Duas casas emprestadas e transmissão televisiva sem comentários: o Irlanda-Israel também vai ser um duelo político
Adeptos irlandeses manifestam-se contra Israel durante o jogo entre Shamrock Rovers e Bohemians, da liga do país
Stephen McCarthy
O selecionador irlandês disse que, na Liga das Nações, a sua equipa vai jogar “contra o genocídio”, levando a acusações de “estupidez”, “ignorância” e “hipocrisia” por parte da federação israelita. As tensões entre os dois países farão com que também a Irlanda jogue em terreno neutro no duplo confronto com Israel, este domingo e daqui a uma semana. Na televisão pública da Irlanda ninguém vai comentar os jogos, em protesto
Este domingo e no próximo, Irlanda e Israel vão encontrar-se em campo para dois jogos do Grupo B da Liga das Nações. Nenhum dos encontros será na Irlanda ou em Israel: o primeiro jogo será em Debrecen, na Hungria, país que tem sido casa dos israelitas desde o início da guerra em Gaza, em 2023. Uma semana depois, a seleção irlandesa será anfitriã na pequena cidade de Bačka Topola, na Sérvia.
A solução de recurso foi encontrada depois de, em julho, ter sido considerado um boicote da Irlanda aos duelos com Israel. Em assembleia-geral, a federação de futebol da Irlanda (FAI) votaria a favor da realização dos jogos (75 votos contra 32 dos que defendiam a não comparência), ao sublinhar que um possível boicote poderia causar “danos significativos ao futebol irlandês”, à conta das mais que certas sanções disciplinares da UEFA que, ao contrário do que fez com a Rússia após a invasão da Ucrânia, não baniu Israel das competições sob a sua égide.
Oficialmente, a FAI justificou a não realização do jogo de 4 de outubro em Dublin por “desafios operacionais” que poderiam “impactar a realização do encontro em solo irlandês”. Por razões históricas, a Irlanda sempre foi uma das nações europeias mais empáticas com a causa palestiniana, uma solidariedade assente na própria experiência do país com uma potência ocupante, neste caso o domínio inglês e britânico na ilha que durou mais de oito séculos.
Seleção de Israel que entrou em campo frente à Itália em setembro, também em Debrecen
SOPA Images
Estava tudo apenas a começar. Muito mais do que um jogo de futebol, o Irlanda-Israel tornou-se um evento político, uma arena de argumentos e acusações, com o envolvimento, até, do primeiro-ministro irlandês e da televisão pública do país.
No sábado, os convodados pela Irlanda para o jogo reuniram-se durante largas horas para decidir, no fundo, se iriam ou não ao campo para defrontarem Israel. A federação anunciou que “uma grande maioria” votou favoravelmente, embora Gavin Bazunu, guarda-redes do Bolton, de Inglaterra, se tenha recusado —disse que a sua posta se baseia na “crença de que matar pessoas inocentes é errado”. Os restantes concordaram em não apertar a mãos aos israelitas nas partidas que aí vêm.
Jogo “contra o genocídio”
Numa sociedade particularmente engajada com a luta da Palestina (em 1980, a Irlanda foi o primeiro país da então CEE a apoiar a criação de um estado palestiniano), as questões sobre o jogo rapidamente ultrapassaram a questão desportiva. No início da semana, Heimir Hallgrímsson, islandês que é o selecionador da Irlanda, frisou que a sua equipa ia jogar “contra o genocídio”, provocando uma reação musculada da federação israelita.
“Israel contribuiu para a humanidade em incontáveis campos, ganhando um número impressionante de Prémios Nobel pelo caminho. Infelizmente, ainda não encontrámos a cura para a estupidez, para a ignorância e para a hipocrisia demonstrada pelo selecionador da Irlanda”, pode ler-se numa mensagem deixada nas redes sociais do organismo.
O primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, apressou-se a defender o treinador, sublinhando que as declarações da federação israelita eram “inaceitáveis” e que “deveriam ser retiradas”. Ao mesmo tempo, mais de 160 figuras do desporto da Irlanda assinaram uma carta aberta a pedir um boicote aos jogos com Israel. Vários jogos da liga irlandesa das últimas semanas foram marcados por protestos contra Israel.
Heimir Hallgrímsson é o selecionador da Irlanda
Ben McShane
Já no final da semana, Hallgrímsson agradeceu o apoio do poder político irlandês, ainda que tenha admitido que “não foi muito inteligente” da sua parte criar uma distração para os seus jogadores antes da estreia da equipa frente ao Kosovo, na quinta-feira.
TV pública com serviços mínimos
Apesar das vozes e das manifestações que se opõe a que a Irlanda jogue com Israel, os encontros irão mesmo acontecer. Mas até a própria transmissão televisiva na Irlanda será um reflexo do desconforto do país.
A RTE, uma das primeiras televisões públicas a boicotarem o Festival da Eurovisão devido à presença de Israel, vai assumir as suas obrigações contratuais e transmitir os jogos, mas o que entrará nas casas irlandesas será um feed internacional, sem qualquer comentário ou sem análises em estúdio ou no local.
Os meios técnicos dedicados aos jogos serão “mínimos”, anunciou o canal em comunicado, onde sublinhou ainda que não irá aceitar ou passar qualquer tipo de publicidade durante os encontros.
A Irlanda pediu à UEFA, entretanto, para deixar de ser emparelhada com Israel em sorteios futuros, à semelhança do que acontece, por exemplo, com o Kosovo e Sérvia ou Arménia e Azerbaijão, mas o requerimento foi negado.
A ofensiva militar de Israel em Gaza, que se seguiu ao ataque do Hamas ao sul do país a 7 de outubro de 2023, que provocou cerca de 1200 mortes, já causou mais de 73 mil vítimas, de acordo com o Ministério da Saúde do território, números que têm o respaldo das Nações Unidas.