Messi vai jogar uma última vez pela Argentina. Esta é a história de como o seu primeiro jogo foi improvisado
Messi a passar ao lado do troféu do Mundial, na final da edição de 2026: os argentinos não quiseram que esta fosse a última imagem de Lionel na seleção
Hannah Peters - FIFA
Quando a Federação argentina enviou um fax ao Barcelona a anunciar que “Leonel Mecci” tinha sido convocado para a seleção sub-20 já Jorge, o pai do jogador, entregara cassetes VHS do filho ao adjunto do treinador da seleção principal, receoso do cortejo que dirigentes do futebol espanhol lhe faziam. O primeiro jogo de Messi pelo seu país, em 2004, também foi um conluio apressado com árbitros e fotógrafos para agarrar o génio que na madrugada desta quarta-feira (00h, Sport TV) se despede, aos 39 anos, do seu país. Em Buenos Aires, palco do seu primeiro e último jogo
Garoto que era Lionel Andrés, o cabelo à tigela a esvoaçar-lhe na cabeça, o seu destino estava um pouco às aranhas. Era abril de 2004, ainda se tentava compreender o que poderia ser a internet, e do fax nos escritórios do Barcelona ouviu-se o bramido eletrónico a anunciar a chegada de uma missiva. Era acerca de um juvenil do clube. Da maquineta saiu o papel sobre um tal “Mecci”, a dar conta da sua convocatória para a seleção sub-20 da Argentina. Enganada não só quanto ao apelido, a Federação do país equivocara-se também no nome: escreveu “Leonel”.
A história dos tropeções na ortografia é batida, o que se passou na realidade nem tanto.
Uns dois anos antes do fax apitar houve um telefone a tocar na sede da AFA (Associação Argentina de Futebol). A chamada veio da Catalunha, a voz vinda outro lado tinha sotaque do lado de cá, pelo que o administrativo que a atendeu, escutando a súplica, simpatizou com a urgência e informou quem lhe falava de uma coincidência: por aqueles dias, o selecionador nacional estava hospedado em Barcelona na companhia do seu adjunto. Marcelo Bielsa é irrelevante neste fadário; importa Claudio Vivas, por quem um senhor chamado Jorge perguntou na receção do Hotel Princesa Sofía.
Tratou-se de um conluio de casualidade: por acaso o treinador estava no quarto, por acaso acedeu a descer, por acaso teve minutos para cumprimentar um desconhecido apesar de se ter demorado, com intenção, para encurtar o encontro, zeloso da eventual maçada, segundo a recoleção feita pela revista “Anfíbia”. Descido ao lobby, o homem perguntou-lhe se conhecia um rapazote de seu nome Messi e por acaso Vivas, também nascido em Rosário, sabia de dois, nenhum deles o protagonista dos lances gravados na cassete ofertada por Jorge. Mas a curiosidade foi aguçada.
O vídeo tinha 12 minutos de duração, o técnico pediu mais cassetes, precisava pelo menos de ver cinco jogos completos do rapaz em vez de jogadas desgarradas.
Lionel Messi em 2005, a posar para a fotografia de uma reportagem do El Gráfico, conhecida revista argentina
El Grafico
Em dois dias tinha-as em mãos. O diligente homem de quem Vivas sempre afirmou não se recordar do apelido derramou esforço porque a Federação de Futebol Espanhola, como lhe disse, andava atrás do adolescente, a cortejá-lo para jogar pelo país que o acolheu.
Os Messi jamais admitiram que o Jorge das cassetes era o pai de Lionel, apesar de confirmarem que era ele o Jorge da chamada que anos antes, e antes do fax e do telefone, pegou no filho mais pequeno, atravessou o charco com ele e, ao vê-lo à janela de outro hotel de Barcelona, pegou na câmara analógica e tirou-lhe a fotografia que ficaria famosa com o tempo: era a véspera de Lionel ir aos testes no Barça, clube que firmou num guardanapo de restaurante o compromisso de que daria um contrato, e pagaria o tratamento com hormonas de crescimento, à criança argentina dos sete costados, mas que os espanhóis salivavam por tornar espanhola.
