Morreu Silvino Louro, que esteve lá nas finais do Benfica e lá nos títulos de Mourinho
Silvino Louro, à direita e com uma mão na Taça de Inglaterra conquistada com José Mourinho e o Chelsea, nos anos em Inglaterra
Darren Walsh
Os mais jovens lembrar-se-ão dele ao lado de José Mourinho no Porto, em Londres, Madrid e Manchester. Os mais antigos tê-lo-ão visto a defender a baliza do Benfica em duas finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Outrora guarda-redes que foi seis vezes campeão nacional, Silvino Louro morreu esta quinta-feira, aos 67 anos
As memórias frescas têm cola mais peganheta, daí se dizer que as últimas impressões são as que contam e as mais recentes de Silvino Louro no futebol tiveram super-cola. Quando um carismático e atrevido, sobretudo jovem José Mourinho, chegou ao FC Porto, em 2002/03, incluiu na sua equipa técnico um nome com nome na praça do futebol, porventura até mais do que o então novo treinador dos dragões.
Era Silvino Louro.
Com passado entre postes e uma trave, residência de vida na baliza, já se incumbia de treinar guarda-redes desde 2000 embrulhada uma carreira de 23 anos a tentar impedia que uma bola passasse por ele. Nascido em Setúbal, defendera o retângulo do Vitória, do Salgueiros e do FC Porto, mas nunca com tanto destaque como no Benfica, onde perfez oito épocas e conquistou quatro dos seus seis títulos de campeão nacional.
Naturalmente, Silvino Louro era conhecido.
Mais conhecido ficou uma vez feito parte do staff de José Mourinho. Incumbido de trabalhar com quem se dedicava à posição mais solitária do futebol, viveu cada um dos anos dourados do percurso do treinador mais cintilante que Portugal já teve.
À Taça UEFA no FC Porto juntaram a Liga dos Campeões cheios de pressa, logo no ano seguinte; em Londres foram campeões ingleses com o Chelsea milionário de Abramovich, um dos títulos ainda mais histórico por a equipa só sofrer 15 golos; despedido Mourinho dos blues, rumaram a Milão, contratados para darem uma Champions ao Inter e cumprirem no que lhes foi pedido; pularam logo para Madrid, na experiência mais belicosa e com maior atrito, onde rivalizaram com o Barcelona de Pep Guardiola e conseguiram conquistar a liga espanhola com 100 pontos.
Silvino Louro esteve sempre lá e lá ficou enquanto, aos poucos, os adjuntos originais saíram, foram-se André Villas-Boas ou Rui Faria, ele permaneceu para regressar com Mourinho a Londres, serem campeões de novo, acabarem despedidos novamente e rumarem a norte, parando durante quase três anos em Manchester para conquistarem uma Liga Europa com o United. De 2002 a 2019, o antigo guarda-redes trabalhou só com José Mourinho.
A equipa titular do Benfica na final de 1988 da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Silvino Louro era o guarda-redes
Peter Robinson - EMPICS
O guarda-redes das finais
De luvas postas, Silvino chegou a jogar com quem treinou, Deco e Vítor Baía foram seus pares no FC Porto, já no final de carreira, bem depois de partilhar aventuras na relva com incontáveis companhias no Benfica.
Do seu poiso debaixo da trave viu as reviengas de Fernando Chalana e os golos de Rui Águas, os passes de Diamantino e Valdo, a calma de Shéu, veria jovens a surgirem como Paulo Sousa a meio-campo ou Vítor Paneira a correr pelo flanco direito. Teve a área protegida por Carlos Mozer, Veloso ou Álvaro Magalhães onde ele se punha como última barreira. Silvino estava lá sepre também.
Era ele o guarda-redes nos penáltis com o PSV, em 1988, que empurraram os benfiquistas a versarem sobre a cantilena da maldição de Béla Guttman ao perderem a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Seria o capitão da equipa que perdeu, em 1990 e com o AC Milan, em mais uma decisão da prova mais cobiçada, primeiro treinado por Toni e depois ordenado por Sven-Göran Eriksson. Na seleção nacional contou 23 jogos.
Com o cavalheiresco Bobby Robson e o bigodesco António Oliveira venceu os últimos dois títulos de campeão nacional (1996 e 1997), no FC Porto, agradecendo a quem acreditasse estar a cuidar de si lá em cima por calhar na mesma equipa de Mário Jardel, o super na cola com os golos como Silvino usava super-cola nos troféus: tinha 11 conquistados quando terminou a carreira de jogador. Em 2021, terminada a aventura no Al-Hilal Omdurman dos Emirados Árabes Unidos, o seu último trabalho, contava 25 títulos ganhos como treinador de guarda-redes.
Só não partilhou um dos canecos que José Mourinho tem na sua coleção. De resto, Silvino Louro esteve lá sempre.