

Já este sábado, o “The Guardian” pediu ao seu sucessor, Enzo Maresca, uma reação, e a assessoria do técnico italiano remeteu para uma publicação que o mesmo fez no Instagram, onde publicou uma citação de Sócrates, o filósofo grego — “Só sei que nada sei.” Antigo capitão do Manchester City e recente campeão mundial com a Espanha, Rodri disse acreditar que o clube “é inocente” ao ser confrontado com a notícia durante uma conferência de imprensa da seleção espanhola. “Sempre expressaram confiança de que nada de errado tinham feito. Até serem provados como culpados, vou acreditar.”

Postura oposta à de David Bernstein, presidente do City entre 1998 e 2003, antes da entrada do fundo de Abu Dhabi, apologista de um castigo pesado para o clube. “Se forem mesmo provados culpados, tudo o que digo é que o dinheiro não é suficiente, teria de ser algo, infelizmente, mais drástico”, disse o antigo dirigente ao “The Times”, lamentando-se por algo que já dura há muitos anos e gostaria que não durasse muitos mais: “O recurso terá de ser feito rapidamente, o clube tem jogado com esta nuvem sobre a cabeça e isto, simplesmente, não é viável.”

Em anos recentes, a Premier League retirou pontos ao Everton e ao Nottingham Forest por infringirem as suas regras de fair-play financeiro, além de multas que entraram nas dezenas de milhões de euros. Os sinais apontam para que o Manchester City possa ser o próximo.

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