Demorou a que o miúdo de sotaque imune a tantos anos emigrado, onde o “Y” e o duplo “L” soam ao mesmo, intacto nos gostos vindos do berço como o seu amor ao bife panado coberto por um molho de queijo, fiambre e orégãos — milanesa a la napolitana, prato cativo na cozinha argentina —, tivesse correspondência em quem mandava no futebol do país onde nasceu.
Surpreso com o que viu nas cassetes, Claudio Vivas apressou-se em direção à sede da federação mal aterrou em Buenos Aires para os entregar ao selecionador sub-17, montador da equipa que dali por semanas jogaria o Mundial da categoria. As regras eram distintas: naquele tempo, bastava que um gaiato alinhasse por uma seleção jovem para que não pudesse representar outro país. Mas o treinador, Hugo Tocalli, torceu o nariz, não entendia a obsessão, não iria convocar um desconhecido após levar anos a preparar os mesmos jogadores.
Lionel não podia ser especial, muito menos se nunca pusera os pés nas seleções, saído tão cedo (aos 13 anos) do Newell’s Old Boys para Barcelona.
Messi com o número 19 na camisola a jogar durante o Mundial de 2006, o seu primeiro
Simon M Bruty
Só no Campeonato do Mundo da canalha Tocalli perguntou por Messi a Luciano Formiga, com quem jogara no clube de Rosário. De resposta recebeu uma tecelagem de elogios. Mais tarde ouviu os de José Pekerman, voz com autoridade, já fora selecionador dos sub-20 da Argentina e sê-lo-ia da principal (2004-2006). Aproveitando que treinava o Lleganés, em Espanha, um dia foi espreitar os jogos dos miúdos do Barça, viu Messi, espantou-se com Messi e disse a Messi, e ao seu pai, que ia puxar uns cordelinhos. Tocalli voltou a não levá-lo, desta feita ao Mundial sub-20, ainda prevalecia a sua desculpa: era um jogador virgem de chamadas às seleções.
Mas a sua promessa já chegara aos ouvidos de Julio Grondona, presidente da AFA. Havia que agarrar o rapaz, aquele pé esquerdo era argentino, a prioridade tinha de ser para ontem. Tocalli ordenou que Omar Souto, o funcionário da AFA que atendera a chamada de Jorge, retornasse à fala com ele, um afazer complicado: teve de vasculhar nas páginas amarelas. “Pedi uma lista telefónica de Rosário, só sabíamos que ele era rosarino. Procurei pelos Messi, a primeira que encontrei foi a avó, que me passou o número do tio, e o tio do pai. Liguei e disse que queríamos contar com o filho dele.“ Está no livro “Messi: o génio (in)completo”. E Souto enganou-se, falou de um Leonardo por achar que era o nome de onde derivava a alcunha “Leo”.
Informada a família enviou-se então o fax em 2004, mas em abril, um período do ano sem jogos de seleções nem com encontros previstos para breve, pelo que a federação teria de inventar algo.
Lendo o nome e o apelido mal escritos o Barcelona negou-se, à primeira, a libertar o jogador. Já não era assim tão novo, tinha 16. Nada puderam quando a AFA clamou que a convocatória era para um jogo oficial da seleção sub-20, respeituoso dos critérios da FIFA, mesmo tendo-o organizado à pressa assim que desengatilharam a chamada de Lionel Messi e lhe pagaram a viagem de Barcelona, algo raríssimo para um jogador tão novo.
A Argentina tinha só um encontro particular em julho, contra o Paraguai, e à pressa pactuou com os responsáveis paraguaios a marcação de mais uma partida, esta em Buenos Aires. Tão apressada de arranjos que o adversário não tinha jogadores disponíveis nessa escalão de idade, teve de improvisar e levou vários com 21 ou 22 anos
A urgência estrambelhou os preparos da AFA, conta o relato da “Anfíbia”, porque ao invés de informar um árbitro internacional com a antecedência de um par de semanas, como de costume, o pedido para que apitasse o jogo chegou-lhe na véspera. “Disseram-me que era obrigatório que levasse as fichas da FIFA para registar o jogo, o que me chamou a atenção pois nesses jogos amigáveis o normal era nem ficar nada registado”, contou Gabriel Brazenas à mesma revista.
