Uma tradição frouxa com Ruben Amorim à mistura: o Boxing Day terá apenas um jogo este ano
Ruben Amorim vai viver o Boxing Day pela segunda vez da carreira com o Manchester United
Ash Donelon
Ao contrário do que manda a tradição, a Premier League terá só uma partida jogada no Boxing Day esta época, quando o Manchester United de Ruben Amorim receber (20h, DAZN1) o Newcastle em Old Trafford. Quem manda no principal campeonato inglês diz que assim será devido à sobrelotação causada no calendário devido ao novo formato das provas da UEFA
A Premier League vai buscar a sua fama a muitas coordenadas que afagam o carinho de quem gosta de futebol. O futebol é bom, mas o espetáculo é ainda melhor: seja qual for o estádio, as bancadas estão apetrechadas sempre de gente; lá não se grita golo, berra-se "yeah!" quando a bola entra; o estilo de jogo há muito que não assenta no kick and rush, embora se corra muito e haja bastante mais frenesim do que noutros campeonatos; acolhe uma carrada dos melhores jogadores do planeta. E, se faltassem motivos, há o Boxing Day.
Anda uma pessoa a digladiar-se com os restos do Natal, a descortinar forma de digerir as filhoses, as rabanadas e a ingestão de presentes, quando o mais endinheirado dos campeonatos de futebol regressa ao campo já depois de ter chamado os seus de volta ao trabalho. Mastigada a noite de consoada, em Inglaterra os jogadores treinam no 25 de dezembro, é regra, para no dia seguinte cumprirem a tradição de motivarem a romaria até aos estádios. Neste 2025, contudo, o empanturramento de bola noutras paragens prejudicou a tradição.
O 26 de dezembro, esta sexta-feira, não terá ação logo ali pela hora de almoço e muita mais pela tarde fora para acomodar uma pequena parte dos 380 jogos por época que a Premier League acomoda desde 1995. Haverá apenas o Manchester United-Newcastle, e à noite (20h, DAZN1). “Há agora vários desafios causados pela expansão das provas europeias, o que levou à revisão do nosso calendário doméstico”, lamentou, em outubro, a Premier League, culpando o engordar que a UEFA provocou nas suas competições: “Somos um campeonato só com 33 fins de semana.”
O ano passado, o primeiro em que a entidade que manda no futebol europeu aplicou o novo formato para a Champions, Liga Europa e Conferência, sem fase de grupos e com uma primeira fase que vai até janeiro, a Premier League ainda teve oito partidas no Boxing Day. Em 2025, só o United de Ruben Amorim e de momento sem Bruno Fernandes, o fiável capitão que foi apanhado por uma lesão - “é impossível de substituir, disse isso é equipa”, admitiu o treinador -, vai jogar em Old Trafford contra o Newcastle do delgado gigante Nick Woltemade, do extremo-corredor Anthony Gordon e do pulmão que tudo faz mover no meio-campo, Bruno Guimarães.
Por ter “menos fins de semana com os quais trabalhar, a liga limitada na forma como o calendário se forma”, lamentou a Premier League, ao culpar, sem criticar, o maior número de jogos que a UEFA impôs à agenda do futebol europeu desde a temporada passada. Ao invés de várias partidas no Boxing Day, como é costume, estão sete marcadas para sábado, 27 de dezembro, sobrando duas para domingo, 28. Mas em 2026, ajudados pelo ordenamento dos dias da semana, os responsáveis da Premier League garantiram que haverá mais encontros a coincidir com a tradição - por calhar a um sábado.
Este ano, a prática soa a uma jornada como outra qualquer. A não ser que Manchester United e Newcastle se animem, ponham o capacete do espetáculo e emulem os espíritos de 1963, quando o Fulham ganhou por 10-1 ao Ipswich Town no jogo com mais golos da história do Boxing Day. Marcaram 66 golos em uma dezena de partidas, o mesmo número que Harry Kane tem em golos feitos em jogos do Boxing Day. O capitão da seleção inglesa, hoje no Bayern de Munique, tem o recorde mais farto em bolas postas a dormir nas redes durante a tradição, todo feito quando representava o Tottenham.
