As consequências do sucesso do Gil Vicente: depois de Pablo, agora vendeu Andrew Ventura
O brasileiro Andrew era um dos melhores guarda-redes da I Liga e estava há quatro épocas e meia em Barcelos
Eurasia Sport Images
Feita a melhor primeira volta da sua história, o Gil Vicente já transferiu dois jogadores nucleares da equipa, mostrando como os clubes de pequena ou média dimensão em Portugal arriscam não completar uma época com o projeto inteiro caso deem nas vistas. A equipa de Barcelos ficou à mercê do seu próprio sucesso
São dores de brilharete comuns a quem ousa viver acima das possibilidade no futebol português: faz meia época a dar nas vistas, chega o inverno, põe-se o Natal no meio, vem janeiro e sujeita-se à delapidação. É a sina para uma equipa que seja alheia aos ditos três grandes, estranha ainda ao Sporting Clube de Braga ou ao Vitória Sport Clube, humilde de orçamento, que congemina uma maneira de ter o treinador certo, reunir os jogadores certos e acertar na abordagem.
O Gil Vicente anunciou, na quinta-feira, a venda de Andrew Ventura para o Flamengo, ficando sem o titular da sua baliza e um dos melhores donos de luvas que protegiam as as redes na I Liga. Diz a imprensa desportiva que o quinto classificado do campeonato português, a viver com um parco orçamento, vai lucrar 1,5 milhões de euros com a transferência do guarda-redes para o campeão brasileiro e sul-americano, gigante do Rio de Janeiro apetrechado de dinheiro.
O guardião, de 24 anos, estava há quatro temporadas e meia em Barcelos a ser um dos destaques da sua função em Portugal, com realce para esta época: treinados por César Peixoto e pela sua vontade em ter uma equipa protagonista com a bola, assente em futebol apoiado e em construir jogadas com passes curtos da sua própria área, os gilistas têm sido um dos melhores projetos da I Liga. Apesar da série de cinco empates consecutivos, já venceram o SC Braga e empataram com o Sporting.
De trás para a frente, o Gil erigiu uma equipa que registou a melhor primeira volta da história do clube, com 26 pontos somados, estando dentro da corrida pelos lugares europeus. Um dos truques foi ter forjado um conjunto com esteios em cada setor.
Após marcar 10 golos em 14 jogos, o avançado Pablo foi vendido ao West Ham, da Premier League
Rob Newell - CameraSport
Na defesa embala com a experiência de Ghislain Konan pela esquerda e a de Jonathan Buatu ao centro. No meio-campo montou um motor da equipa a carburar com o talento português de Luís Esteves a mandar nas jogadas, pedindo ao argentino Facundo Cáseres e ao espanhol Santi García que orbitem em seu redor; no ataque, além de Murilo, tinha o poderio de Pablo, avançado que marcou 10 golos em 14 jogos até o sucesso coletivo o transformar num alvo fácil pela condição inerente ao Gil Vicente.
Pablo Felipe foi vendido, neste mercado, ao West Ham da Premier League por €20 milhões, valor irrecusável para um clube de pequena ou média dimensão em Portugal: para servir de escala, o site Transfermarkt cifra o valor atual do plantel gilista nos €25,5 milhões. Fora do mundo de FC Porto, Sporting e Benfica, um clube que chegue a janeiro com uma época feita como a do Gil Vicente sujeita-se a ter um projeto bem construído desmembrado pela força do tipo de dinheiro que não tem.
Na baliza da equipa de César Peixoto estava, até agora, Andrew, o quinto guarda-redes com maior percentagem de defesas (81,5) em 17 jornadas do campeonato, aquém de Diogo Costa, do FC Porto (85,2%), Caio Secco do Moreirense (84,8%), Rui Silva do Sporting (84,8%) e de Lazar Carevic do Famalicão (84,5%). Mas, pelos dados do site FBRef, dedicado às estatísticas, apenas este último montenegrino enfrentou mais remates (71) do que o brasileiro (54). A sua saída é outra consequência do sucesso gilista.
Engordam os cofres do clube de Barcelos, emagrece o poder das armas que César Peixoto tem no plantel com que trabalhou a dita “equipa sensação” do campeonato, alcunha fácil para casos destes. A outra poderia ser o Moreirense de Vasco Botelho da Costa, sexto classificado do campeonato com o treinador estreante na I Liga. As sinas do sucesso - fez a terceira melhor primeira volta da história - também a estão a visitar: Guilherme Schettine, melhor marcador da equipa, com nove golos, já saiu para os chineses do Tianjin Jinmen Tiger.
Órfãs de fontes de rendimento proveitosas vindas de direitos televisivos, bilhética ou patrocinadores, custa a clubes como o Gil Vicente ou o Moreirense resistirem ao assédio feito aos seus jogadores. À sua dimensão, são as consequências do sucesso: os proveitos com transferências tornam-se irresistíveis.