Quando chegou a La Paternal, bairro no nervo de Buenos Aires, e entrou no estádio reformulado no ano antes e rebatizado como Diego Armando Maradona, lembra-se de ouvir que “na segunda parte iria entrar um miúdo muito bom”. O árbitro era uma peça no plano engendrado para o recinto do Argentinos Juniors, o mesmo onde se estreara o Deus para todo um povo. Um estratagema foi até gizado com jornalistas, ou ao menos captado pelas suas antenas por saberem de tamanha urgência para um futebolista incógnito.
O “El Clarín“ urgiu Mario Quinteros, fotógrafo do jornal, para estar no jogo mas para o ignorar o futebol. “A partida não importa, importa o pibe”, disseram-lhe. Já no relvado, desconhecedor de quem era o miúdo, aproximou-se dos suplentes antes do encontro e perguntou qual deles era Lionel Messi, como recordou à “Anfíbia”. Ouviu um tímido “sou eu”, saído de quem se inclinara à frente e espetara a cabeça fora dos corpos recostados no banco. Apontou-lhe a câmara, como durante o jogo, numa prioridade que sairia furada: tanta coisa e na edição de 30 de junho de 2004 nenhum fotografia do evento constou no jornal.
Não reservaram espaço para Lionel Messi, entrado ao intervalo, com o número 17 na camisola largueirona no seu corpo — as mangas quase lhe tapavam as mãos. Entrou em campo já sem a farta guedelha que lhe repousara quase nos ombros ao aterrar em Buenos Aires, aparada por recado de Gerardo Salorio, preparador físico da seleção sub-20 que lhe dissera, lê-se na “El Gráfico“, ser proibido jogar nas equipas argentinas com cabelo grande (ditadura capilar que pode ter herdado de Daniel Passarella, que a impusera na seleção principal durante os anos 90).
Messi fatiou a frágil defesa do Paraguai com um golo tão seu, o sétimo dos oito marcados pela Argentina: a bola siamesa do pé esquerdo, a linha ziguezagueante de dribles entre corpos, um exercício do espantoso a tornar-se banal. Brazenas, o árbitro, contou que esteve “quase a interromper a jogada por estavam a pedir para fazer uma substituição”. Ganhou a seleção da casa e Ezequiel Garay, o capitão, pôde erguer o troféu comprado claro que à pressa, só uns dois dias antes, por um funcionário da federação mandatado para tal.
Lionel Messi após perder a final do Mundial de 2014, hipnotizado pelo troféu: a foto venceria a categoria de desporto do World Press Photo
VCG
Lionel Messi continua pequenote, hoje de meia-perna e de braço tatuados, enrugado nas bordas dos olhos pelos sorrisos de quem posou uma vez, e duas, e quatro e oito vezes com Bolas de Ouro, o mesmo número da vitória no seu primeiro jogo pela Argentina. Com a idade aparou o penteado curto, está um pouco grisalho agora que finda a sua luz em cores listadas a branco e azul celeste. Na véspera da estreia cumpriu o 17º aniversário; na prévia à despedida teve direito a asado na sede da federação, um churrasco pelo tanto que foi dando até aos 39 anos.
Dele não teremos mais vislumbre com a camisola da Argentina vestida, acabou, já acabara na final do Mundial mas os seus conterrâneos que o idolatram fizeram questão de que acabasse em apoteose. A festa será no estádio de nome apropriado, o Monumental de Buenos Aires, casa do River Plate. Na camisola que vestirá, uma especial, em tons dourados, estará tudo bem escrito: Lionel Messi.
Vestirá a 10 depois de se estrear com a 17, ser campeão mundial de sub-20 tendo o 18 no dorso e de jogar o seu primeiro Campeonato do Mundo de adultos com a 19. Foi uma carreira ascendente, e não é uma ilusão, já dizia Juan Villoro, escritor mexicano com pendor para o futebol: “O protagonismo do 10 é evidente, mas a sua maior virtude é melhorar os demais, que se esmeram por receber os seus passes. O verdadeiro sentido do número 10 nas costas consiste em indicar quantos jogadores dependem nele.”