Harry Kane a festejar em 2022, contra o Brentford, o seu 10º golo em jogos no Boxing Day
Eddie Keogh
A origem da tradição
Não é só o cansaço dos jogadores que tem causado desgaste no Boxing Day. A paragem das ligações ferroviárias no dia 26 e o aumentar das distâncias entre as equipas em confronto em plena quadra dedicada à família, quando anteriormente apenas se colocavam frente a frente clubes de cidades próximas entre si, juntam-se ao prato da balança reservado aos ‘contras’. No entanto, a tradição – e aqui tem de se pensar também na defesa do produto, uma vez que se tornou parte integrante e muito importante do mesmo – e as receitas que provêm das transmissões televisivas têm pesado mais.
Mas, de onde vem então a tradição?
A origem do Boxing Day, mesmo sem o futebol como anexo, é alvo de várias teorias. Há diferentes versões e poucas certezas. Uma delas insiste que nasceu do hábito de os padres na Idade Média abrirem no dia 26 – dia de Santo Estevão, primeiro mártir da Igreja Católica, apedrejado até à morte por acreditar em Jesus Cristo – as caixas (boxno singular, em inglês) de esmolas recolhidas até aí.
Outra confia que era o dia em que os criados do período vitoriano tinham folga, depois de terem servido os senhores no dia de Natal, e aquele em que levavam para casa uma caixa com ofertas e até eventualmente restos de comida. A terceira descreve uma caixa de dinheiro levada pelos grandes velejadores quando se faziam ao mar. A ideia era dar sorte. Em caso de missão bem-sucedida, esta seria aberta e o recheio entregue aos pobres.
O feriado popular e também bancário de dia 26 passou a servir para comer os restos sobrados das refeições das festas, para entregar presentes a parentes distantes e para a caça à raposa, rapidamente proibida. A febre consumista fez com que as lojas passassem a abrir com saldos, e juntaram-se a todo um movimento nacional também os eventos desportivos, como o râguebi, o hipismo e o futebol, filho pródigo da nação.
Esse dia de 26 de dezembro foi também aquele em que se realizou o primeiro encontro competitivo entre clubes. Em 1860, o Sheffield FC, o clube mais antigo do planeta, criado apenas três anos antes e hoje no oitavo escalão do futebol inglês, defrontou e venceu o Hallam FC, atualmente na 10ª divisão, por 2-0. Onze anos depois começava a tradição do Boxing Day no futebol. As quatro divisões inglesas, o resto do Reino Unido (Escócia, Irlanda do Norte e Gales) e as antigas colónias, saíam em peso para os campos para jogar. Os adeptos aplaudiam de pé.
O Fulham-Ipswich do Boxing Day de 1963 teve 11 golos marcados
Mirrorpix
66 golos
A engrandecer a lenda houve jornadas verdadeiramente memoráveis, como a de há 62 anos, aquela que ainda hoje é recorde. Em 1963, marcavam-se 66 golos em 10 jogos (média óbvia de 6,6 por partida), com resultados tão surpreendentes como o 10-1 com que o Fulham brindou o Ipswich, os 6-1 do Burnley ao Manchester United e do Liverpool ao Stoke City, o 2-8 entre West Ham e Blackburn no Boleyn Ground e a goleada do Chelsea na visita a Bloomfield Road e ao Blackpool por 5-1.
Até os empates foram gordos: WBA-Tottenham, 4-4; Nottingham Forest-Sheffield United, 3-3; e Wolves-Aston Villa, 3-3. Mais normal o 2-0 com que o Leicester recebeu o Everton e o 3-0 em Hillsborough entre Sheffield Wednesday e Bolton.
Um dia de excessos na First Division, uma vez que ainda não tinha sido criada a Premier League – tal só aconteceria em 1992 –, a cair como uma maravilha na quadra. “Marquei o nono golo. Havia sempre resultados estranhos no Natal. Era algo que simplesmente não se controlava. Podíamos ganhar por muitos, é verdade, mas também perder por muitos”, lembrava Alan Mullery, avançado do Fulham aqui há uns anos, ao jornal “Daily Mail”.